Perdido na Metrópole XLVII
Pedido nos Resgates
Colagem: Silvio Alvarez
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O Perdido na Metrópole segue em frente a todo vapor. Ao agitar e colocar na linha a sua até então monótona e desregrada vidinha, nosso amigo causou um furdunço danado no arquivo “morto” de sua cachola. Como ainda precisa terminar de analisar e processar a avalanche de informações recebidas nos últimos tempos, as pastas das lembranças estão todas espalhadas pelo chão cerebral. Uma bagunça só. Atordoados com tamanha quantidade de papel fora do lugar seus neurônios arquivistas não sabem bem o que fazer. Mas, pelo andar da carruagem, do jeito que as coisas caminham rápido, tudo voltará logo para o lugar certo.
Por aqui está tudo certim, turma. Ando um pouco confuso com as novidades e ainda sem crer que tudo está mesmo acontecendo comigo. Trabalho para que a nova realidade conquistada seja mantida para todo o sempre. Eu não imaginava ser capaz de operar tamanho milagre. Mas aconteceu, ué. E já não é mais aquela especulação que fazia antigamente, aquela do “eu quero ser”, do “um dia eu serei”... Sou um novo cara, de fato.
Além da caminhada matinal pelas ruas do meu bairro joanopolense, passei também a ir quase todos os dias ao centro da cidade para resolver as pendências cotidianas caseiras. Se bem que aqui, na pacata Joanópolis, tudo fica mais ou menos exatamente no centro. Ou seja, abandonei a clausura caseira de uma vez por todas. De tanto permanecer trancafiado em meu cafofo os vizinhos ainda não sabem muito bem quem eu sou, mas aos pouco vou me reapresentando. Tudo faz parte de uma espécie de resgate. Sim, trata-se do resgate de uma vida, da minha vida.
Para dar ainda mais gás à maravilhosa nova realidade estive em São Paulo na semana passada. Fui confirmar uma novidade, que em breve será divulgada, e também para visitar um casal de amigos do qual sou padrinho. Eu não os via desde o casamento. Pode? Poder não pode, mas parece que compreenderam tamanha ausência. Que bom! Beto e Carol estão casados há 12 anos e há gloriosos 8 meses receberam o maior presente de suas vidas, o Matheus. Demorou, mas chegou a hora de visitá-los. Foi bárbaro. Para o Matheus levei um pato-fantoche cor-de-abóbora que foi fazendo qué-qué daqui até lá. Penso que, com o presente, estarei mais presente em sua infância. E ele poderá dizer sempre, este é o pato do meu tio.
Conhecer Matheus e rever seus pais foi uma das experiências mais prazerosas de toda a minha existência. Troquei fralda, dei papinha, fiz tudo o que tinha direito e mais um pouquinho. Parecia até que o garoto recém chegado ao mundo que ali estava não era tão somente o filho de dois dos meus melhores amigos. No meu coração, aquele molequinho todo serelepe também era eu, o meu novo eu. Enfim, resgatei o bebê perdido nas entranhas das repimbocas das parafusetas do meu ser. Não preciso dizer que a emoção foi demasiadamente mais maior de enorme, não é mesmo?
Retornei ao meu QJ arteiro em Joanópolis e a semana passou como um raio, de forma maravilhosamente proveitosa. No meio da tarde do domingo, estava eu aqui curtindo a modorra espetacularmente fantástica quando recebo uma ligação desesperada da Glaura. Amiga de muitos anos, ela mora perto de casa, às margens do rio (quase dentro dele), e está de molho na cama, resultado de uma queda e de uma conseqüente rachadurazinha na bacia.
Glaura ligou para pedir socorro. Choveu demais e a água invadiu sua casa. Sem poder se locomover, com a água entrando, o desespero tomou conta da nossa amiga, lógico. Corri ao seu encontro. Ao chegar ao local não tive muito o que fazer a não ser chegar o mais próximo que pude da ilhada residência, com a água pelos joelhos. Que sufoco. Quem sempre vê esse tipo de catastrófica ocorrência apenas pela TV não pode nem imaginar como é. Tentei vestir minha fantasia de Homem Aranha Procurando Nemo, mas não deu tempo. Glaura foi salva por um heróico policial militar, todo metido a forte, que a carregou em seus braços musculosos. Magoei. Saio de casa, corro risco de vida e outro herói chega primeiro. Assim não vale.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
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