Perdido na Metrópole LIV
Pedido de Tempo
Colagem: Silvio Alvarez
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O Perdido na Metrópole resolveu dar o braço a torcer e parar de escrever por um tempo. Alega que precisa recauchutar seus atarantados neurônios, todos os três. Diz ele que será rapidim, que retorna num piscar de olhos insones e com cisco.
Esse foi o jeito que o nosso arteiro e escrevinhador amigo encontrou para reverter um processo que insiste em se alongar a perder de vista e demais da conta. Todas as santas semanas passava pelo mesmo dilema, permanecia três ou quatros dias aboletado frente ao computador, sem grandes resultados, só esperando a inspiração dar as caras. Neca de pitibiriba. Chegou a dar cabeçadas na parede, a gritar feito Tarzan, até pediu arrego para São Longuinho, - pularia em um pé só se preciso fosse - mas não houve jeito. Depois de passar nervoso que chegue, nosso amigo achou melhor jogar a toalha escrevinhatoria só por um tempim. Ele não desiste, em breve estará de volta com a corda toda.
Pois é. Há quase cinco anos escrevendo neste espaço, não esperava que algo assim pudesse acontecer. Não sei ao certo o que pode ter ocorrido...
Parei de fumar no finalzinho de janeiro deste ano e assim permaneço firme e forte. No próximo dia 17 completarei cinco meses de desenfumaçamento geral, total e irrestrito. No dia 8 de fevereiro, participei de um curso de auto-conhecimento relacionado à neurolinguística que propôs uma espécie de regressão à minha atordoada cachola. Regressei lá longe, nos recônditos remotos das repimbocas infantis das minhas parafusetas traumáticas e puf. Daria para encher uns três baldes com o chororô desencadeado. De qualquer forma, foi fantasticamente espetacular. Fiquei tão demasiadamente leve depois da experiência que poderia caminhar sobre o Rio Tamanduateí. Esqueçam essa parte, ok? Bom, o dito cujo curso mudou minha até então nada mole vida. Sacudi a poeira e dei a volta por cima, definitivamente. Dois meses depois, marquei uma consulta com o coordenador do curso e passei por uma nova experiência desvendadora de passado perdido. Quis acabar de acertar o que faltava. Acertei, sim, tudo traveis.
Como a cabeça voltou a funcionar a contento, o meu lado profissional trabalhador correspondeu. Contratado pela unidade Ipiranga do SESC, realizei um mês de oficinas de colagem e expus meus quadros com toda a pompa e circunstância, teve até folder, convite e vernissage com coquetel. Pode? Não é chique?
Com tamanho agito mental, acho que meus três desorientados neurônios devem ter suratdo de vez. Estou ótimo, mas sinto que o cérebro ainda não conseguiu processar todas as informações captadas. Digamos que a minha máquina pensante entendeu de uma vez por todas que agora é mesmo uma nova fase e que a papagaiada terminou, mas... Percebo que ela continuará resistindo o quanto puder. Deve dizer lá dentro para seus botões neurológicos... - Para quê mudar, meu amigo, vai dar muito trabalho. Fica assim como está, do mesmo jeitim, e tudo se acerta. Comigo não, violão, chega.
Enquanto a citada odisséia cerebral não acaba... Todas as semanas passava por um nervoso danado por não conseguir elaborar meu texto como gostaria. Já não sou lá um grande selecionador de vocábulos, porém, de uns meses para cá, secou a fonte de vez. A colagem relaxa, fico horas recortando e colando, mas a escrita emperra.
Era para estar triste, cabisbaixo e meditabundo, por decidir dar um tempo com a coluna... Só que estou pra lá de feliz. Constato a cada dia, mais e mais e aos pouquim, o quanto é maravilhoso recuperar o controle da própria vida, entender ao certo o porquê da maioria das situações pelas quais passei e, a partir daí, sobretudo, conseguir perdoar o mais próximo de todos os meus próximos. Agora falta pouco.
Quero agradecer a todos aqueles que acompanham meu dia-a-dia neste espaço. Estou muito legal e ficarei melhor ainda. Apenas preciso de um descanso mental, sem cobranças internas de prazo, entre outras. Prometo que volto, não vai demorar. Terei saudade.
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Silvio Alvarez é colunista e artista plástico de colagem silvioalvarez@uol.com.br
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