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Iza Calbo
 

Brevidades
Atravesso um rio lodento.
Quem dera fosse o mar azul que antes enxergava
Nos teus olhos de paisagens admiráveis.
Havia esquecido o que era sofrer.
Por um tempo grande demais,
Vi como crível a possibilidade de amar sem que
Os ponteiros da paixão se transformassem
Em lanças a cegar meus olhos hoje descrentes.
Sinto saudades.
Sinto raiva também.
Porque crer é algo tão obviamente absurdo
Que nos faz parecer bobos-da-corte
Na miragem atrapalhada de nós mesmos.
Cada lembrança que me chega,
Corta como estilete cego os momentos nos quais
Tudo me pareceu tão possível.
Teu cheiro,
Teu corpo,
Teus beijos,
Teu jeito de me tocar e de dizer
O que ninguém havia dito até então,
Tudo vai sendo dissipado junto com a memória
Das malas tantas vezes feitas e desfeitas
Até o dia em que elas se foram para sempre.
E nesta nova paragem
Abortada do tempo,
Descubro lâminas atiçadas
Ao longo do caminho onde toco os pés.
E, em chagas, percorro a estrada que me prometeste.
E não há nada de belo quando olho para os pontos cardeais
Que inúmeras vezes tentaste me apontar e ensinar.
Estava, já, no percurso errado,
Mas a cegueira do amor antigo
Fez-me ver girassóis em lugar de cactos,
Brotos de bambu, na serra seca e atropelada pelo sol a pino
Dos sertões queimados do seu coração sem rumo.
Hoje passeio sozinha por dentro de mim mesma
Tentando encontrar as frases que colocaste em mim
Como verdades absolutas
Seja em tuas desculpas
Ou nas tuas juras de amor de ver envelhecer.

_ “Ninguém nunca se abriu para mim como você”...

E eu, crendo nisso, passava por cima das dores
Para ser única e bobamente inesquecível.
Agora, relembrando, entendo porque fomos tão breves.

Reflexão da Alma
Nada estilhaça mais a alma que uma traição.
É como se nos partissem o espelho da essência.
E não há cola para juntar os pedaços.
Por isto, vira e mexe, um corte se abre e o sangue jorra atordoado.
Seja nos pensamentos. Seja nos pesadelos.
Fecho este ano com um lacre de dores indescritíveis.
Quase todas as que tive
Na esperança simples, inocente e quase comovente
De pretender ser feliz.
Aos que me traíram, desejo apenas que não o façam com outras pessoas.
Aos que mentiram anos a fio, deitados em minha cama,
Espero que outras camas lhe inspirem sentimentos mais nobres.
E, para todas as traições, espero que os corações de quem as pratiquem
Se tornem menos duros e mais delicados
Como flores nascidas na seca.
E para os filhos que rejeitam o amor dos pais,
Espero que um leve perfume de sensatez
Grude em seus espíritos
Como seiva de alfazema para abrandar tal engano.
Aos que me amaram de verdade,
Digo somente que os amei e amo mais e mais.
Aos inimigos, o meu sorriso.
Ao falso amigo (a) as minhas condolências,
Porque amigos assim se matam eles próprios,
Suicidas das suas más intenções.
No mais, digo apenas que seguirei buscando o melhor nas pessoas
Sem filtros para as mentiras
Porque não os possuo.
Enfim, sigo tentando recompor a vida,
Ainda que a alma sangre
E singre de mim de vez em quando
Porque sei que ela sempre volta,
Remendada, é certo, a me apontar novos jardins
E novos caminhos a serem tocados.

V
Avise-me quando não mais houver.
Lembre-me de que o açúcar acabou,
Mas há colibris sedentos lá fora.
Senta na rede antes de dormir
E conta histórias de não adormecer.

Cavalga indomável pelo meu dia
Sem laços

E invertebra-te na tua pálida desilusão.
Diz que foi
Que eu acredito.

Diz que vem
Que eu não espero.

Faz do sol a lua do acalanto
E esquenta, sem vontade,
O dia de logo mais.
Cala,
Ainda que não consintas.

Avisa, pela manhã,
Que acabou.

Explica os anos que passaram
Arrumando as malas
E confessa que o tempo não rasgou nada além que o relógio.

Antecipa a ausência
Porque a ausência vem junto com a doçura dos primeiros olhares e beijos.

Sai.
Busca na rua um rosto que não está
E, feito isso, enlaça outra pessoa nos braços
E faz as mesmas juras de sempre
Para depois quebrá-las sem causar espanto.

Só mágoa.

* Este poema, o V, referente ao AMOR, integra o livro inédito Os Oito Pecados Captados. Iza Calbo é jornalista e escritora e tem publicado Capítulos (contos, 1998).

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