Perdido na Metrópole XLVIX
Pedido no Desestressamento
Colagem: Silvio Alvarez
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Jurandir não é mais aquele. Pois é, descobri que o cãozinho mencionado na crônica passada era, na verdade, uma cadela. Até cheguei a tentar afastar a recém chegada cadelinha a fim de que meu coração não amolecesse, mas não teve jeito. Devidamente alimentada pela vizinha da esquerda, a nova amiguinha conquistou o pedaço. Passou a reinar nas imediações cafôficas como um animal de estimação coletivo, com todos os mimos a que tem direito e mais um pouco. Seu maior divertimento no momento é o de sumir com os capachos das casas. Isso quando não resolve também fazer cocô bem na entrada das mesmas. A agora rebatizada serelepe canina prosseguirá alegrando nossos dias até que alguém perca a paciência.
Mudando de assunto... Ontem passei por uma prova de fogo. Devo registrar - e comemorar - que, ao escapulir incólume da experiência que narrararei a seguir, provei, definitivamente, que estou livre de uma série de incovenientes químicos neuroniais. Refiro-me principalmente à ansiedade, que tanto perturbou este vosso amigo que lhes dirige os vocábulos, por muitos e muitos anos. Quantas vezes, por culpa deste estressante e aflito componentezinho, acabei por rodar a baiana desnecessariamente, complicando toda uma situação deverasmente corriqueira. Pois é, admito, já tive meus dias de barraqueiro. Mas hoje noto que era bem mais por uma necessidade interna do que propriamente pelo meu jeito de ser. Sempre fui de paz, oras. Só não gosto de fazer papel de palhaço sem cachê, mas até aí quem é que gosta, né não?
Precisei enviar dois CDs com as fotos de meus quadros a um espaço cultural de São Paulo. Depois de fotografar alguns trabalhos que faltavam e de correr para preparar o material virtual, restou-me tão somente o dia de ontem para as últimas providências. Contudo, para que a encomenda chegasse na data prometido, via SEDEX, deveria postá-la impreterivelmente até às 15:30 horas. Ajeitei tudo nos trinques dos conformes, combinei com o fotógrafo, com o webdesigner e, em vista da importância da tarefa, até que fui muito menos chato e exigente que de costume.
Mesmo com todo o planejamento dispensado, ontem foi um daqueles dias que tudo parece programado para dar errado. Choveu bem na hora de ir aos Correios, ao pegar um taxi o motorista não quis esperar porque tinha uma outra corrida mais lucrativa, o material virtual não ficou pronto a tempo e cheguei na agência depois do horário, enfim...
À primeira vista tudo parecia ter dado muito errado, porém... Ao terminar a odisséia, vi que foi graças ao imbróglio que pude constatar o mais importante... Que, pela primeira vez em muito tempo, consegui passar por uma situação estressantemente inusitada sem sair do prumo uma vezinha só que fosse. Sequer tive vontade – ou necessidade – de ficar bravo com alguém ou com o fato em si. Não dá para descrever a emoção de se ver livre de tal incômodo. Em vez de armar o barraco e queimar neurônios quem falou mais alto desta vez foi a minha parcela caetanicamente caymmica.
Não deveria haver a necessidade de elaborar e de saber o porquê de tudo o que acontece, mas creio que esta conquista deveu-se em parte à saída da nicotina do meu organismo, já que estou há mais de dois meses sem fumar. Ingerir menor quantidade diária de café também deve ter ajudado um cadim.
Minha maior diversão atualmente é a de acompanhar o desenrolar da limpeza mental, curtindo vivenciadamente, dia após dia, cada evolutiva novidade. Em algumas ocasiões, como a mencionada acima, nem me reconheço. Outra diversão é admirar a cara de espanto dos poucos vizinhos que, ao me verem sair às 6 da matina para andar e encher os pulmões de gasoso bem-estar, devem pensar com seus interioranos botões... - Ué, esse aí não era aquele que vivia trancafiado em casa, meio de mal com a vida?
- Sim, sou eu mesmo (teoricamente falando)... Agora em mais carne do que osso.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
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