Perdido na Metrópole LIII
Pedido no Centro da Terra
Colagem: Silvio Alvarez
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O Perdido na Metrópole vai para o quarto final de semana consecutivo indo e vindo na ponte-aérea-que-se-vai-de-ônibus, aquela, de Joanópolis a São Paulo. O motorista do busão pinga-pinga, simpático que só ele, até passou a chamá-lo pelo nome. No mais, nosso destemido herói escrevinhador-arteiro, ex-fumante há três longos meses, prossegue acertando a cachola, certo de que sua vida já mudou para melhor e de verdade.
Tem sido muito bom voltar a perambular metropolitanamente. Nessas viagens com a finalidade de tocar em frente o projeto Murographia do SESC Ipiranga, depois de tanto tempo enclausurado entre minhas quatros joanopolenses paredes cafôficas, tenho notado o quanto é legal a gente respirar urbanidade de vez em quando. Ainda mais para quem nasceu e viveu por tanto tempo em São Paulo. Até que não perdi a prática de andar na cidade, de permanecer de pé dentro do ônibus, praticamente surfando com ele em movimento, de ter de esperar em fila disso, em fila daquilo...
E quanto ao assunto tratado na crônica anterior... Ainda estranho um bocado, mas já estou mais adaptado ao sistema hoteleiro fast food vigente. Digo adaptado pois concordar com ele são lá outros mil e quinhentos.
Mudando um cadim de assunto, gostaria de narrar um fato sassucedido comigo na estação Alto do Ipiranga do Metrô. Sempre tive medo de altura, não é novidade. Só que, de um tempo para cá, o que era uma incômoda vertigenzinha passou a dar as caras como pânico desesperado. A mencionada recém inaugurada estação deve bater todos os recordes de profundidade subterrânea. Êta buraco alto. Ao passar pela dita cuja sinto-me o próprio Julio Verne em Viagem ao Centro da Terra, com o Dante de um lado e o capeta em pessoa do outro. Ainda mais com aquela luzinha de boate azul-funeral ensaiando um efeito especial tétrico. Bem que poderiam chamar o Rick Wakeman para compor o som ambiente. Pois bem, assim que desci do vagão logo vislumbrei o árduo e assustador desafio, três lances de escada rolante. Até aí tudo beleza. O problema é que o arquiteto da magnânima estação decidiu fazer tudo de vidro. Não há como não ter medo de altura com uma escada gigantesca todinha de vidro. Ou eu que sou exageradamente medroso?
Escalei todos os santos de plantão, fechei os olhos, puxei o Rex (minha mala de rodinhas) para perto e comecei a subir na escada rolante dessa que mais parece uma catacumba high-tech do Dom Pedro. Conforme meu esqueleto foi subindo o friozinho na barriga foi chegando como se eu estivesse para embarcar na Montanha Russa do parque temático do Everest. E ao sair de uma logo aparecia outra. Faça-me o favor. Ninguém merece. Três claustrofóbicos lances depois, cheguei lá em riba vivo. Sobrevivi, é certo. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto... Daqui para frente, na estação Alto do Ipiranga, principalmente se for para descer, só se puder andar de elevador.
Na semana passada vivenciei outra situação incomodamente interessante. Carregando uma mala pesada, repleta de material para recortar em casa, e aflito para chegar a tempo de embarcar no Terminal Rodoviário do Tietê ousei pegar um táxi. Como estava com o dinheiro contado achei melhor perguntar ao motorista quanto que mais ou menos exatamente poderia custar a corrida. Com o CD Player do alvo automóvel rolando a canção que o Roberto Carlos gravou para homenagear a tão rodada categoria, o condutor do possante fechou questão em trinta e cinco reais. Fiquei quietim, na minha, mas não engolitão facilmente o valor proposto. Na hora senti um forte cheirim de mutreta no ar. Não é que o dito cujo desligou o taxímetro para que eu não visse o valor real do serviço? Fiquei tiririca, Tom Calvalcante... A trupe toda. Quando percebeu minha indignação, tratou de recuar e diminuir cinco tostões do total da facada. Aceitei, mesmo porque não tinha lá muita escolha devido ao adiantado da hora. O sujeito desconversou, fez como se nada fosse, voltou a colocar na fuça uma feição de bom moço e seguimos em frente.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
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