Perdido na Metrópole XLIII
Uma Auto-ajuda na Auto-estima
Colagem: Silvio Alvarez
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No ano passado, este vosso amigo realizou exposições de suas colagens em duas estações do Metrô de São Paulo. Em ambas, na Vila Madalena e no Jardim São Paulo, a companhia disponibilizou um livro de visitas. Quem passou e visitou a mostra, batizada de Perdido na Metrópole, pôde deixar um comentariozim a este eterno aprendiz arteiro.
Com a correria da montagem, durante o período da exposição, não consegui dar mais que uma rápida espiada no conteúdo do dito cujo. Mas agora, mais de seis meses depois, eis que o livro chega finalmente às minhas mãos. Passei algumas horas, todo egocentricamente pimpão, apreciando as mensagens que muito contribuíram para a auto-ajuda da auto-estima deste tropicante ser perdido que aos pouco vai se achando.
É muito legal constatar que os usuários do Metrô, geralmente com pressa, indo ou voltando do trabalho, têm a pachôrrica boa-vontade de parar, visitar a mostra e ainda deixar um recadinho para este aventureiro recortador de papel.
Tem de tudo no livro. Obviamente, que alguns não perdem a oportunidade de fazer gracinha. Contudo, a avassaladora maioria dos recados é bastante positiva. Fez com que aumentasse a minha vontade de seguir em frente com as artes plásticas, mesmo que, ainda e por enquanto, não tenha acontecido nada lá muito relevante no sentido financeiro. A paciência faz parte do negócio, né não?
Expor no Metrô de SP é uma experiência fantástica. Devo dizer que não gosto muito de receber elogios rasgados sem que estes tenham algum embasamento. Porém, tratando-se dos usuários do Metrô, o lance é bem diferente. Acredito que quem interrompe a correria cotidiana para comentar uma exposição artística é porque, já de antemão, gostou pelo menos um pouquinho do que viu.
Separei algumas das mensagens, aquelas que julguei mais originais e interessantes.
• “Parabéns por viver de arte neste país”. (Rodolfo)
Sobreviver de arte ainda não é meu caso, Rodolfo, mas estou lutando.
• “Idéia genial. Deveria ser exposta também em Nova York” (Marilice)
Sério, Marilice? Eu concordo com você em número, gênero e “igual”. Adoraria expor nos States.
• “Você é um vanguardista. Ora criando um cenário quimérico, ora elaborando uma cuidadosa crítica social, mas sempre com uma forte e rara beleza artística. (André)
Vanguardista? Quimérico? Tem certeza que você não é o ministro Gilberto Gil disfarçado de André?
• “Ótimas sacadas e percepção aguçada do cotidiano, não sem uma dose de sarcasmo”. (Diego, estudante e curioso).
Você pode até se achar apenas um curioso, Diego, mas foi o único que conseguiu ver o sarcasmo, conscientemente empregado em todos os meus trabalhos.
• “Esta exposição é um excelente descanso, um alívio após uma terça-feira dura no telemarketing”. (Maíra)
Poxa, Maíra, que bom que ajudei no teu relax depois do trampo de telemarketing. Fiquei tão feliz que, na próxima exposição, “estarei produzindo” um quadro em sua homenagem, viu. Seu recado foi muito importante para mim.
• “O artista trabalha com conceitos e críticas profundas da sociedade contemporânea. E é possível até mesmo conhecer um pouco da vida do próprio artista”. (AP)
Um pouco, AP? Dá para saber quase tudo da minha vida analisando os sinais presentes nos meus quadros. Certa vez, um amigo psicanalista analisou alguns dos meus trabalhos e cheguei a pensar que estava conversando com a mãe Dináh.
• “Ao conseguir parar em meio à correria de uma noite de sexta-feira, escapei um pouco da louca rotina que você tão bem representou em suas obras”. (Larissa)
E eu fiquei muito, mas muito feliz mesmo de poder te proporcionar este momento, Larissa. Está vendo que troca bacana que a arte propicia?
• “19h57 – Adam chega. 20h12 – Demorou, Junior. Esperei até agora, mas vou embora. Me liga”. (Adam)
Ah, que legal, Adam. E o livro de visitas da minha exposição lá é lugar pra deixar recado para o seu amiguinho, pontual criatura?
• “Você estava brisado quando fez as obras cumpadi”? (Henry)
Você quer saber se eu fumei maconha antes de fazer os quadros, é isso? Não, meu amigo Henry, produzi tudim de cara limpa mesmo.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
Visite o site do Perdido na Metrópole: www.perdidonametropole.com.br
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