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» Rio de Janeiro, 10 de outubro de 2006

Sérgio Cruz Tatuagem

por Maurício Porão*

Maurício Porão - Você é formado em Publicidade! Como foi desencadeada esta mudança profis-sional tão drástica?

Sérgio Cruz - Na verdade não encaro como uma mudança drástica, pois, felizmente uso minha bagagem em publicidade, para administrar hoje meus conceitos em Programação Visual. As formas como apresentar meu trabalho e conduzi-lo de uma forma expressiva ao público, seja no networking, que é muito importante para uma boa divulgação, aliada ao bom acabamento que qualquer produto deve chegar ao consumidor: no caso, a tatuagem. No mais. a mudança se deu, devido a influências de pessoas que me fizeram enxergar que era possível, aplicar a arte de uma forma mais humana e menos "cannibal", como é o mundo da propaganda a meu ver, pelo menos com 14 anos de profissão como publicitário.

MP - Sempre desenhou? Como desenvolveu a técnica da tatuagem?

SC - Desde criança sempre desenhei, passei por cursos de desenho artístico, técnico e publicitário, porém, me serviram apenas como alicerce pra desenvolver uma técnica, esta que ao longo dos anos fui de uma forma autodidata, aprimorando a cada dia, e descobrindo meu próprio estilo. Até que conhecendo e buscando pessoas envolvidas com a arte da tatuagem, consegui que uma pessoa acreditasse em mim e me iniciasse, neste mundo, que, não é diferente do meio da propaganda, e isso a gente só descobre na pratica, também tem seus desafios e pedras no caminho. Nada que seja amedrontador como desafio.

MP - O que é necessário para se firmar num mercado que me parece muito concorrido?

SC - Antes de tudo, ter um bom trabalho, Ética e respeito com seus clientes. Além de um ótimo atendimento, o seu trabalho é o espelho da sua obra, e está ali fixada na pele do cliente para que seja apreciada, criticada e avaliada constantemente para o resto da vida, ou seja, uma tatuagem mal feita vira uma cicatriz e ninguém quer isso pra si. Atualmente os conceitos de estética estão mutantes demais, e os padrões em constante rotação. Temos de acompanhar o que o tempo quer nos dizer sempre, e nos adaptar a roupagem dos estilos.

MP - Bem, a tatuagem já está bastante assimilada na sociedade hoje em dia. Mas, não aparecem alguns loucos no studio de vez em quando? Conte algumas passagens interessantes!

SC - Loucos existem em vários cantos do planeta, no estúdio não é diferente. Uma vez chegou um casal, onde o homem desejava ser tatuado no pênis, porém a mulher dele é quem comandava a situação, ela queria que ele escrevesse o nome dela no órgão genital dele. Percebi que se tratava de uma espécie de dominação, onde o homem era o passivo da história, enfim, dei o preço e expliquei as condições para este tipo de serviço: ele teria de ficar ereto para a realização, coisa que, após a primeira agulhada, o "garoto" certamente se recolheria... (risos), inclusive ela se propôs a ajudar manualmente, seja para excitá-lo ou segurar o "cadáver" pra mim.. (risos), papo vai papo vem, ele acabou fazendo na mão, e gemeu como uma menininha... agora você imagina se fosse mesmo no pênis? o fetiche deles ficou na meia bomba.. (risos) fora isso, tem também, pessoas que não sabem ou simplesmente não se importam, e chegam direto da praia, com as costas queimadas de sol para fazer a tattoo, e é claro me recuso. Ou gente que não dá uma palavra, entra mudo e sai calado, mesmo apesar de eu me esforçar a manter uma comunicação sadia. Cada louco com sua mania, mas o importante para nós profissionais, sabermos que cada ser humano que está ali, deseja, e anseia por uma realização pessoal. Temos essa obrigação como instrumentos de sua felicidade.

MP - Por que um nome artístico convencional agora que atua num nicho profissional totalmente envolto à arte?

SC -  Preferi ser conhecido apenas pelo meu próprio nome, exatamente para não ser "mais um", quando se busca algum tipo de notoriedade, tem de ser criativo, e observei que “todo mundo” tem sempre um codinome: “Fulaninho Tattoo”, ou “Cicrano Tattoo Studio”, sempre a mesma coisa e pior, esquecem-se da própria nacionalidade, aplicando o nome da tatuagem em inglês, após o apelido, enfim, achei que seria mais original se eu simplesmente me expusesse como Sergio Cruz Tatuagem - o que tem me rendido, após analisar o meu público, pessoas que são leigas e que não tem muito contato com a arte, ou simplesmente não conhecem e desejam ter uma tatuagem, uma aceitação maior. Acredito que isso se dá muito também, pelo fato de tais pessoas, visitarem sites de buscas, digitam a palavra "tatuagem" e assim elas chegam mais facilmente ao meu nome, diferente dos demais que sempre colocam como predicados o nome "tattoo" que quase sempre é escrito errado pelo internauta, e daí os sites de buscas acabam levando-os aos milhares e diversos profissionais que se utilizam desse codinome, tornando assim duvidosa a procura do cliente.

MP - Aprecia o trabalho de algum tatuador nacional? Quais os profissionais que você admira e se espelha? Há muita diferença para o que é desenvolvido lá fora para os padrões brasileiros?

SC - Com certeza... minha grande influência nacional foi quem me introduziu na tatuagem, o tatuador Alexandre Dallier. Em minha opinião, um grande profissional do preto e cinza e de fotografias, porém, existem também outros grandes artistas, dos quais sou muito influenciado como: Cigano e Mordenti. Quanto aos profissionais estrangeiros, tenho uma lista enorme pra te contar, mas seleciono aqui, os principais mestres em minha opinião que são: Anil Gupta, Tom Renschaw, Paul Booth, Robert Hernandez. Devido à gama de informações e tecnologia avançada, muito se faz hoje em dia com respeito à tatuagem. Os padrões dos gringos, muitas das vezes, não devem muito ao nosso aqui no Brasil, onde somos bem vistos lá fora (falo, obviamente, de uma pequena leva de profissionais) o importante é estarmos sempre nos atualizando, fazendo este intercambio de novidades e descobertas para que a arte seja a grande beneficiada com tudo isso. Faço parte de um portal estrangeiro de tatuagens composto de 950 artistas de todo o mundo.. donde existe um ranking dos "Top 100 melhores" e me orgulho de dizer que dentro da rotatividade, me encontro em 54º lugar. Espero em breve estar sempre subindo cada vez mais um degrau, exercitando acima de tudo a ciência da humildade e perseverança.

MP -  Planos profissionais: vai montar seu próprio estúdio quando? Trata-se de um investimento viável?

SC - Sim. Atualmente trabalho com meu sócio, mas para o futuro e médio prazo, já venho fazendo um levantamento de dados, e estudando as possibilidades de abrirmos seja com sociedade ou não, isso só o tempo vai dizer, um novo estúdio, cheio de novidades e um padrão de atendimento diferenciado, o que já acontece, para que eu possa levar a arte da tatuagem a um plano vanguarda e assim tornar possível uma realização pessoal. A viabilidade é real, quando se é organizado, no tratante as contas e forma de administrar um negócio, com disciplina e pró-atividade, além de honestidade e alianças, pois nesta vida nunca somos, nem seremos perfeitos em nada: isso é utopia.

MP - Quais os desenhos que mais tem orgulho de ter feito? O que significam?

SC - Bem, são muitos, e cada desenho tem seu significado e sua importância pra mim.. mas selecionando alguns e posso afirmar que tenho um carinho especial sempre pelo último que fiz, no caso, um MAGO, onde eu e o cliente ficamos horas estudando e montando a ilustração no computador, tornando e otimizando os detalhes do personagem com todo o requinte que ele desejava, e modéstia à parte, ficou ótimo, e ele adorou, pois pra ele que é motociclista, significava muito, e é muito gratificante quando você consegue expressar num desenho o desejo do cliente. Tem outra tatuagem que fiz no início da minha carreira: um escaravelho egípcio, que significa "renovação", algo que sempre temos de estar praticando em nossas vidas. O trabalho ficou muito bom, na época, até me surpreendi com o resultado final... de resto tenho paixão por todos os demais.

MP - O que diria para um profissional novo que esteja querendo adentrar de cabeça na arte da tatuagem?

SC - Digo a esta pessoa que pratique muito, se dedique mais ainda, seja honesto antes de tudo consigo mesmo e não se iluda.. qualquer profissão é uma selva onde você terá de cortar muito mato pra chegar à clareira, e chegando lá se existir uma nascente não vá logo com muita sede ao pote, beba desta água com parcimônia, pois temos de alcançar nossos objetivos com passos largos sim, mas um de cada vez. E acima de tudo, nunca deixe de desenhar, de criar no papel, que é de onde nascem as grandes inspirações. Lembrando sempre que quando se adentra na arte da tatuagem, está lidando com o ser humano, e este é que nem você, cheio de duvidas, questionamentos, medos, desejos e todas as mesmas sensações e sentimentos que você tem. Respeite-o e serás respeitado.

MP - Deixe aqui sua mensagem e todas as formas de contato e apreciação de seus trampos:

SC- As dificuldades podem e devem aprimorar a resistência... meus trabalhos poderão ser vistos em:

    Studio Tattoo JAH:
www.tattojah.com.br
    www.portaltattoo (busque em estudios: Sergio Cruz Tatuagem) www.tattooartists.org/sergiocruz
    Fotolog: http://ubbibr.fotolog.com/scruztatuagem/

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*Maurício Porão é jornalista

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