DIÁRIO DA MAMÃE LOUCA
Domingo:
Uma mulher como eu não tem o muito que ser, só o que sentir. Ser, já fui alguma coisa, eu era feliz e queria ser mais. Toda felicidade é medíocre, e só a tristeza e a insatisfação é que engrandecem a criatura humana. Chove lá fora e faz frio aqui, dentro de casa. Amaranto saiu para ir jogar no bingo, os meus filhos mais velhos estão namorando e só Marcinho - o caçula - está sentado no quarto vizinho para escrever poesias e livros. Não posso interrompê-lo, ele não gosta. Devo aceitar este domingo tristonho com sua chuva que bate nas telhas. O domingo é a tristeza de Deus.
Segunda-feira:
Ele era rico. Só me casei porque ele era rico. Mas era papai quem queria assim... Tinha um comércio bem abastado e hoje não passa de vigilante noturno. Diz que eu sou a culpada, que acabei com a riqueza dele comprando vestidos e jóias caras. Meu marido rico que ficou pobre já não se importa comigo. Também estou pouco me lixando, perdi o gosto por ele. Deixou de me procurar quando comecei a ficar gorda.
Terça-feira:
- Quero dinheiro para ir na cidade - eu disse hoje ao Amaranto, e repito isso todos os dias. Ele me olha estupidamente e responde que ainda não saiu o pagamento. Eu passo trinta dias esperando o salário dele. E quando chega o final do mês, insisto:
- Hoje quero dinheiro para ir na cidade.
- Vai fazer o quê, na cidade?
Meu Deus, ele nunca se acostuma que eu só quero sair um pouco de casa. Dá até pra desconfiar que sente ciúme, como se houvesse motivo para ter ciúme deste resto de gente.
Quarta-feira:
Eu rezo muito. E Amaranto diz que as minhas rezas não valem nada, apenas porque uso vestidos bonitos para ir à igreja. Me eduquei assim, ora. Não posso mudar as coisas. Lá em casa, meu pai não deixava que faltassem vestidos para as suas filhas.
Quinta-feira:
Que sorte, eu tenho: sessenta anos e nem um fio de cabelo branco! É algo que me recompensa, pelo menos isso. Já botei a comida na mesa e ninguém veio almoçar até agora. Vou comer sozinha, não importa. Quando fico em casa, abandonada, passo chave nas portas e aproveito para examinar o meu corpo, e não suporto a imagem da mulher pançuda que aparece no espelho. Vou para a mesa, senão a comida esfria.
Sexta-feira:
Fui à igreja hoje. Porque não perco uma missa na primeira sexta-feira do mês. Talvez tenha sido o dia em que mais me pintei depois de velha. Caprichei nos cílios, e também no vermelhão do batom. Vendo-me "bonita", Amaranto veio logo pilheriar, perguntando se eu ia namorar o padre. No silêncio, apanhei a bolsa e saí para a igreja.
Sábado:
As noites de sábado são as piores. Não fica um filho em casa, nem mesmo Marcinho, que já possui dezessete anos e a vida dele não é só poesia, deve ter saído para namorar. Amaranto é vigilante noturno e está trabalhando na mansão da praia. Já vieram me dizer que ele tem um chamego com a empregada da casa, mas não quero pensar nisso. Eu caio na cama, estou chorando nessa mistura de culpa e solidão. Marcinho, meu querido, volte cedo... Não me deixe morrer não... Sua mãe está tão triste aqui na cama!
Domingo:
Hoje é domingo de novo. Está chovendo outra vez. Amaranto foi marcar o bingo. Os filhos mais velhos foram namorar. E Marcinho está escrevendo no quarto.
Que significa isso? Rotina. Um ciclo de ondas que vão e voltam. Mas quero outra semana, ainda que com as mesmas dores. Sei que o ciclo fechou-se, mas que retorne amanhã para as mesmas coisas. Uma semana basta, os sete dias apenas, o tempo que Deus precisou para o mundo ser feito. O resto é repetição, é fazer de conta, é se iludir. Marcinho, meu filho, vem cá... Sua mãe está tão sozinha aqui no quarto!
Uma noite ele me encontrou assim, como estou agora. Ficou olhando, parado ali na porta. Eu olhei para ele sem entender, mas senti que ele queria chorar. Ele abriu a boca e disse apenas isto, com sua voz de poeta jovem que quer virar escritor:
- Se preocupe não, mãe. Senão endoidece.
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Tarcísio Pereira é escritor e teatrólogo.
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