O ESPELHO DE NARCISO
Espelho
espelho meu
como ousas apontar as marcas em meu rosto
como me dizes velho e feio
se sem mim
– teu amo supremo –
não terias utilidade alguma
se sem minha imagem
tua existência não faria sentido
como
criatura infernal
ousas mostrar-me as rugas que trago
se sem meu rosto refletido em ti
serias nada
serias vazio
como moldura sem tela
...........................................................................................................................................................
MANHÃ CEDO
cachorro ganindo por bóia e carinho
mais por carinho do que por bóia
esses bichos são assim
MANHÃ CEDO
dia comprido
o ócio cansativo de costurar palavras
alguns remendos
arremedos de rimas
sou um remendão
eis a sina
MANHÃ CEDO
chinelos felpudos do lado da cama
escova
pasta
água
espelho...
cachorro ganindo por bóia e carinho
sou sozinho
ganho abanos de rabo e lambidas
feliz?
não sei é difícil existe a consciência
tenho olhos pra ver
ouvidos pra ouvir
e boca...
quem me escuta
e o que vejo
e o que ouço
e o que penso calo
sou sozinho
ganho abanos de rabo e lambidas
feliz?
não sei
poeta
eis a sina
cachorro ganindo por bóia e carinho
mais por carinho do que por bóia
esses bichos são assim
MANHÃ CEDO...
...........................................................................................................................................................
Sopro morno de vida e morte
o BÁSICO vira LUXO
a fome ABUNDA sobre a mesa MAGRA
o DESTINO que logramos
- ZOMBETEIRO -
parece dar-nos as costas
a caça é fraca o rio é ingrato
a vida é LOUCA & MALVADA
a sorte é ESCASSA
a coragem nos escapa
como um sopro morno
ora insistente (de vida)
ora realista (DE MORTE)
...........................................................................................................................................................
OS 4 EFES
ACASO ACHAS
QUE EU NÃO SEI
QUE FEDO
QUE FODO
QUE FINJO
QUE FUJO?
...........................................................................................................................................................
a gleba
O GLOBO
o globo engole a gleba
uma gleba ao lado de outra gleba ao lado de outra
...........................................................................................................................................................
L A T I F Ú N D I O
o latifúndio atravessa na garganta da plebe
a greve
é grave
agrava
a fome
a seca
a greta
a sede
um forte
um fraco
um cede
o povo só pensa em ter sua sede
o homem não concede ao homem
o que Deus concebe
e seguimos segregando o que tanto sonhamos
...........................................................................................................................................................
A SUPREMA VIRTUDE DA ESPERA
DESCULPE-ME
OH VERDUGO
SE NO AÇOITE
CONTRAÍ OS MÚSCULOS
É QUE NO MOMENTO DOCE
EM QUE CHICOTEAVA-ME
DE GOZO ESTREMECI
E NÃO PUDE DEMORAR-ME
SABOREANDO OS ESTALIDOS
DE VOSSA AMÁVEL SOITEIRA
PEÇO-LHE QUE RECOMECE
SEM PRESSA
POIS PENSO
QUE UM MAIOR INTERVALO
ENTRE UM E OUTRO FUSTIGAR
SÓ ME FARÁ BEM
ME ENSINARÁ
A SUPREMA VIRTUDE
DA ESPERA
...........................................................................................................................................................
*Cláudio B. Carlos (CC) é poeta e prosador, nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS (www.balaiodeletras.blogspot.com)
Voltar | Capa |