Perdido na Metrópole XLI
PERDIDO EM 2008
Colagem: Silvio Alvarez
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Quem mandou escrever uma cartinha espinafrando Papai Noel? Pois é, o bom velhinho revidou. Não deixou barato, não. Sujeito vingativo. Resultado? Passei o Natal indo e vindo da Santa Casa, com quase 40 graus de febre. Ninguém merece.
No mais, tudo beleza. Não sei bem o quê, mas meu 2008 promete. A virada propriamente dita foi bem mais agradável que o Natal. Ficamos aqui em casa mesmo, eu e minha mãe. Comemos lentilha, chupamos as sete sementes de romã que passarão o resto do ano em nossas carteiras, devoramos um panetone e um leitãozinho, daqueles que costumam chafurdar para frente, e, aboletados frente à TV, passei a maior parte do tempo festivo tentando convencer minha progenitora de que a tal da Virada da Globo não é ao vivo, mas sim gravada em novembro. Chegamos até a admirar extasiadamente perplexos os fogos de “estrupício” nos céus joanopolenses. Pois é. Todos os três. Entornei meio litro de champanhe, presente dos vizinhos da frente. Groguemente borbulhante, dormi cedo, logo depois da tímida foguetança.
2007 entrará para os anais de minha história. Entre outras ocorrências, como o ano em que descobri o porquê dos quenianos correrem tanto, principalmente na São Silvestre. Com a truculência do governo dos caras, não lhes resta outra alternativa, né não? Triste.
Na verdade, a festa deste vosso amigo aconteceu dois dias antes da virada. Tomamos coragem, abandonamos nossos domínios cafôficos e fomos passar o dia na Cachoeira dos Pretos. Trata-se de uma maravilhosa queda d´água a 18 km de nosso lar. A água despenca de 154 metros de altura, um espetáculo. Molhamos os pezinhos na cachoeira (e boa parte das calças), energizamos nossas “pedras do agradecimento” (sugestão do “O Segredo”), perambulamos de mãos dadas pelo aprazível parque nas imediações e, afoitamente famintos, degustamos uma porção de peixe frito. Provoco uma enchente salivar só de lembrar das tais saborosas tilápias.
Contudo, a maior novidade do período é que comecei a fazer terapia. Pelo que parece, achei alguém que está disposto a cuidar do meu caso. Graças à dica do leitor psicólogo de Cascavel, no Paraná, esqueci a traumática tentativa anterior e não desisti. Determinado, segui em frente, procurei e encontrei. De fato, não dava mais para querer consertar a cachola sozinho. Bem que tentei. Mais de vinte anos tropicando sem parar não podem ser processados assim de um dia para o outro, né não? Estou bastante animado. Digamos que já deu para perceber, pelo menos, que tenho solução. O processo terapêutico ainda está bem no comecinho, naquela fase em que a gente joga para fora todo o lixo vital, sem dó ou piedade. Creio que perco uns dois quilos existenciais por sessão. Coitado do meu psicólogo. Não sei como agüenta.
Agora vai ou racha. Tenho de desvendar certos torturantes porquês. Principalmente, entre tantos outros, o porquê de ter ficado tanto tempo prostrado, “apreciando” a vida com cara de paisagem.
Este amontoado de doze meses que se inicia dá as caras como o primeiro ano do resto de minha vida. Já que dependo de certos acertos para poder cair no mundo novamente, melhor aproveitar a oportunidade terapêutica, complementando-a com muita força de vontade, fé e com o desejo de encontrar pela frente um caminho com menos buracos. Luto para que minha jornada existencial, daqui por diante, transcorra em estrada duplicada, com amplo acostamento, administrada por concessionária multinacional e, de preferência, sem muitos pedágios. Enquanto isso, prossigo fazendo arte, mergulhando criativamente nas colagens, que é outra eficiente terapia.
Mesmo que mais encontrado, continuarei aqui, perdido em 2008, contando meus causos pessoais como em um Big Brotherescrevinhado. Paz, Saúde e Harmonia, sempre com muita alegria.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
Visite o site do Perdido na Metrópole: www.perdidonametropole.com.br
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