O cinema começou em Homero
por Linaldo Guedes
Muitos anos antes dos irmãos Lumière, o cinema já estava “inventado” por Homero. Pode parecer coisa de cinema, pensar assim. Para o escritor e crítico João Batista de Brito, nem tanto. Ele corrobora as afirmações do teórico americano Robert Richardson, que assegura que procedimentos especificamente cinematográficos já estavam em texto literários remotos. E para exemplificar, cita o episódio da Odisséia em que Ulisses conta a seus anfitriões o que NÃO viu na Ilha de Hélio, simplesmente porque estava dormindo quando os seus súditos se rebelaram e mataram o gado. “Esse procedimento narrativo de dar onisciência a um ponto de vista limitado, que os teóricos chamam de “paralepse”, é uma das características mais fortes da linguagem cinematográfica”. O argumento de João Batista é homologado pela noção de “presentificação da ação” em Auerbach e Lottman, mas, se fosse o caso, segundo ele, nem precisaria dela. “Richardson faz um levantamento interessante dos traços cinematográficos da literatura, mas Homero lhe escapa, quando, ao meu ver, Homero foi fundante. Agora, um detalhe importante: essa qualidade cinematográfica da literatura não elimina as diferenças semióticas entre as duas artes. O problema é complexo e o que as pessoas têm dificuldade de entender é que, sendo muito parecidas, literatura e cinema são também muito diferentes”.
São essas semelhanças e diferenças que fazem com que literatura e cinema sejam duas artes complementares e transformam a adaptação do texto literário para a sétima arte num grande desafio para diretores e roteiristas. Desafio conflituoso, é bom que se diga. E é sobre o fascínio desses conflitos de que fala João Batista de Brito em seu mais recente livro – Literatura no Cinema -, lançado recentemente pela Unimarco Editora, de São Paulo.
O livro foi encomendado pela editora. João Batista, que assina coluna quinzenal no Correio das Artes, já escreveu muito sobre literatura e muito sobre cinema, mas nunca havia pensado em juntar as duas coisas. Isso, claro, até o seu editor e amigo, Reynaldo Damazio, ligar de São Paulo dizendo que a Unimarco estava interessada em um livro que tratasse das duas modalidades de arte. Só aí o escritor paraibano foi ao computador checar o que havia e realmente constatou que um número considerável de ensaios, teóricos e práticos, ensejava um livro sobre o fenômeno da adaptação.
E, de fato, reconhece JBB, a Unimarco tinha mais do que razão nesse interesse, pois, hoje em dia, cada vez mais, profissionais de áreas as mais diversas incorporam o cinema nas suas atividades. “De repente, um livro desses pode lhes ser útil. Constatar como o cinema se relaciona com a literatura pode ser instrutivo para constatar como ele se relaciona com a pedagogia, a psicanálise, a música, o direito, a antropologia, etc”. Sem falar que a bibliografia sobre o assunto é escassa e precária, pelo menos no Brasil.
(“Rodado nas encostas íngremes da Grécia, em expressivo preto-e-branco, o filme começa com a chegada triunfante de Agamenôn, este engrandecido mais ainda pela armadura que lhe cobre parte do rosto, sempre mostrado em efetivos primeiros planos. Orestes e Electra são vistos pequenos, aquele recebendo a espada heróica do pai. Em seguida, tem-se a cena do terrível assassinato, toda ela entrecortada pela imagem do garoto Orestes, brincando, lá de fora, de atingir o escudo paterno com a espada que lhe fora doada, um dos bons exemplos de inovação cinemática em cima do texto teatral”)
Por sorte, dos ensaios já escritos, alguns publicados em revistas, periódicos acadêmicos e jornais, dois eram teóricos, e o restante, de natureza prática. João Batista considera que isso foi bom, porque deu ao livro um caráter didático, pedagógico. Assm, o crítico e escritor redigiu mais um ensaio de viés teórico para a introdução e o livro ficou com a estrutura que tem, ou seja, três ensaios teóricos discutindo o fenômeno da adaptação, e uns vinte e cinco, tratando, de modo prático e analítico, de filmes que, ao longo da história do cinema, adaptaram textos literários. “Como havia um número grande (dez) de adaptações de Shakespeare, dividi essa seção de análise em três partes, a saber, Shakespearianos, Brasileiros e Outros. Dos Brasileiros adaptados, constam Graciliano Ramos, e José Lins do Rego, e entre os Outros estão, por exemplo, a Ilíada, Mme Bovary e Os mortos de James Joyce. Cito estes, para mostrar como o leque é variado”, detalha.
Mas falávamos das relações conflituosas entre literatura e cinema. Será possível sair ileso do confronto entre cinema e texto literário? “Acho que ninguém sai ileso desse confronto e talvez seja bom que não saia”, responde de forma taxativa João Batista. Como a relação literatura-cinema não é lá muito tranqüila, nunca foi, e provavelmente nunca será, os originais do livro montados, confessa João Batista, tinham o título provisório de um dos ensaios teóricos “Narrativas em conflito”. “Posteriormente esse título foi mudado para “Literatura no cinema”, mas, embora não fosse muito comercial, eu gostava dele, pois assegurava exatamente isso que você está me perguntando, o estado de tensão irresoluta entre duas artes, ao mesmo tempo, tão parecidas e tão diferentes”.
Muitos questionam a adaptação de um texto literário para o cinema, com o argumento de que ele perde em qualidade. Para João Batista, não há uma regra que determine resultados. O que, na prática, se observa, afirma, é que cada caso é um caso. Neste ponto, defende que talvez seja sensato lembrar que tudo depende do talento do cineasta e sua equipe. “No livro, eu cito operações básicas que necessariamente ocorrem na transposição de uma linguagem à outra – redução, adição, deslocamento, etc. Dessas operações ninguém escapa, só que cada um as pratica de modo diferente, pessoal, e é essa maneira própria, singular de transpor um livro em filme que vai influir no resultado estético. O que não se pode perder de vista é que, literatura e cinema, em que pese às suas semelhanças são linguagens semioticamente diferentes e essa diferença vai aparecer na comparação”.
Apesar de serem linguagens diferentes, cada vez mais em muitos livros escritos na atualidade, existe uma excessiva obstinação em valorizar a imagem do texto, já prevendo uma futura adaptação para o cinema, comento. João Batista concorda. E diz que já faz tempo que isso acontece. Para ele, tudo começou com certa literatura policial dos anos trinta, tipo Dashiel Hammet e companhia, que, mesmo não tendo sido concebida para o cinema, terminou dando origem a um verdadeiro gênero cinematográfico, o noir. Depois de o noir consagrar-se, conta, muita gente boa, nos Estados Unidos e fora, começou a escrever daquele modo direto, sintético, realista, na esperança de que seus livros virassem filmes. “Isso deu, e tem dado, muita coisa ruim, porém, ao meio de toda essa subliteratura, tem gente que faz isso com talento e, em alguns casos particulares, o resultado é interessante. Para falar do Brasil, não vou afirmar que Rubem Fonseca escreva pensando em ser adaptado, mas a sua ficção é, no grosso, sim, muito filmável. Tanto é,que já o foi”.
A fidelidade de um filme a um romance adaptado é obrigatória? João Batista responde de forma surpreendente: “ao contrário, a fidelidade cega é um problema, e não uma solução, e normalmente suas conseqüências são desastrosas do ponto de vista estético”. Como as duas artes são diferentes, explica, já se entendeu, há muito tempo, que um filme não precisa ser fiel ao original adaptado. Ou melhor, não deve. Num dos ensaios teóricos do livro, o escritor levanta toda uma gama de opiniões de pensadores do assunto. Num balanço geral, sua tese é de que a idéia de fidelidade ao texto literário sai perdendo. “O que prevalece é que o cineasta deve ser criativo o bastante para encontrar soluções estilísticas que, traindo o livro em eventuais aspectos formais, a ele seja fiel no espírito”.
E qual a arte mais convencional: o cinema ou a literatura? “Acho que toda arte começa de modo mais convencional e, com o passar do tempo histórico, vai se livrando dos clichês. Isso aconteceu com a literatura e aconteceu com o cinema, cada um no seu tempo”. Na literatura da fase clássica, a referências às musas, a regularidade da métrica, o centramento em certa temática, eram coisas obrigatórias. O cinema mudo, e depois o falado, teve as suas regras fixas que só foram sendo desmontadas com o tempo e com a resposta dos espectadores.
Agora, no caso do cinema, um fato histórico muito curioso ocorreu, lembra João Batista: é que ele surgiu numa época em que todas as outras artes viviam a chamada “crise da representação” e buscavam saídas nas inovações vanguardistas. “Ora, como se sabe, fruto da técnica, o cinema é essencialmente representacional, e isso foi um problema muito complicado para a sua afirmação enquanto arte. Sabiamente, o cinema, pelo menos o historicamente consagrado, soube ir contra a correnteza e afirmou-se na manutenção da representação, negando a idéia equivocada de que representação fosse igual a convenção”.
(“Uma outra forma, esta um pouco mais problemática, de diálogo com Shakespeare está no título do filme, O rei está vivo, uma frase criada pelos roteiristas, que - atenção! – não consta do texto da peça, a propósito, uma peça em que o próprio rei, logo após a filha, também morre” )
“Literatura e Cinema” contém vários ensaios de filmes baseados na obra de William Shakespeare, um dos autores mais adaptados na história do Cinema. Tanto que somente de Hamlet há sessenta e três adaptações, do tempo do cinema mudo até agora. Os motivos dessa excessiva adaptação shakesperiana na sétima arte João Batista não saberia dizer ao certo, embora tenha o palpite de que seja pela importância da obra. Ele não crê que as 37 peças de Shakespeare sejam, nem mais fáceis, nem mais difíceis de adaptar ao cinema. “Para ser franco, amo Shakespeare, e no entanto, poucos filmes que o adaptam me agradam. Para o leitor desta seção do meu livro, suponho que fique claro que não gosto tanto dos filmes fiéis, mas daqueles que adaptam Shakespeare sem dizer que o fazem”.
(“Quem viu o filme certamente nunca esqueceu dois de seus longos planos gerais, exatamente o primeiro e o último, em que a câmera é posta numa mesma posição com relação à paisagem árida do Nordeste – no primeiro, a família de Fabiano dela se aproxima, vinda do horizonte; no segundo, se afasta em direção ao mesmo horizonte, em ambos os casos ao som do mesmo ruído impertinente do carro-de-boi”)
Já no Brasil, a tradição da adaptação para o cinema nunca foi propriamente o forte dos nossos cineastas. No cinema mudo e no falado até o começo dos anos quarenta, não houve nada nesse sentido que tenha chamado a atenção dos historiadores, e o grande filme dessa fase tem roteiro original, o Limite de Mário Peixoto. Nem a fase Vera Cruz (que ocasionalmente adaptou!) nem as chanchadas dos anos quarenta e cinqüenta se destacaram por adaptações, enfatiza. É com o Cinema Novo, ressalta JBB, que adaptações de destaque começam e o grande ícone é o Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. “Acho que na segunda metade do século, o nosso autor mais adaptado, nem sempre bem, foi Nelson Rodrigues, ao ponto de criar um estilo, digamos, cinematográfico. Por muito tempo o nosso cinema teve aquela (a expressão é minha) “atmosfera Nelson Rodrigues de delegacia de polícia”, que, de alguma maneira, virou convenção. A Retomada tem cometido adaptações interessantes, e uma que não pode deixar de ser citada é Lavoura Arcaica, para mim, problemática, por causa da rendição incondicional ao original”.
Mas, daria para escolher um filme como o mais perfeito ou interessante entre os adaptados de textos literários?
- O mais perfeito é difícil de apontar, responde o crítico.
Mas se tiver que citar um caso interessante, ele prefere remeter o leitor à sua análise comparativa entre “The Dead”, o conto de Joyce, e o filme “Os vivos e os mortos” de Huston. Trata-se, conforme João Batista, de um caso raro de fidelidade bem sucedida, embora ele goste também do contrário, quando a fidelidade é recusada de antemão, como na curiosa saída que Al Pacino encontrou para dar conta do Ricardo III de Shakespeare. “O filme, comentado no meu livro, ao invés de simplesmente adaptar a peça do Bardo, propõe a pergunta sobre a possibilidade de adaptá-la, e, com isso, constitui uma divertida a altamente curtível brincadeira metalingüística e teórica sobre os problemas da adaptação, de Shakespeare ou não. O filme inteiro é uma rica fonte de discussão sobre a transposição de uma obra literária para o cinema, e lamento não ter sido mais extensivo na minha análise. De qualquer forma, o que ficou lacunoso, fica para o leitor\espectador completar”. O filme e o livro, já que estamos falando da obra de João Batista de Brito lançada pela Unimarco. Bela fonte de discussão para os amantes da sétima arte e os apaixonados pela literatura.
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*Linaldo Guedes é jornalista e editor do suplemto Correio das Artes
(Extraído do suplemento cultural Correio das Artes, edição de 9 e 10 Setembro)
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