Impressões
As cortinas de cimento vão baixando,
Esquecem, e descuidadas
Quase encobrem as cores do que é leve
Em plena floração.
Mas não:
Passam ao fundo, por misericórdia.
Espaçoso então, o tardio sol
Pôde espalhar seu tapete pelo chão.
Elas andavam em fila,
Combinando passo, formando centopéia
Pro percurso soslaiado
Em córneas de geral.
Atrás do algoz, névoa em aquarela.
Vingando contra ele
Apontavam ângulos de todos os cantos.
Pincéis negros em processo
Entre os laranjas da paisagem
Podem longe estar do som,
E perto, apenas os dois pontos
Para a oração aflita
De um cristo baço, tão pequeno
Pro tamanho do abraço.
A água, flúvia,
Entendeu-se bem na paisagem
Por pedras tão de elefante
E traços de um asfalto quase:
Nevoando, cai bem junto
Mas rola ainda na moldura
Pro lado de lá.
Demorei pra entender
E mais ainda, pois não deu até agora
Pra tomar providência.
Mas é fato evidente
A toda janela que olha:
Minha casa rachou a natureza.
A fissura brota pelo telhado
(Deixando inerte em foto a mãe na porta ao lado)
e daí, o cerrado esfaqueia inteiro.
Passando os cavalos, dá pra ouvir
Caindo do rebôco uns pedaços firmamentos.
Dessa abóbada não sei onde ir,
Não dá pra ver daqui Nem sombra de céu
– Demoro então, por fim, para esperar
O seco florescer em verde,
Que um dia o tempo volte
A um passado que nunca esteve.
O carnaval das cores
É um cristal de rocha
Barrando e transmitindo Ilhas de luz oportuna.
Os raios de várias eras
Cintilam, cedendo modestos
A autoria do que brilha
Ao minuto de um relance.
Como o que fecha a quarta capa
É quem sabe do livro,
Podem dizer o que virem,
Mas a alma do céu é verde
Como eu vi, com cara de último,
No calmo apocalipse de seu fim
Voltar | Capa
|
|