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» SÃO PAULO, 18 DE ABRIL DE 2008

Perdido na Metrópole LII
Pedido na Recepção

Colagem: Silvio Alvarez

Um pouco desorientado a princípio, como de hábito, mas já total e euforicamente envolvido com o projeto Murographia, do SESC Ipiranga, nosso herói arteiro voltou a perambular profissionalmente por São Paulo.  Foi o segundo final de semana consecutivo de uma série de cinco.

Como é maravilhoso quando estamos envolvidos com algo que gostamos de fazer, que fazemos com amor, né não? Nosso projeto artístico vai bem, obrigado. Coordenando uma animada equipe composta por sete jovens na faixa dos 13, 14 anos, em média, prossigo na produção da colagem gigante proposta pelo SESC. Arte já é algo incrível de se fazer sozinho, imaginem ao lado de uma galera afoita por conhecer e desvendar o mundo, uma viagem.

Quanto às aventuras metropolitanas perdidas, prossigo saindo melhor que a encomenda, nem parece mais que permaneci tanto tempo trancafiado em  meu cafofo joanopolense. Tudo tem dado certim, só ainda não estou lá muito adaptado com o sistema hoteleiro economicamente fast food em voga. Reservei meu apartamento pelo telefone, anotei o código da reserva, do jeitim  que a recepcionista eletrônica mandou. Ela bem que avisou que precisava chegar no referido hotel até as 18:00 horas do tal agendado dia, caso contrário...

Pois bem, depois de viajar por duas horas e meia no ônibus pinga-pinga de sempre e de ficar preso dentro do dito cujo por mais uma hora devido a um daqueles congestionamentos de sempre na Marginal Tietê, cheguei ao albergue multinacional todo esbaforidamente atrasado. Ainda no Metrô, a caminho do alojamento chiquim, pensei cá com meus ainda desajolados botões, desse jeito não chegarei a tempo e terei desobedecido a andróide do telemarketing hoteleiro. Entrei na fila do check in mais ou menos precisamente 8 minutos depois das 18:00 horas, o horário limite. Como, após a chegada, fui obrigado a permanecer em formação indiana por mais meia hora, fiquei tranqüilo. Concluí, se estou atrasado, esse povo todo da fila também está, do mesmo jeitim, uai. Estava certo, não perdi a vaga. De qualquer forma, ao preencher a ficha, a mocinha da recepção não perdeu a oportunidade de passar uma raspança...

  1. Veja bem, meu senhor. Quero apenas deixar claro que iremos aceitar sua reserva mesmo depois do horário, mas...

 

Com uma cara de tacho abobadamente surpreso apreciei o nada receptivo discurso da uniformizada mocinha. Devo admitir aqui, mesmo correndo  o risco de nunca mais poder pisar na dita cuja rede hoteleira, que precisei de um esforço pra lá de enorme a fim de não voar no pescoço desta que mais parecia a reencarnação da inspetora de classe que perturbou os meus primários e escolares dias. Está certo que ela estava trabalhando e cumprindo ordens, muito provavelmente, mas já que disse o que, desnecessariamente, a meu mirde hóspede ver, também teve de ouvir algo desnecessário e estupidamente barraquento. Uai, se ela já havia aceitado a minha incômoda e pouco importante reserva, mesmo que contrariando todas as normas do estabelecimento, para quê vir me dar sermão como se a empresa dela fosse a mais responsável do mundo e eu um reles, indesejado e relapso viajante.  Faltou pouco para não consumar um daqueles pitís de antigamente. Respirei fundo e subi ao nono andar.

No mais, agradeço todos os dias a existência do Metrô de São Paulo. Sem ele, nem quero imaginar como seria ter de me deslocar para cima e para baixo nesta cidade-mundo. Contudo, deixo aqui minha reclamação. A companhia inaugurou duas estações nas redondezas do bairro do Ipiranga. Muito bem, da hora. Só que, surprendentemente, ambas ficam a anos luz de distância do centro de tudo, o Museu do Ipiranga, que fica bem ao lado do SESC, meu destino. Resultado? Daqui a três semanas terei me tornado um expert em ruas e avenidas do Ipiranga, um verdadeiro guia perdido e andante.

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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
Visite o site do Perdido na Metrópole

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