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Fabrício Mohaupt
 

Filhos
Eentão, o primeiro cresceu;
e, ao crescer, um irmão pediu.
Nos pais, a vontade ocorreu,
mas, no menino, o ciúme surgiu.

E então, a mãe concebeu;
e, ao conceber, ao Pai rezou.
Pela benção recebida, agradeceu,
mas, no rosto, o pranto derramou.

E então, o segundo nasceu;
E, ao nascer, a todos emocionou.
A família, o rebento, acolheu,
mas, o irmão, confuso, chorou.

E então, o tempo passou;
E, ao passar, de amor imbuiu,
O segundo, o primeiro, conquistou,
Mas, em nada, o ciúme diminuiu.

E então, os dois cresceram;
E, ao crescerem, uma irmã pediram.
Os pais, pensar, prometeram,
Mas, no fundo, também queriam.

Nativo
Não sou brasileiro!
Sou mais antigo que isso.
Não havia Brasil ou cruzeiro,
Apenas a terra que piso.
Matas-virgens, água e caça,
Num tempo em que éramos tantos.
Nada de óleo, fumaça ou raça.
Antes do branco, seu Cristo, seus santos.
Massacrado, conquistado, catequizado.
Com a alcunha de índio, nomeado.
Destituído, humilhado, segregado.
Hoje, com um dia, celebrado.
Por vergonha, culpa, homenageado.
Lírico, folclórico, belo e enganado.

Filho
Que se faça semente perante a vida
e ao adquiri-la, cresça então.
Protegido no ventre da maior amiga.
O afago gravado com emoção.

Que se faça presente perante a luz
e ao percebê-la, chore então.
Demonstrando a todos que está.
O corpo exposto por uma mão.

Que se faça registro perante o escrivão
e ao lavrá-lo, identidade então.
Neste momento não só está, é.
O número comprovado na certidão.

Que se faça pessoa perante o lar
e ao adentrá-lo, o dono então.
Apossando-se de tudo e de todos.
O direito adquirido sem contestação.

Que se faça membro perante a família
e ao integrá-la, o xodó então.
Recebendo muito carinho e atenção.
O amor inundando seu coração.

Cacos
“Eu sou trezentos,”
talvez mais,
fragmentos multiformes
juntados num monte,
que anda...
e fala... e pensa!
Um por caco.
Pensamentos plurais,
convergindo e divergindo,
juntando e separando,
e criando mais...
cacos.
Eu sou uma leva deles,
uma turba em discussão,
uma sociedade em um,
uma legião de pedaços...
de mim mesmo.
Sou isto tudo,
mas também sou nada.
“Eu sou trezentos,”
talvez mais,
e nunca basta.

Receita Moderna
Junte em um balaio grande
Diversas escolas, nenhuma regra
Temas diversos, temática alguma
Liberdade, abertura e provocação
Meia dúzia de gatos e um camundongo

PROSTRAÇÃO
Em algum lugar, em algum instante,
Amores passados, presentes, futuros,
Em que o coração de alguém se encante.

Viver e sofrer no inferno de Dante,
Vomitando quimeras, sonhos morituros,
Buscando carinho e consolo na bacante.

Sem juras, esperança ou lenitivo,
Pra sentimentos não há corretivo,
Não importa se está o espírito ativo,
Tudo no corpo físico é aflitivo.

Não há loucura que me alucine,
Insano já me encontrava a limine,
Alienado, nada há que alumine,
Breu e solidão é o que fica in fine.

Outono
Vivendo um verdadeiro impasse,
um amor sem nenhum consolo.
Como se desgraça faltasse,
o coração embebido em dolo.

Paixões eventuais oferecem conforto,
mas, mergulhado num calvário de dor,
o coração fica solitário, trôpego, morto,
sem música, sem dança, sem ardor.

Vive-se triste, sozinho, com sono,
imotivado, ausente, esperando,
como se fosse sempre outono,
em mágoas, torturado, afogando.

Como nos versos de Caetano,
“querendo querer-te sem ter fim”,
implorando que tudo seja engano,
pois não é justo que finde assim.

Sou
Sou um pequeno pedaço do mundo,
um mundo dentro de um mundo e de outro;
sou um pedaço complexo, profundo.

Sou difícil de entender e de mudar, cruel,
um sonho alucinado, tresloucado;
sou insólito, transgressor, um filme de Buñuel.

Sou a nova era, que logo será velha,
Sou o horizonte distorcido pela realidade,
que o imaginário, pasme, espelha;
onírico, irreal, sem paridade.

Sou o escapismo que cruzou a sua vida,
Sou aquilo que mudou o seu caminho,
a volta de algo que não teve ida;
esquecido, passado, em desalinho.


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