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Magaly Grespan
 

Suplica
Vida, pele e ossos
Amanheço no estreito-pouco
A fome
Morre lenta em meu corpo.

Deglute-me em agonia
Terra e água
Passeias preparando a cada noite
A tua rudeza

E meu corpo a teu lado
Te amando
Suplicante te lamenta
Assim de frente
Uma petúnia, um jasmim.

Por veemência
Só existo a tua boca
Louvo-te em tua placidez
Solenemente plantamos o dia

Terra que não é só minha
Meu nome
A mais remota possibilidade
De voltar a ser

Guarda-me em tua geometria
sempre, sempre
O passo ao baço
Vez em quando, me acalma???
 

Oceania
No deserto
um esboço de fantasmas
procuro palavras

A solidão é familiar
outono de salamandras
eu sou riomar?

A vida é líquida
me tecia furiosa
uma oceania

Esguia
eu sobrevivia
um rosário de poesia

Em mim
uma ânsia sem fim
bulia-me as manhãs

dois círculos
pequenos sóis
fincados no silêncio.


Noturna
Devagar a tinta pinta a primeira letra
Devagar, antes que eu me esqueça
E de mendigo respingue em teu corpo
Antes que meu corpo, sonolento e tonto
Caia sobre a folha branca
Indizível olhar de piedade
A olhar-me na forma que desdita
Busco abrigo, um pensamento, um grito
Na tinta que hesita
Desejos e tremores de amores já sem vida
Eis a noite esposo que me fita
Imensa extensão, escrevo o meu eu
Antes que o tempo se transforme
E da noite a amanhecência o dia tome.

 

Além
Remexo entre os mortos um pôr-vir
Outro perfume de Orfeu
Outras manias
Outras ventanias
Um pero que não vem
Exaurida vem a vida
Os versos sem rima
Às margens já plantei minha cruz
Gerúndios entre as mãos
E silêncios no papel.


Comecemos.....
Amo
As ruas alagadas
lembram pântanos
as águas que chegam
trazem o frio
encoberto está o céu
o Sol não amanhece
as lagoas inundam
o panorama
esgotam o interior
do meu rio
revejo o leito
dum instante anterior
orgasmo de íris
os poros já não cabem em si
acoplam corpo e coração
anunciam dum nada o amor
os vazios na poesia
são torrões de cupins
pintarei um amanhecer
buscando um céu de amplidão
os versos em água doce
bailam um paraíso
é tempo de paixão
penetro no vocábulo
e me faço poesia.

Verdes Lembranças
Eu vi-te
E não se move
Sobre extenso sono
Auras sedentas
Fogoso amor
Sangue e vida
De ouro se veste.
E se é que me viste
Nas verdes lembranças
Sobre as montanhas
E sem que se soubessem as causas
Do que na alma descrevo
Tudo me assinala e canta
Teu caminho
E firme te espero
Sem mover passo
Na lua dourada
E enquanto é tempo, tomo-te
Palpitando o corpo
Destas chamas onde se queimam os amantes
E ainda que não saiba
Por todo o corpo
Manchando a pele
Na verde relva
Fecundo você
E pouco a pouco
O mar confina ar e ondas.

A abrir-me em estradas
As lembranças
Descansam a sombra
Das cavernas
Nas pálpebras escuras
E na surdina
Olho o navio poeta
E o perispaço
no barulho de mundo
quebrar ininterrupto
vidro ou louça
dos sonhos
nos quadrados
das calçadas
e as botas tangem
no corpo cego
sobre os estilhaços,
escaler sem remos,
o amor, alinhando-se,
no centrípeto do coração.

Sonho
E encontrarei pelas ruas,
O sonho vestido de verde,
Feito pássaro de plumas
Ou quem sabe numa lagoa,
Desde que seja memória,
Paixão ou perdão ou quem
Sabe sepulcro de alguém perdido,
Amor,matéria secreta de um coração
E medito nas frestas de espera,
No apagar desacertos,
De que me vestem
O dia no quarto em silêncio ?

Espirais
Cavo a terra no gesto mudo,
nos dias que caminham em espirais,
nas vias de expressões de mundo
entre trevas e seivas
o ocre da amarga vinha
e o olhar ouso à prima luz
quando agarrada ao seu corpo
eu ainda era o centro da sua estiagem.

Estações
Existo num
canto qualquer,
como as estações
que se findam
e o recomeço de outras
e tenho mutações
e nelas me reconquisto,
nas esquinas de pedras,
onde a sombra um grito rasga,
onde o concreto e o aço dos corações
é só a pausa de um verso e outro.

Reencarnação
O mar espuma
invade as dunas
a vida conserva a seiva
da poesia
sobre o feixe
do céu diminuto
o contorno da janela
acaso olho o princípio
do precipício
às margens vivo
o discurso esverdeado
segue o seu curso
no círculo de gerúndios
uma ente-semente sob soturnos
alagados na purificação
vagos vultos.


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