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tarcisiopereira@bol.com.br

» João Pessoa, 2 de setembro de 2006

A loucura mora em cima

Móveis se arrastavam durante a noite, como se houvesse um terremoto no teto do apartamento. No teto, curioso isso, mas o terremoto vinha do teto! Não sabendo, inicialmente, do que se tratava, agüentou calado por um mês inteiro. Durante o dia, tentava descobrir quem morava em cima, mas o apartamento estava sempre fechado. Tinha chegado há pouco tempo e não dispunha da intimidade de nenhum condômino. Ficou então aguardando o dia de conhecer a razão - e, enquanto isso não acontecia, ia dormindo mal, incomodado com o barulho dos móveis que vinham do andar superior.

Certa manhã, ao sair do prédio, parou ao lado de uma moradora que varria o saguão. Foi a primeira vez que abordou alguém do condomínio.

- Desculpe, mas a senhora pode me informar quem é a pessoa que mora no 403?

A mulher sorriu com certa malícia:

- É Cassandra. Está separada faz cinco meses, mas o marido vem aí de vez em quando.

Antes que ela tomasse para outro sentido, cuidou de explicar:

- Olha, eu sou o novo morador e...

A mulher não o deixou terminar:

- Eu sei. Todo mundo aqui já lhe conhece. O senhor é do 303.

E, rápido, com se acudido por um socorro, ele tratou de explicar:

- Isso. Do 303. E não estou conseguindo dormir desde que cheguei, pois ela passa a noite inteira arrastando móveis.

- É normal. O outro morador do seu apartamento foi embora por causa disso. Chegaram a ter discussão.

Concluiu, finalmente, que tinha entrado numa fogueira - justo ele, que não suportava confusão com vizinhos.

- Mas por que isso? - perguntou, ao que a mulher respondeu que a tal Cassandra passava a noite inteira bebendo.

Pelos dias seguintes tentava avistar Cassandra, mas parecia uma criatura misteriosa. Foi informado de que ela dormia o dia inteiro, só acordando no final da tarde. Como ele saía cedo para trabalhar, e só voltava à noite, nunca conseguia encontrá-la.

Chegou um momento em que foi ele quem desistiu de dormir, esperando os móveis. E nem terminou de se decidir quando o alarme de uma poltrona roncou em cima da sua cabeça. Depois uma cama, no compartimento vizinho; em seguida o fogão e depois a geladeira, na cozinha. Ele ficou percorrendo cada compartimento e olhando para o teto, já sabendo qual era o móvel que se arrastava.

Tomou uma providência: começou também a arrastar seus móveis sem parar, revirando o apartamento inteiro. Voltou a fazer isso no dia seguinte - até que o morador do 203, que morava abaixo, bateu na sua porta às três da manhã.

- Me desculpe, mas eu não estou conseguindo dormir, pois desde ontem que o senhor arrasta móveis sem parar.

Ele riu, vingativo:

- Vá reclamar da mulher de cima. O barulho vem do 403.

O morador do 203 resolveu pagar com a mesma moeda: começou também a arrastar seus móveis sem parar, até que foi abordado pelo morador do térreo, o 103, que foi lhe bater à porta:

- O senhor não está me deixando dormir.

Ele disse a mesma coisa que ouvira do outro:

- Estás enganado. Esse barulho vem lá de cima, do 403.

O homem do térreo passou a fazer a mesma desordem dentro de casa, foi reclamado pelos vizinhos do lado e botou a culpa em Cassandra. Em poucos dias, todos os habitantes daquele condomínio, ao invés de dormir, varavam a noite arrastando móveis.

Deu-se então que, certa manhã, o morador do 303, o mesmo que iniciara a vingança, encontrou um caminhão de mudança na frente do condomínio. Imaginou que eram novos moradores chegando ao prédio, e aproximou-se de uma mulher para fazer um alerta:

- Antes que esse caminhão seja descarregado, aconselho que desista de morar aqui.

A mulher respondeu:

- Mas não estou chegando, eu estou saindo.

Ele franziu os olhos e, desconfiado, perguntou:

- O seu nome é Cassandra?

Ela sorriu:

- Com todo prazer.

Ele sacudiu a cabeça, perplexo de vê-la, até que resolveu perguntar:

- E por que está se mudando, Cassandra?

- E quem consegue ficar nesta loucura? - disse ela, na mais explícita lucidez. - Não consigo dormir: os moradores deste prédio estão pirados, passam a noite inteira arrastando móveis.

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Tarcísio Pereira é escritor e teatrólogo.

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