passagem
(poesia; estilo: fumaça)
passe a lanterna
obedeça à tua eterna busca
inflada de eus sem espelho
passe adiante adiante o passo
vamos avante levante o som
manda brasa manda fumaça
fumaça de gelo seco...
meu meio é o árido
de poeira e fogo invisível
): lá vem, de novo, o trem azul...
trilhos, oboé, violão...
meu prazer na contramão
esperança morta, enterrada
e ressurgida mil vezes na fumaça
dos dias
tenho morrido várias vezes
minha vida será mesmo eterna
enquanto durar.
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o cão chupando manga
sonhei com o cão chupando manga
sonhei com a manga
vi que animais gostam de frutas
mais do que de ração:
isso que os humanos comem a contragosto
diariamente
vi que a manga, viva no estômago do cão
se integrava em sua alma
vi que ele deixou o caroço
vi que a manga agora está, pra sempre, nua
sonhei com o cão chupando manga
e acordei cansado
...dream is over.
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esforço
ela se esforça
para reter em si
uma última má impressão
para se desvencilhar
para que assim possa descansar
da maratona das flores vermelhas
que foi aquilo
ele, também cansado
quer, porém, lembrar daquilo
):
eles, na verdade
não precisam se esforçar pra recordar aquilo.
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trilogia psicolor
eu, canalha
na minha relva multicor
piso no tapete de pétalas
sobre os vermes
sobre as folhas
sobre o húmus
e sobre aquele homem que pensei ser
nada na verdade sei
a não ser que ele é um canalha
um bondoso canalha informal
ser canalha é pisar em cores
e escarrar arco-íris pastéis.
virgulismo
vou te sangrar, seu filho-da-puta
te afogo no leite de cabra safada
no leite envenenado da donzela
leite induzido
sangue induzido
mel voluntário de virgem solta
lava de vulcão marinho
vou te sangrar, filho-da-puta
derramar tua alma cor-de-rosa.
psicodrama
maio de 68
dezembro de 69
fogo de maio
fumaça de dezembro
espuma dos anos
fog
frogs
se sorri do passado
alegria sincera
alegria suicida
sarcasmo branco
direitos civis
capital dos fracos
e dos amadores
eu não existia
eu ainda não havia
e não havia sido
beijado
pela música feminina dos dias
em maio de 68
primaveras ensolaradas
me esperem
eis-me aqui:
e minha bandeira
é verde como o sangue.
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selvagens
(poesias extraídas do e-livro "mulheres dançando em êxtase selvagem)
*
eles estão abertos a transcendências
ela por enquanto não te deseja nunca mais
ele a ama eternamente neste momento
eles são eternos e pouco duram
e se encontram todo dia num futuro
cheio de telepatia e felicidade
eles nos acenam
do alto do disco voador
e são mortais como o sol.
*
mulher com fome
como que onça em mata desmatada
animal faminto
que não sabe comer na mão.
*
borboletas albinas
águias predadoras de cobras
orcas com dorso ao vento marinho
que outras imagens?
que outras carnações?
outras revelações naturais
o mundo como é
os olhos puros de eva
teus olhos.
*
a espiral do nada nos absorve
capturando-nos
fortalecendo-nos
revigorando e confundindo os dias
dando-nos
a ciência do peso destes
a dúvida é uma bigorna
é um boeing
uma biga de batalha
com cavalos inflamados
a correr
com fome e desespero
musas montam em pêlo
em fogo
e em neblina de história remota
louvada sua possibilidade de existir
velozes, certeiras, confusas, musas
fêmeas do tempo circular.
*
já morei nos teus olhos
na tua face me vi
quando te vi
teu umbigo
o quentinho do teu ventre
o conforto do teu corpo inteiro.
*
você pra mim
pra minha vida feliz
pra minha pele florir
pra mim não há anjos
e tuas asas são apenas cinema
teu corpo feliz e vivo
é a minha tela viva
você pra mim é meu par
e somos ímpares.
*
isso aqui não é um amor perdido
isso aqui é nosso vacilo
é o nosso pão apaixonado
na boca do mendigo
bendito amor chorado.
*
ela derramou o vinho
ela: derradeira
ela: minha
eu bêbedo disperso danado
ela vinha.
*
duas coxas separadas
duas conchas musicais
duas células seladas.
*
pedaço de vida
amparada pela lembrança
daqueles dias
dias de fogo
a viajante pálida
a tremer e queimar viva.
*
tua rosa salgada
trouxeste da estrada
para meu paladar
tuas cores cheias
trouxeste do teu infinito
pros meus olhos quase cheios.
*
ela se nutria
do meu leite
do meu mel
e não desperdiçava
uma só gota
ela engolia
minha vida
me matava com sua vida
que despendia da minha morte
e eu precisava ressurgir
minha renúncia
minha divisão
minha sub-vida
que ela engolia
sem desperdício.
*
eles queriam dançar
mas esqueceram
era tanto pra fazer
tanto pra experimentar
tanto pra testar
testar tuas teses
testar seu métodos
testar seus legos
tantos afazeres
que esqueceram de dançar.
*
tua orquídea se mexia
saltando do plano
contraindo-se
chamando-me para o teu jardim.
*
elas são lindas
são fotogramas
são beleza viva congelada
elas são branca e morena
são poema encantado
são levadas
e são levadas a crer
que não são tão lindas.
*
somos todos humanos
a circular e pedir desculpas
ao nosso selvagem interior
com tintas
com flor
com frutas
com os anos
com a vida
desculpas, desculpas,desculpas
até quando
eles esperarão por seu julgamento?
são homem e mulher
são pedestres inocentes
como crianças.
*
nos damos conta dessa felicidade?
temos a conta dos dias?
sabemos o peso
desse nosso orgasmo vespertino?
*
agora que estamos saciados
que o copo transbordou
que o corpo está mole
agora que a caneta
tem o peso do chumbo
o que vou te escrever?
*
as esculturas de pedra
lembravam aquele amor
as cores nas roupas
lembravam aquele amor
os olhos confusos
eram aquele amor.
*
barquinhos de papel
brancos, vermelhos
de revistas de moda...
mulheres e homens adultos
deveriam fazer
barquinhos de papel
para, como aprendizes contentes
navegarem melhor
enquanto a vida não os dissolva.
*
aquele que meus seios segurou
frente ao espelho
que na lonjura guardou
minha antiga alma em vidro
no fundo falso do vidro
que extermina frases antigas
e divide rios
depois que posamos pro espelho
eu nunca mais fui a mesma
eu me despedi da menina
eu me encontrei com a mulher
que eu em mim guardava
e ele me espera
no espelho de cada novo banheiro.
*
viver sem encantamento?
é isso?
é isso o que se pretende?
- acendo a fogueira do nosso lual
e te chamo pra dançar
em volta da fogueira
em nosso volta ao paraíso
nos encantarei.
*
somos motores
somos tratores
somos fortes e valentes
somos vermelho no branco
somos o sangue dos condenados
somos o vinho dos inocentes
somos fortes como os inocentes
e a inocência
é de uma força descomunal.
*
ela era a menininha
que corria descalça
pelas ruas
uma pequena estrela
a ensolarar o bairro
ela é espanto nos olhos
é alegria espantada
é feliz, e todos o sabem
ainda criança matava leões
e colocava ovos de dinossauro
ela é alegria
ela é potência e fato
pelas ruas, pelas estrelas, pelos olhos
ela vende de graça
flores para os seus.
*
menina branca
diferente das nuvens
que, ao contrário do que pensam
são cor-de-rosa, amarelas
azuis, púrpuras
menina azul
se auto-fotografa
enquanto o mundo espera
a maturação dos seus seios
e a explosão do seu ventre.
*
ela não sabia
que a música da vida
é a canção do fogo
ela não sabia
que a vida oscilava
entre ferocidade e compaixão
ela tinha medo
do lance de amar sem medo:
de o medo aceitar.
*
uma mulher são frases soltas
são fases de lua pronta
são apontamentos biológicos
são mapas envenenados
mapas de papel fumaça
mapas astrais desmontados
a desconstruir um homem.
*
ela oferece a manga a adão
que chupa a manga
e tira os fiapos dos dentes
enquanto ela morre.
*
ressaca de ninfas
em naufrágio
invadindo as areias do paraíso:
vazaram do oceano
que fabrica peixes e gentes
um mundo que fabrica mundos
e elas
com hálito de maresia
com roupa de pele branca nua
não sabem que este paraíso aqui é um inferno
que nosso mundo é de desligamento e espanto
de náufragos mal civilizados.
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o dia do fogo
naquele dia havia incêndios
vários focos
naquele dia ele caminhou
debaixo de um sol que martelava os pobres humanos
havia fogo naquele dia
naquele dia havia água
havia sal
havia água salgada
quente e salgada
que brotava
daquele corpo de fêmea amada
:) então eles se banharam
na lama quente
pra lavar almas
pra sacodir
a poeira dos dias.
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Arte: Francci Lunguinho

nem mais uma linha
depois do ano que passou
acho que eu não conseguirei escrever de poesia
nem mais uma linha
foi o ano da superexposição dos meus eus frente ao mundo
frente às coisas vivas e mortas
frente à música
frente à musa
este ano não terá poesia
este ano nem será
este ano é pedra
depois do ano que se passou:
que foi pedra rolando
hoje, eu não escrevo nem mais uma linha de poesia
pois o ano passado me tomou pra ele e me tomou de mim -
em tudo de bom e de ruim que possa haver nisso.
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dá-me luz, ó tempo!
nada de poesia
sem nevralgias
sem expectativas
nem esperança
nem a porcaria da esperança
dá-me luz, ó tempo
dá-me a escuridão que acalma os olhos
dá-me o arco-íris pastel
a tarde sépia
a camisinha com xilocaína
o meu sommalium 6mg
o meu travesseiro com cheiro de cabelo
dá-me sabedoria, ó tempo que nos quebra
que nos quebra como gravetos secos
como cana nova no canavial
como osso de galinha na boca de um leão
dá-me, ó tempo
a força de esperar
a potência de saber
a paciência dos fracos
dá-me o acorde menor
pra me fazer calar
pra me fazer amar
amar ainda mais quem me ama
quem me ama merece
mais que ninguém
o meu respeito
e a força do meu corpo
de barro vivo e elétrico
e que deste corpo
saia a produção
que alimenta o bem dos meus
os olhos dos que me querem bem
e me querem ter
que eu seja todo
e seja de todos vocês.
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love jukebox
no joke
no sarcasm
no revenge
geléia de pérolas
geléias de frutas proibidas
receitas doces
de legos e mangas
mangá ou romance
a vida inteira
na máquina de música
a vida e a música
ao meu alcance, num lance
cansei de ser tudo
cansei de ser todo
cansamos então
cansamos juntos
cansamos de ser parciais
cansamos de ser capitais
só não cansamos
de sermos um o outro
o outro almejado
o outro
que já se instalou em nós
ilustração de estigma
rima estrangeira
estagnada ilusão
venham as verdades
sinto-me um cão
mas não o cão dandado
cabra-da-peste fudido
a vida: esta caixa de video-clips
o nosso tempo
tempos idos
suavizam e eletrizam o meu tempo
espaço-temporal-descoberto
flutuação de realidade
onde não sou qualquer animal
não sou qualquer cão
não qualquer um
sou o cão chupando manga, baby
my girl
my sister
daughter.
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MARIA DANÇA
MARIA; dança pra mim.
‘Cê gosta de soul e de rock –
De rock in roll.
Dança, Maria.
Pois a imagem da tua dança
Lança minh’alma àcima das nuvens.
-Vamos fazer um trato:
Eu dou um tapa e você dança pra mim.
Pra minha boca ir na orelha.
Nesses dias tão nublados...
Seja uma cigana.
Uma odalisca.
Uma tiete da Jovem Guarda.
E guarda em ti todo o oxigênio desta casa.
Casa tua barriga com a minha.
Mas só depois da dança
Equilibrarei-me nesta linha.
Sou do circo. Sou criança ansiosa.
Vai, dança!
Dança só pra você.
Olha pra mim, mas esqueça-me um pouco.
Veja em meu rosto uma tela de cinema –
Um espelho para a tua dança.
Lembra-te de mim na hora encantada.
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Viajante
Disse o viajante:
“Brisa que me embala.
Estrela à paisana.
Meu vôo livre.
Mary Jane, Marijuana.”
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/ livros comestíveis
/ eu sou você / mas quem é você? / eu sou você e quem é você - quem quer que seja você / e você já está / definitivamente / em mim / e eu sou esse livro aberto / como não deve encontar igual / sei que o texto que sou / tem lacunas, hiatos / preencha-os ao seu modo / para o nosso bem / nunca para nosso mal / sou seu jantar / seu livro de comer.
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Balancete.
Quantas noites imaginárias...
Quanta perplexidade...
Quanta alteração de consciência.
Quantos tremores na terra.
O corpo muito claro.
O quarto muito negro.
O corpo que eu não vejo.
E os olhos dos meus dedos.
Quantos drinques pela goela.
Quantas imagens autistas.
Quantos mal-entendidos.
Quanta fumaça na noite.
A luz através da janela.
Na noite, sua perna branca
Sobre o meu corpo marrom.
E a mente viaja...
Mas o que é a morte?
E o que é a vida?
Quem inventou a cama de casal?
E quem somos nós
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/ criança da encruzilhada
/ exatamente como uma criança / ... / agora / meus quadros / não os pinto mais / caindo em depressão? / crianças ficam deprimidas? / é que descobri / que nada sei sobre a vida / e sobre o amor / e sobre o que é ser criança / sobre ser homem / eu / que já tanto falei sobre homens e meninos / estou no cruzamento do nada sei / e sei que há muita confusão / aqui / em mim / em mim me abandono / não é fácil ser biólogo e sapo ao mesmo tempo / e não é fácil ser homem / ou criança / simplesmente nada é fácil / ser marido / ser pai / ser solteiro / ser luciano / ser tudo o que sou e fui / tudo o que o mundo fez de mim / e o fez dolorido / sem piedade / sem lubrificante / água nos olhos / areia nos olhos / criança nos olhos / criança na curiosidade / na dúvida / na estupefação / no susto / na riqueza do susto / que encanta e estupra / o susto nunca pede permissão / pode ser um vestido vermelho / e pode ser rosto branco de mulher / e pode ser flor / e pode ser dinamite explodindo / não é pessimismo não / mas essa noite deverá ser uma merda / será que todos os que pensam têm essas noites doídas? / encurraladas / claustrofóbicas / o que a t.v. e os livros poderão fazer por mim? / eu / este andróide / este homem paralelo / este cabeça quadrada / minha cabeça está quadrada / e é agora / hora de chorar.
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dezembro: poço do ópio
mais um dezembro
mais um ano
menos um ano
mais um aniversário
mais uma morte
mais um jesus nascendo
mais uma porra de papai noel
de quantas caixas coloridas
ainda precisaremos?
caixas vazias...
mais vinho, por favor!
mais omeprazol
mas, o que eu estou dizendo?
se o natal existe
e ninguém é triste
então vamos celebrar
nossa grande irmandade
e idolatrar
o bom deus da tsunami
da miséria e da doença
e agradecer pelo peru
mais vinho, meu irmão!
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Luciano Fortunato é cantor, compositor e escriba.
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