Perdido na Metrópole XLII
O PAC do Perdido
Colagem: Silvio Alvarez
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O Perdido na Metrópole resolveu lançar uma espécie de programa de aceleração do crescimento (PAC), só que pessoal e intransferível, ou seja, em benefício próprio. Já que está em terapia há um mês e que o processo demonstra ser mesmo irreversivelmente positivo, para que sua cabeça entre mais rapidim nos eixos, achou por bem aumentar o número de encontros com o seu psicólogo. Descartada a possibilidade de ter um profissional em casa de plantão, o jeito foi marcar duas sessões por semana.
Como começou a perceber na prática que o lance terapêutico realmente funciona, que achou o profissional certo e que agora parece ser mesmo o momento de endireitar a vida definitivamente, nosso amigo escrevinhador e arteiro não consegue mais conter a ansiedade. Ele não vê a hora de desfrutar de vez toda a liberdade que a maioria dos demais mortais demonstra ter. Ainda confuso, bem longe de querer dizer que é um santo, o nosso herói hoje compreende que, por uma série de fatores inércicos, não teve lá muita oportunidade e discernimento para escolher boa parte do que vivenciou até então. Foi como se tivesse embarcado e viajado um tempão em um bonde desgovernado. Agora, sem mais delongas, quer porque quer colocar ordem na casa e passar a mandar em seus neurônios, todos os três, de forma bastante democrática, diga-se de passagem, do mesmo jeitinho que o Chávez lá na Venezuela.
Pois é. Minha cabeça está tão deverasmente atrapalhada, com tantas idéias perambulando de um lado para o outro concomitantemente ao mesmo tempo que já não sei mais se vou ou se fico, se fico ou se vou, se caso ou se compro uma bicicleta, se escalo o Everest ou se aguardo o andar da carruagem aboletado em riba de um pé de couve. Descobri em terapia que sou um tremendo de um burro. Sou um burro emocional. Eu explico. Concluímos que posso até ser um cara esperto em algumas áreas pensantes, mas não disponho de um pingo sequer de inteligência emocional. Qualquer bobagem, ainda e por enquanto, é capaz de desestabilizar o dia-a-dia do vosso amigo aqui. É verdade. E assim fui levando 42 primaveras invernais de outonos veranistas. Será possível? Acredite se quiser. É muito difícil chegar tão tarde, mas ainda em tempo, à conclusão que, em certos setores da existência, ainda reflito mais ou menos exatamente como aos oito ou nove anos de idade. Pode? Não sou psicólogo, nem pretendo ser, mas já deu para notar que, em muitos aspectos, segui com a vida comportando-me baseado nos mesmos esquemas infantis que permearam meus iniciais momentos de jornada.
Vejam só amigos leitores se tem cabimento. Segundo o profissional que analisa esta cachola perdida, ainda recorro à certas escapulidelas mentais típicas da infância. Guardando as devidas proporções cronológicas e circunstanciais, obviamente, é como se, na maior parte do tempo, eu passeasse por um shopping existencial, abrindo o maior berreiro sempre que minha vontade marmanjamente petiz não é satisfeita... Por estas e por outras é que tenho uma enorme dificuldade de desbaratar alguns nós que impedem o meu crescimento depois de grande. E, pelo que o meu guia de psique falou, muita gente passa pelo mesmíssimo probleminha, só que, ou não tem consciência alguma, ou, como não chega a atrapalhar tanto ou impedir o ir e vir cotidiano, essa parcela de viventes acaba deixando quieto, não vendo lá muita necessidade de chafurdar o baú para resolver a questão.
Às vezes dá vontade de desistir e sair correndo, credo. Como pode caber tanta caraminhola em um cérebro só, né não? Como será que conseguimos complicar tanto algumas coisas que para outros aparentemente são tão simples? Que coisa maluca, viu. Mas eu chego lá.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
Visite o site do Perdido na Metrópole: www.perdidonametropole.com.br
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