» ARQUIVOS |
velhoescriba@oi.com.br  

Leia as piadas mais engraçadas da Internet em RsRsRs . Envie também a sua piada. Clique AQUI

» RIO DE JANEIRO, 4 DE SETEMBRO DE 2006

Cauby! Cauby!

Era uma linda tarde de sábado, eu tinha oito anos de idade e cursava a 2ª série do curso primário no antigo Colégio Atheneu São Luiz, situado na mesma rua onde morava, a Silveira Martins, no bairro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, logradouro onde residiu, por muitos anos, o grande sambista Cyro Monteiro - tio do mais famoso intérprete da música popular brasileira - um verdadeiro "sangue bom" e a quem conheci, cantando baixinho e batucando em sua famosa caixa de fósforos, junto ao balcão do vizinho Café e Bar Palácio. Naquela data, minha escola celebrava o seu aniversário de fundação.

Na quadra de basquetebol fora montado um palco para o show que cantores e músicos da Rádio Nacional lá iriam fazer. Eu estava uniformizado, como todos os meus colegas de sala.

Às 15h00, após uma breve saudação do já falecido professor Roberto, diretor da instituição, teve início uma seqüência de primorosas apresentações. Às 17h00, já era sentida, no local, a atmosfera inconfundível que sempre antecede momentos muito aguardados; no caso, a chamada do último dos artistas contratados.

De repente, iniciou-se um barulho ensurdecedor e eu só conseguia ouvir "CAUBY! CAUBY!; afinal, eu me perguntava, de quem se tratava?

Surgiu então um adulto, de aparência jovem, cabelos negros com um pouco de brilhantina e penteados para trás, trajando um terno de cor clara. Era ELE!

Consciente de seu domínio e carisma junto àquela platéia, deslizando naquele modesto cenário com um passo elegante e tranqüilo, um sorriso maroto nos lábios e acenando, com simplicidade e simpatia para todos que lá estavam, dirigiu-se ao microfone e começou a cantar acompanhado de um quarteto.

Quase não se ouvia a sua voz, pois verdadeiras declarações de amor lhe eram dirigidas em altos brados. Eram mocinhas, senhoras, idosas, enfim, sua apresentação despertava e liberava um verdadeiro tsunami de emoções contidas.

Foi a primeira vez que o assisti. Fiquei impressionado.

Algumas décadas após, no dia 01/09/2006, me vi sentado na quinta fila da platéia do Teatro SESC Ginástico, observando uma não disfarçada excitação dos espectadores aguardando o início do musical biográfico deste que já é, em vida, uma lenda da nobreza artística brasileira.

De repente, as luzes foram se apagando, lentamente, subiram as cortinas e, de um balcão elevado, ele surgiu, com sua voz poderosa e ao mesmo tempo suave, cantando "Conceição", em uma inesquecível interpretação do excelente Diogo Vilela.

O Cauby cantor "arrasou" e o Cauby pessoa foi mostrado com tanta competência, emoção, suavidade e fino humor, que permitiu a todos que lá estavam entrarem na máquina do tempo e curtirem a intimidade daquele raro momento disponibilizado.

A vigorosa direção de Flavio Marinho, valorizada por um competente elenco em perfeita sintonia e cumplicidade com os músicos talentosos que lhe deram suporte, em um ambiente de inteligente cenografia, permitiu relembrar grandes nomes da história da Rádio Nacional e da Bossa Nova.

Angela Maria, Emilinha Borba, Lana Bittencourt, Nara Leão e Wanda Sá, retornaram à cena, imortalizadas, poderosas e muito afinadas, para o encanto dos que lá tiveram o privilégio de estar.

Os diálogos travados possibilitaram aos espectadores reconhecerem um Cauby Peixoto que sempre se caracterizou por um estilo inimitável, fino humor e profissionalismo. Como ele sempre afirmou: "Eu sou um pobre que nasceu para ser príncipe".

A alegria dos que me cercavam, como o casal Lourdes & Edson, que estava sentado a meu lado, com dedos entrelaçados, e cujas lágrimas desciam livres e vencedoras em seus rostos avermelhados por tanta emoção, firmou a minha convicção de que CAUBY JÁ NASCEU PRÍNCIPE E RICO, POR TANTO TALENTO POSSUÍDO.

Ao terminar o espetáculo, me juntei ao entusiasmado público que, de pé, aplaudindo, sorrindo e acenando aos atores, gritava a uma só voz: "CAUBY! CAUBY! Repetia-se, assim, um episódio que eu já vivera em minha infância.

Diogo Vilela, com sua magistral performance, ficará registrado, para sempre, na memória dos que assistiram ao musical, e saíram de lá "com gosto de quero mais".

Fui informado de que o espetáculo será encenado no RIO até o dia 01/10/2006, seguindo, após, para São Paulo. De 05/01/07 a 11/02/07, retornará à Cidade Maravilhosa, e terá como cenário o TEATRO JOÃO CAETANO, que possui 1.200 lugares.

Já estava saindo do teatro, quando o Julio, o rapaz dos programas me perguntou:

"Ei, Velho Escriba, não vai levar um, também?"

Me virei, garanti o meu precioso exemplar, caminhei alguns metros e entrei no táxi parado em frente ao teatro, sentindo uma sensação de rara felicidade por aquele momento vivido e, ao mesmo tempo, de esperança de que através da cultura possamos recuperar o importante papel que o espaço carioca sempre representou para a arte cênica brasileira.


Voltar | Capa

 
 
» Outros Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's | Infantil| Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise | O Que Estou Lendo | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais |
2006/2008 © SCB - Sistema Crônicas Brasileiras de Radiodifusão Ltda -. Todos os direitos reservados.