Perdido na Metrópole XLVI
Pedido - O Lutador
Colagem: Silvio Alvarez
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É um pássaro? É um avião? É um trombadinha da melhor idade? Não, nada disso. É o Perdido na Metrópole que resolveu correr para recuperar a boa forma.
Esquelético do jeito que é, tendo desenvolvido uma considerável e nada estética barriguinha nestes quase dois meses de abstinência nicotínica, mais parece que o nosso amigo escrevinhador-arteiro engoliu uma azeitona transgênica.
Acreditem se quiser, passei a correr todas as manhãs. São 45 surpreendentes minutos de desenferrujante atividade física. É a mais absoluta verdade, juro. Já vai fazer um mês que estou nesta nova e bem mais saudável vida. Pois é, os vizinhos ainda não entenderam patavina. Comecei a acordar antes do que o galo (teve um dia que acordei e ainda ouvi o guarda-noturno) e a sair de casa lá pelas seis da matina para correr, ou melhor, para andar rápido. Os meus três ofegantemente serelepes neurônios, agora devidamente rebatizados para esta nova e patlética fase - Franck, Marilson e Vanderlei - estão pra lá de desorientados. Não é para menos, seu amo e senhor, de fumante inveterado, de sedentário contumaz, passou a querer atacar de Rocky, o Lutador em versão joanopolense, da noite para o dia. Sem a empolgante trilha sonora e sem a parte do ringue, lógico.
Eu nunca, jamais, em tempo algum pratiquei esporte direito, não nesta encadernação, pelo menos. Algumas poucas e frustradas aventuras não contam. Antes de saber que não nascera para herói olímpico, tentei de tudo um pouco. Atletismo não deu. Sempre fui muito magro, além da conta, precisava correr com pedras nos bolsos a fim de evitar uma decolagem. No salto, certa vez, meus coleguinhas chegaram a pensar que eu fosse a vara. Basquete era um outro inferno. A minha coordenação motora de campeão de palitinho não colaborava lá muita coisa. A bola não parava de pular, aquela desgraçada. E ainda tinha o lance esquisito de não poder andar. Como é que eu poderia chegar mais perto da cesta sem andar? A NBA lamenta até hoje, mas também não deu pra mim no basquete. O vôlei eu curtia um pouco mais. Só que cansa esperar no banco de reservas, né não? Que Jornada nas Estrelas que nada, meu saque recebeu outro apelido: Perdido no Espaço.
Futebol, então... Ô coitado, nem pensar. Creio que já contei essa história aqui, lembro como se fosse hoje. Traumatizou deveras. Aconteceu no Colégio Jardim São Paulo. Creio que tinha uns oito aninhos à época. Ginásio lotado, caíram na besteira de me escalar para goleiro de futebol de salão. Péssima idéia. Eu acabei permanecendo todo o tempo praticamente dentro do gol apenas contando as bolas que passavam por um lado, por outro, principalmente por debaixo das pernas. Ô dó. Abri o maior berreiro lá mesmo em quadra. Na arquibancada, meu pai e meu avô demonstravam não terem gostado nadinha. Acredito que foi neste exato momento de minha trajetória que eles perceberam, de um vez por todas, que eu não seria um craque fenomenal do futebol europeu.
Voltando à atualidade, devo considerar que penei um bocado ao estrear como maratonista matinal. Esta anta quase atrofiada que vos escreve, há sabe-se lá quanto tempo praticando tão somente movimentação de mouse, na hora de sair para correr, caiu na besteira de deixar pra lá alguns cuidados básicos. Esqueci, por exemplo, de fazer aqueles alongamentos todos antes. Pode? Resultado? Deu cãibra até na alma.
Esculhambações costumeiras à parte, por uma série de motivos, a maioria esdrúxulos, nunca imaginei que alcançaria esta qualidade de vida. De quebra, durante o exercício matinal, aproveito para cuidar também da saúde espiritual. A paisagem de Joanópolis, estância turística a 100 km de São Paulo, ajuda um bocado neste quesito. Ao sair de casa com o sol começando a dar as caras a paisagem fica ainda mais bonita. Até parece que estou no paraíso, no meu paraíso pessoal.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
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