Perdido na Metrópole XLV
O Ex-Fumaçado
Colagem: Silvio Alvarez
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O Perdido na Metrópole está ótimo, nunca esteve tão bem. Está mais para Achado do que para Perdido. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto... Os seus atarantados neurônios (todos os três) ainda não entenderam lá muito bem o que está se sassucedendo na cachola que aprenderam a chamar de lar. Não é para menos. No dia 17 de janeiro, nosso desencontrado herói julgou por bem parar de fumar, assim, da noite para o dia. Não contente, logo em seguida, alterou todo o seu sistema pensante ao participar de um curso de fim de semana, repleto de dinâmicas de auto-chacoalhamento (leia-se auto-conhecimento), que, diga-se de passagem, mudou sua vida radicalmente para melhor. Enfim, nosso amiguinho anda tão diferente timarmente que nem ele mesmo mais se conhece.
Agora sim possuo a segurança necessária para alardear a novidade... Queridos leitores, parei de fumar. Depois de poluir a esquelética carcaça, as entranhas, e a alma por vinte longos e enfumaçados anos, com dois maços de cigarro por dia, tomei esta dalailâmica greenpeaceca decisão. De lá pra cá, até respirar estou respirando, acreditam? Uhuuu! Pois é. Será que alguém já morreu de overdose de oxigênio???
Eu fumava tanto no meu escritório-ateliê, onde fica o Genival, meu computador, tanto, que as paredes amarelaram, tamanha a quantidade de nicotina. Genival também ficou todo amarelo, coitado. E os vidros da janela, então? Parece até que apliquei uma camada de “Insulfumo”.
Depois de tanto tempo fumando já nem sabia mais o que era ter olfato, paladar... Fôlego? Bastava subir dois lances de escada para começar a colocar os bofes para fora. Além do mais, comecei a sentir umas dores esquisitas aqui, outras acolá, tudo muito perto do coração. Tô fora! Chega! Já desperdicei muito da minha vida por culpa desse troço fedido e sem graça. Quantas roupas eu queimei? Quantos bancos de automóveis dos amigos furei? Em quantos lençóis abri um rombo por querer fumar antes de dormir, correndo o risco de fumar dormindo e provocar um incêndio? Quantos momentos agradáveis eu perdi por ter de sair de um ambiente social para poder fumar? Quantas refeições eu deixei de apreciar direito porque não via a hora de acender logo o famigerado?
Os primeiros vinte dias são os mais complicados, admito. Para preencher a lacuna oral, optei por chupar balas, uma atrás da outra. Se eu for diabético, saberei agora. O que também ajudou muito foi ter conseguido alterar o fuso horário. Tenho ido dormir antes das 11 horas da noite e acordo lá pelas cinco da manhã, o sol ainda nem nasceu. A mudança fez com que os dias ficassem aparentemente mais curtos, o que me permitiu disciplinar melhor meus horários. Também passei a sair para andar todas as santas manhãs. Os vizinhos chegaram a pensar que algo de muito grave havia acontecido em casa. Faz sentido. Até pouquíssimo tempo atrás, para este escrevinhador sedentário, contumaz praticante de movimentação de mouse, sair de casa às seis da madrugada, só mesmo por algum motivo muito tragicamente catastrófico. Depois da caminhada, todo esbaforido, preparo logo um litro de vitamina no liqüidificador. Misturo o que tiver dando sopa. A de ontem continha leite, kiwi, manga, goiaba e banana. Se tirei as cascas? Só da banana e do leite. Do resto daria muito trabalho. O poderio nutritivo-natureba do meu preparado-bomba é deverasmente porreta.
Não é bom comemorar muito? Não faz tanto tempo assim que parei de fumar? Posso recair? Concordo, em número, gênero e “igual”. O tempo dirá se parei de fumar de fato ou não, ok? Apenas suplico que não façam como um psiquiatra que conheci recentemente. O dito cujo fez questão de ressaltar de forma tão categoricamente empolgada que eu ainda me encontro no fatídico período das recaídas, que cheguei a pensar cá com meus botões... Esse cara está torcendo para que eu recaia só para ter o gostinho de comprovar que o que diz está certo. Só porque o doutor quer, viu. Pode tirar toda a sua cavalaria psiquiátrica da chuva. Não recaio, não recaio, não recaio.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
Visite o site do Perdido na Metrópole: www.perdidonametropole.com.br
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