‘ESTOCOMA’
Recorda,...
quando perceber o silêncio
que há entre a mente
e os sentidos,...
um tráfego de palavras
sugerindo o que almejo:
a discreta poesia
que confunde quem vê.
Lembra,...
nas horas que me ausento,
do instante em que viu
no olhar o brilho,
nos lábios o sorriso sutil.
Recorda porque sonho,...
no sabor da saliva do beijo,
viver outra vez o amor
que a alma concebeu.
VENTURA
Vi flores nascerem em pedras
quando não mais descia a rua,
levitando na sombra das nuvens,
muito tempo após
rodopiar entre borboletas.
Outra vez me vejo atenta...
sinto cheiro de terra molhada,
ouço a melodia da chuva
quando de encontro
ao parapeito e à janela.
Medito... no transparente voal,
fronteira insegura dos sentidos,
que frágil, balançando na brisa,
revela ao meu olhar o horizonte...
DETALHES
Alguns detalhes dispensam
a expectativa das palavras
porque, deliberadamente,
os sentidos exaltam
o poder da saudade
de forma permissiva.
O que ficou tatuado na alma
não é segredo pra
memória.
Bailarinas
Algumas palavras...
são como flores do campo,
que vivem na intenção dos ventos...
quase nunca sendo vistas.
Às vezes sinto haver
buquês dessas em mim...
há as que escapam nos gestos
e as que anseiam, no silêncio,...
a coreografia dos versos,
sem jamais serem escritas.
Refúgio
Ah!
Como é difícil
Ficar à margem
Se entre um verso
e outro.
Dou de encontro...
Com meus sonhos...
Ah!
Ao me encontrar...
Melhor me entendo
E como é dolorido voltar
Se os antigos esconderijos
Eram muito mais bonitos
Ah!
Como é difícil
Após ter ido tão fundo
Ver-me aqui encolhida
Nesse poema resumido.
Versos Vertentes
O dia amanheceu cinzento,
fui lá fora ver a chuva.
A água que descia lavando a rua,
...precipitando a vida...
era torrencial,
transbordava nas frestas da calçada.
Frente às poças que se formavam,
tive a lembrança dos versos.
Num suspiro de saudade...
emergiu de minh'alma
uma enxurrada de palavras.
Enquanto chovia fiz rascunhos
na página nua das horas.
Um poema onde, em verdade,
sorvo uma gota da face,
resumindo o que senti e desejei...
da tua poesia dos verbos...
que ao ler,... sei...
estarem todos no plural.
Das Marés
(Rita Costa e André L. Soares)
Teu jeito criança
veio com o mar.
A tua esperança
nasce do mar
A cor dessas tranças
brilha no mar...
o futuro nas conchas,
vi na pérola negra
em meio ao coqueiral.
O fim desse mundo
é o limite do mar.
Os desejos profundos
vêm do fundo do mar.
Nosso sonho mais lindo
sonho à beira-mar...
no ouro da praia,
na cama de areia,
coroar-te mulher.
À tardinha o céu desce
até beijar o mar.
O profeta já disse
que o sertão vira mar.
Então faço uma prece
louvando esse mar...
ao lançar minha rede
sempre peço pra lua
um novo amanhecer.
Leveza
Hoje, vejo-me caminhando
de mãos dadas com a vida.
E, em um pequeno trajeto,
se me lembro das escolhas,
percebo-me desvendando
das folhas, as cores e enigmas.
Deixo rastros de flores no ar...
Ah! Mas quanta ousadia
andar assim,...
pisando em poesias.
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