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» MACEIÓ, AL, 9 DE SETEMBRO DE 2006

Envelhecendo

E a velhice, esse inclemente, impiedoso e indesejável fim de linha da mortalidade, continua a excitar e incitar cientistas, religiosos e outros estudiosos, de todas as partes do mundo, na tentativa de encontrar o desvendamento de seus mistérios e construir de desvios que nos ponham em caminhos contrários a ela, presenteando-nos com uma longevidade sadia.

Mas o tempo continua a mostrar-nos seu poder misterioso de transfigurar o corpo e amadurecer o espírito, deixando-nos passar pela sua própria estrada existencialista, os segundos, os minutos, as horas, os dias..., toda a vida, para registrar sua impiedosa marca de destruição - o envelhecimento do corpo.

O medo da morte é avassalador: traz-nos a saudade dos que ficarão e a pressa no cumprimento de nossas necessidades mais puras, a de passarmos a outrem o que esse nosso tempo ladrão deu-nos de presente com a vida.

A velhice é certamente um irremovível fim de linha, última estação antes da parada final, quando os trilhos não nos permitirem mais decidir a vida por nós mesmos: lugar-comum para agnósticos, incrédulos e crentes, onde uns encontrarão um novo começo e outros, o fim de tudo, ou simplesmente o absolutamente natural para tantos. Sonda-me neste lugar misterioso, o discurso da fé, apenas o pó da salvação para os que alimentaram dentro de si a crença em Deus.

Na vida há tempo para se cultivar o desalinho dos nossos pensamentos e as gargalhadas do prazer. Alguns vencem, outros caem nos báratros do marasmo. Tantos procuram sobreviver nos portais da desilusão da solidão - tristeza profunda onde não se pode enxergar as estações da vida, onde só se enxerga a sombra descarrilhada do próprio abandono. Para esses o trem nunca passa e a estação é velha, obsoleta e escura, brumada, inútil.

A hora aprazada jamais se perceberá. O presente inesperado, ninguém quererá recebê-lo. Mas a morte revela sempre sua porta obscura, quando o mar da velhice não oferecer mais um corpo cheio de ondas viçosas, quando o primeiro já não for o instante último e os olhos, rijos das paisagens, ensombrearem-se pelas lágrimas da dor e pela indiferença que a tristeza do fim de tudo pode oferecer-nos.

E, afogueados pelas labaredas desconhecidas, alguma coisa vai ardendo na desilusão de nada se ser mais, improduzir, voltar a certos desalinhos da evolução.

E quando não pudermos mais sonhar e tudo for desesperança para o corpo, o barco levará o pó para o pó e a alma para passear em prosa e verso sobre as ondas dos mares misteriosos dos que creram antes de envelhecer. Quando a morte chegar à minha porta, saiba ela, terá que chorar em minha sepultura para pagar por mim o imenso amor que tive pela vida!

Orfânica, ficará minha última prosa incendiada pelas brasas dessa finitude ingrata. Posto o féretro cheio de jardim esquisito, mesmo que adorem o lugar e seus transes de lembrança, estarei em outra plaga, feliz à beça, por ter onde achar a felicidade. Morro aqui para, por lá, depreender dos novos ares, como realmente um poeta pode dirigir-se, a pedir vida a essa tal felicidade. Envelhecer, sim, eu sei; morrer eternamente, só para os incrédulos e desalmados. Esta vida nos dá sabores novos de outras, como também o olfato da velhice nos presenteia com o perfume da eternidade.

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    *Paulino Vergetti Neto é médico e escritor


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