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» POESIAS
J. Carino
carino10@yahoo.com

» J. CARINO ESCREVE ÀS TERÇAS-FEIRAS

SEUS SEIOS
Seus seios são perfeitos,
eretos, pontiagudos
- velas enfunadas
com que singra
o mar da sedução…
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Onde vais, nuvenzinha branca
que voa, célere,
num céu de profundo azul?

Vejo, encantado,
o espetáculo de tua magia,
artista sublime e dedicada,
que se destrói construindo beleza:
carneirinho, flor,
bisão, navio,
titã de barbas brancas…

Ah, quem me dera fazer,
com as palavras,
sisudo e sério,
o que fazes, jocosa,
com teu corpo de leveza e alvura…
...........................................................................................................................................................

Este recanto no campo
é uma catedral.
Um restinho de sol poente
atravessa o vitrô
da mata quase fechada.
O rumor de vozes da cidade
- que sorte distante,
que sorte quase inaudível -
não profana o silêncio
em que o poeta
cultua as musas,
abrindo o peito
em holocausto.

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CHUVA

Essa chuva que cai
na noite,
em monótona cadência,
faz-se eco na alma umedecida:
faz bem à terra,
faz mal à vida.
Essa gota que desce
na vidraça,
deslizando, veloz,
sem som, sem calma,
faz bem aos olhos,
faz mal à alma.
Este verso que mancha
a folha branca -
negras pegadas numa alvura -
não faz mal
nem bem:
é só ternura.

...........................................................................................................................................................
Um pedaço de poema,
relegado ao lixo,
voltou em sonho
e incomodou-me
a noite inteira.
Na manhã banhada em luz, eu vi:
havia uma flor
na lixeira!
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Fiquem por lá
densas florestas,
mares bravios.
Prefiro a calma comportada
dos pomares.

Energia, tensão?
Pra quê, se posso ver, encantado,
a ousadia de um raio de sol -
dourado vagabundo -
que banha de ouro
a cerca do jardim...
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Esses recantos de praça,
em sua beleza humilde,
são remansos
no rio-turbilhão
da cidade
e da vida.
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Este verso que me desaponta
é mal e bem, abismo e horizonte.
Este verso que sorvo e regurgito
é fel e sal, doçura e azedume.
Este verso é vórtice de negrume,
é bocarra voraz que me consome.
Versejar é morrer por mãos de seda,
é voar rastejando em rimas ricas.
Este verso em que me decomponho
é cruel e tão mau… Parece a vida!
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Suplica

Esses sobrados antigos,
castigados pelo tempo,
só se mantêm de pé
com a argamassa do sonho
de etéreos fantasmas.
Limo, rachaduras, pó
e a pátina do tempo
dão-lhes essa aparência
de saudade petrificada...
...........................................................................................................................................................

Às vezes,
passeio o dia inteiro
na cotidianidade ensolarada
de Quintana.
À noite,
cansado mas feliz,
aconchego-me no colo generoso
do simbolismo
de Cecília.
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SINGELEZA DAS TROVAS 1
De rima em rima, busquei
o riso da bem-amada.
Ela riu, muito gostei,
mas o amor não deu em nada.
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SINGELEZA DAS TROVAS 2
Amei uma vez na vida.
Sofri. Não amo mais nada.
Porteria desguarnecida,
passa boi, passa boiada...
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Choramingava o gordo
perante a amante magérrima,
depois de um fracasso na cama:
- Julgava-me intenso;
sou apenas... imenso
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Repare:
Em noites de chuva,
Cada gota brilha.
É a memória
da luz das estrelas
nas noites de estio.
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Há palavras
e pessoas
trágicas,
mágicas,
orgiásticas
e até orgásmicas...
Certo as haverá
antropofágicas.
Pois não é que
me acabaram de comer
o final deste poema?
Sádicas!
...........................................................................................................................................................

Suplica
Esses sobrados antigos,
castigados pelo tempo,
só se mantêm de pé
com a argamassa do sonho
de etéreos fantasmas.
Limo, rachaduras, pó
e a pátina do tempo
dão-lhes essa aparência
de saudade petrificada
...........................................................................................................................................................

Cuidado!

Não confies na beleza.
Até o urubu,
voando alto,
é belo.
Mas ele desce…
e pousa na tua sorte!
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Do nada caiu-me um poema
pendurado no frágil fio da inspiração.
A aranha negra da imaginação
tece a teia que enreda a alma.
Entre dois pontos - o amor e a mágua -
prende-se a rede forte e sutil
que é a armadilha da poesia.
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Os cabisbaixos carregam o peso do mundo.
Seu olhar vago, cravado no chão,
passeia indiferente
por entre tocos de cigarro,
latas de bebida, papéis amassados…
Seu desencanto se arrasta
em meio à geografia dos entulhos,
ao mapa caótico dos dejetos.
Peripatéticos de sarjeta,
param numa encruzilhada do mundo,
cospem de lado,
e seguem com as mãos ossudas
nos bolsos furados…
Eles são todos nós.
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Sobre a alvura livre
do papel,
a negra ditadura
da palavra.
É assim até quando escrevo
“liberdade”.
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CARTOGRAFIA
Vejo um mapa mundi
talhado a ferro e fogo
em sulcos profundos
sobre minha face.
Eis aí
os caminhos que não percorri,
o rios em que não naveguei,
os lagos em que não me banhei,
os mares não singrados
pelas galeras de minha ilusão.
Essa implacável cartografia
mostra as rotas de fuga
do passado,
as estradas interditadas
do presente
e os trajetos sem saída
do futuro.
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O indizível amor
finge-se presente
nas palavras dos poemas.
O intocável amor
finge-se inexistente
nas pontas dos dedos.
O amor oculto
finge-se impresso
na retina.
E, no entanto,
- mistério dos mistérios -
não há verdade
mais verdadeira
que a do amor!
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O manto azul
do mar tranqüilo
ganha pregas sutis.
É a carícia leve
das mãos da brisa.
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TRISTEZA
Entristeci.
Não aos poucos, mas de repente.
Não como quem adoece,
mas como quem se envenena.
Nada sobrou da alegria.
Nem uma restiazinha de luz,
perdida ou vagabunda,
sobreviveu ao abraço da escuridão.

Entristeci.
Atirei-me no mar imóvel da mágoa.
Sem arrimo,
sem sequer me enredar
nas algas da dúvida.

Entristeci.
Não: converti-me em tristeza.
Fibra por fibra fui escurecendo,
até que não sobrasse
nem memória de sorriso no rosto
nem reflexo de brilho no olhar.

Entristeci.
Agora só resta o último passo:
a alegria de ser triste.
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BRAILE
Em braile do amor,
os dedos tocam as estrelas
e se ouve a sinfonia silenciosa
das amplidões celestes…

Em braile da paixão,
os dedos percorrem
os montes e vales dos corpos,
criando a música do gemidos e sussurros…

Eis uma aparente e abençoda cegueira,
que veda aos amados
o mundo escuro do real,
que abre aos olhos das almas que amam
o universo da verdadeira luz...

Em braile da felicidade,
cada ponto tocado
é um universo de compreensão
um infinito que vale a vida,
resumida em toques sutis.
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A VELA
Julgava-se mau, odiento.
E decretou contra o inimigo:
- Quando morrer, estarei convertido numa vela
posta ao lado de seu corpo por um transeunte [compadecido.
Dito e feito.
Morte do algoz, opera-se o prodígio.
E lá estava ele, como vela,
iluminando o plástico negro que cobria o cadáver.
Mas, era uma vela pensante, que pensava:
- Vou me extinguir, mas convertido em luz,
que há de iluminar até a alma desse pobre infeliz...
Não era mau ou odiento.
Era apenas poeta.
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SOENET
Hoje não há mais penas que rangem
sobre a brancura completa do papel.
Dedos poéticos hoje se constrangem
digitando versos por aí, ao léu.

Internéticas musas sensuais
as infovias percorrem sem cessar.
São musas puras, porém virtuais,
que a fronte do poeta vêm beijar.

Se tudo em volta é tecnologia,
se é micro, chip, o que tem valor,
o que conta inda hoje é a poesia.

É a paixão que mantém seu esplendor
o que nos resta em nosso dia-a-dia
É o velho sentimento que se chama Amor.
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Alguns barcos,
balouçando respeitosos,
velam a tarde,
que morre tranqüila...
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TEMPO
Tempo, tempo,
mágico gaiato no espetáculo mambembe
da vida...

Entre as cores descoradas
sob a lona da desesperança
repetes o truque, sem aplausos:
transformar horas em séculos
e dias em milênios.

Por que não fazes
como nos momentos de amor -
mudar os dias em minutos,
as horas em segundos?
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O MONSTRO
Fim de tarde - morte luminosa do dia.
O jardim público
exibe a plenitude da vida:
as folhas verdes, verdes,
acenam,embaladas pela cadência caprichosa
do vento.
Flores vaidosas exibem a exuberância
de suas cores.
Namorados namoram redundantemente.
Ser estranho e aterrorizador, vagueio,
nada à vontade em meio à alegria.
No espelho do lago, o golpe fatal:
vejo, assustado,
a imagem do monstro da melancolia.
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O morto
deixa cair uma lágrima,
tardia lágrima,
pelo olho torto.
Chorará por alguém
ou pelo que vem?
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Que sabe você da coragem?
Corajosa é a gota de orvalho
que desliza, temerária,
sobre uma folha de capim…
E, quando cai, vencida,
explode, feliz,
num borrifo de luz.

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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br

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