ROMÉRIO RÔMULO

• Romério Rômulo nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP. Prefaciou a primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, "O Elixir do Pajé" (Dubolso, 1988), mais de 100 anos depois da edição original. Já publicou diversos livros, como “Só pedras no caminho pedras pedras só pedras nada mais” (Lemi, BH, 1979), “Anjo Tardio” (Edição do Autor, Ouro Preto, 1983), “Bené para Flauta e Murilo” (Edições Dubolso, Sabará, 1990) e a caixa "Tempo Quando" (contendo 4 livros em 2 volumes, Dubolso, 1996). Seu último livro, “Matéria Bruta” (Altana, SP, 2006), será lançado no Terças Poéticas do dia 22 de maio, após a leitura ao vivo de poemas extraídos do livro que mais parece um exercício de arqueologia à origem.
A ENTREVISTA:
Wilmar Silva - Ao final da origem, o que guarda de Felixlândia na memória da infância?
Romério Rômula - Por seis meses meus pais moraram em Felixlândia e lá eu nasci. Assim, Felixlândia não chega a ser um retrato na parede. Mas a vida deles, e por conseqüência a minha, na infância, foi sempre pelo cerrado, nas proximidades do rio São Francisco. Daí, terra, cerrado e rio são meus elementos vitais. Mesmo aquela planura monótona me toca. E fui descobrir, mais tarde, que a pouca atratividade do cerrado é só aparente. Você descobre, se dentro dele, belezas intensas. Uma das flores mais bonitas que conheço é a do pequizeiro. E quem esperaria que aquela árvore sugerisse isso? (não me pergunte se sou um pequizeiro - espinhos e mais espinhos na fruta - com algumas flores!).
Wilmar Silva - Errante dos cerrados nas palavras, e depois nas pedras entre as montanhas de Vila Rica, como foi a sua viagem chegada a Ouro Preto?
Romério Rômula - Cheguei à Vila Rica pra estudar. Foi um impacto. Pra quem estava acostumado com outros ares, outros desenhos de paisagem, embora já não somente o cerrado, o adjetivo só pode ser um: estranho. Sabe aquela estranheza que você não consegue saber como chega, mas chega, e você tem de superar? Foi assim.
Wilmar Silva - Bucólico e árido, Ouro Preto é uma Pasárgada ou Ouro Preto é um distrito esquecido depois da poeira com uma igreja sem a musa e nem o pastor Manuel Inácio da Silva Alvarenga?
Romério Rômula - Pasárgada não é, pois, tem uma beleza em rabutalhos (e, por sinal, não sou, nem pretendo ser, amigo do rei). Embora patrimônio mundial, ouro preto está dilacerada, naquela dialética reconhecimento - desmontagem, elementos que caminham juntos. Trabalho sempre com a idéia de que a desmontagem de ouro preto está na sua origem. A vila surge de um desmantelamento na busca do ouro. Ouro a qualquer custo pressupõe uma ruptura da paisagem original. Meus poemas sobre as pontes de ouro preto, já publicados em espaços da internet, mostram essa visão. Distrito esquecido com uma igreja, ouro preto foi por muito tempo. E já sem Marília, embora tudo indique que as Marílias foram muitas.
Wilmar Silva - Pudesse rasgar os cabelos e partir em busca de uma creta, que autores você puxaria para suportar as tardes de ondas sem cricri de grilos?
Romério Rômula - Certamente puxaria muitos autores. Para dar uma idéia, carrego sempre em minha bagagem as obras completas do João Cabral, do Augusto dos Anjos e os sonetos do Camões. Mas veja, Wilmar, não creio que eu rasgaria os cabelos. Eles são a minha fúria.
Wilmar Silva - O fôlego de selvagem em “Matéria Bruta” revela um criador em estado de choque com a linguagem e com a poesia enquanto língua em estado de léxico político, escrever poesia é preservar o sangue azul de mestiço ou entrar na metástase de um sangue coca-cola?
Romério Rômula - Esta metástase do sangue coca-cola é uma deformação não percebida ou, se percebida, dada como não existente. O trabalho/ luta, seja com a linguagem em seu sentido puro, seja com a expressão cotidiana da mesma, há que ser político. Aí é que o sangue azul do mestiço se mostra.
Wilmar Silva - Apesar de viver na aldeia de árvores e pedras, Sebastião Nunes afirma que “estamos diante de um poeta novo e original”, o que partilha “Matéria Bruta” de seus títulos/nomes anteriores e de seus contemporâneos em formação?
Romério Rômula - Matéria Bruta tem muito dos meus contemporâneos de formação. O próprio Tião Nunes contribuiu com sua postura clássica do “poema sem palavra”. Quanto aos títulos anteriores, desde o segundo, “Anjo Tardio”, algo já vinha se construindo para a “chegada” à linguagem atual, do meu ponto de vista, cheia de rupturas sintáticas e léxicas. Entendo que em “Bené para Flauta e Murilo” isto já está bastante explícito.
Wilmar Silva - Seu nome, Romério Rômulo, com erres contendo um rio e um mulo, de onde vem, quem são os pais que formam a árvore genealógica do poeta de “Tempo Quando”?
Romério Rômula - O “mulo” eu já tinha percebido; o rio, não. Minha árvore genealógica tem por base, nos séculos 18 e 19, a Joaquina do Pompéu, a Sinhá Braba, minha avó em sexto grau. A mistura racial é ampla: belga, espanhol, italiano e, quando no Brasil, certamente negro, índio e português. Há pouco fui ver que Romério, nome escolhido por minha mãe, amante das aliterações, é presente na Itália. Carrego comigo também um sentimento, baseado na observação, de ter algum sangue cigano, pelo lado de meu pai. Nos meus primeiros meses de vida fui alimentado com leite de égua. Como sou considerado um brigador, este “mulo” pode significar algo mais. Não é uma abordagem interessante, Wilmar?
Wilmar Silva - Sua casa em Ouro Preto mais lembra um museu aberto onde Carlos Scliar tem agora em você a preservação de um artista, como aconteceu esse encontro para salvar o amigo plástico do olimpo?
Romério Rômula - Meu encontro com o Carlos Scliar teve bases políticas. Fui procurá-lo, num certo momento, para buscar recursos para o PCB. Daí criamos uma amizade tão forte que fui morar na sua casa em Ouro Preto, onde ele passava uns três meses do ano. E o amigo plástico continua vivo pela sua obra, no sentido mais amplo que isso possa ter.
Wilmar Silva - Poeta, sim, e o professor de Economia Política da UFOP, dois rios que são um rio ou dois rios que são dois rios?
Romério Rômula - Poeta e professor de Economia Política pra mim são um mesmo rio, que sou eu. Agora, pelo lado da instituição “universidade” e dos partícipes do processo (professores principalmente) o poeta soa quase sempre como uma deturpação. Parece absurdo isso, numa universidade, mas é plenamente verdadeiro. Argumentam que meus livros publicados não pertencem à minha área de trabalho. Devo dar atenção a gente que pensa assim?
Wilmar Silva - Também editor do proibido e esgotado “Elixir do Pajé”, esse Bernardo Guimarães é diferente dos Guimaraens da poesia e do Guimarães dos romances conhecidos?
Romério Rômula - O Bernardo do Elixir é, certamente, uma face do Bernardo da “Escrava Isaura”, do Seminarista e mesmo de outros poemas. Mas que ele dá uma tacada inesperada e pouco aceita pela família ouropretana, isto ele dá!
Wilmar Silva - Ainda na barriga da mãe, mãe e pai conversam com o filhofilha para sentir as suas vozes, e depois ao nascer, pai, mãe e filho ou filha, entram em estado de dicionário para se comunicarem e para filho ou filha aprender a língua, afinal, Romério, o poeta é um menino na barra do vestido ou uma menina no botão do zíper?
Romério Rômula - Wilmar, não tenho dúvidas de que continuamos nas barras dos vestidos e nos botões dos zíperes, meninos e meninas.
Wilmar Silva - Aspectos de antropologia encerram uma geopoética em Romério Rômulo, ou a existência é “uma viagem ao desconhecido” (Maiakovski) da poesia?
Romério Rômula - Há uma “viagem ao desconhecido” no sentido de não se conhecer a chegada, mas há uma geopolítica, como você chama, que está atracada em cada um de nós.
Wilmar Silva - Partir em busca de uma poesia é o mesmo que partir em busca de um planalto, ou o cerrado se tornou um campo urbano de batalhas perdidas no topo do mundo de esquerda?
Romério Rômula - Não sou chegado a aceitar “batalhas perdidas”. Então, “vou pro pau”. Se chegarei ao planalto ou ao topo da montanha, aí está o não sabido. Vale o embate. E aí me garanto.
Wilmar Silva - Sabia, Romério, que o silêncio de muitos poetas me assusta mais que o barulho de alguns, mas é possível um jornalismo de cultura se a democracia de mentira colocou na cabeça do poeta a mentira da liberdade?
Romério Rômula - Wilmar, o Oscar Niemeyer já escreveu que a arte cada dia mais é “relações públicas”. E os poetas (muitos entraram no jogo) que se esclareçam sobre isso. Suas observações “democracia de mentira” e “mentira da liberdade”, com as quais concordo, me sugerem o embate da construção e não algo definido e definitivo. E o jornalismo de cultura fica pendurado, na quase totalidade dos casos, nos interesses que conhecemos do capitalismo. Não inventaram uma certa “indústria cultural”? Quem se presta a tal coisa que se abrace com ela!
Wilmar Silva - Invés de remeter livros pelos correios, o que é preciso para invadir as pessoas com poemas caídos invisíveis ao vento pela cabeça aos corações das pessoas?
Romério Rômula - Wilmar, caminhamos no mesmo barco (isso mesmo, caminhamos!) e se você conseguir trabalhar essa coisa , me fale. Talvez o Shakespeare tenha tramado por ai.
Wilmar Silva - O que anda escrevendo Romério Rômulo quando avião mata menos que carros e abandonam trem de ferro na ferrugem dos dormentes?
Romério Rômula - Ando escrevendo sobre meus amigos, como sempre. Umas coisas que se derramam sobre mim, me ajudam a trabalhar outras questões. Na sua pergunta, a “ferrugem dos dormentes” me sugere alguma coisa. Meus embates com o mundo e a linguagem permanecem como centro.
Wilmar Silva - Vamos, por favor, realmente é possível uma poesia verdade nascida da vida para redescobrir que Jesus Cristo salvou o homem do pecado, ou não acredita na existência do pano de santo sudário?
Romério Rômula - Que história é essa de santo sudário?
Wilmar Silva - E com Madalena, você dormiria com ela por uma noite para entender que o homem tem uma pedra fálica, ou arremessaria contra Geni?
Romério Rômula - Wilmar, suas ironias são comprometedoras. Não quero envolvimentos com Madalena, pelo obscuro de suas relações. Agora, jogar pedra na Geni, não!
Wilmar Silva - Tem poetas que matam os seus poemas quando falam os seus poemas, e você, Romério Rômulo, o que pensa sobre a importância ou não importância da poesia sonora?
Romério Rômula - Gosto da poesia falada e eu mesmo, comigo e minha mulher, leio meus textos. Mas a fala pública exige outra inflexão, outro preparo. Aí vem a morte de que você fala. Mas não sou contra que se agreguem instrumentos vários à poesia, o que, por sinal, nem é recente.
Wilmar Silva - Se sete são os pecados capitais, puxando o gatilho de seu poema “sete perguntas a Manuel de Barros”, o que pensa sobre a perdição da angústia da influência, ou a influência para se perder nos buracos de uma atlântida?
Romério Rômula - Eu nunca padeci desta “angústia da influência” até porque nenhum de nós começou do zero. Começamos a partir de tudo que se fez e fazemos a partir disso. E como você falou dos sete pecados capitais, lembrando as sete perguntas a Manoel de Barros, eu posso produzir 10 perguntas ou textos ao Augusto dos Anjos, para termos os 10 pecados mortais. Por sinal, meu próximo livro a ser publicado é “per augusto & machina”, Augusto dos Anjos retrabalhado ou revisitado. Tenho uma identificação especial com ele.
Wilmar Silva - Comprados “Pedras no Caminho” e “Anjo Tardio” na acabada livraria na lateral do Palácio das Artes nos anos 80, quando perquiri Romério Rômulo que conheci 20 anos depois, que geografia entre 1979 de “Pedras no Caminho” e 2006 de “Matéria Bruta”, quase 30 anos passados?
Romério Rômula - O percurso geográfico foi forte. No início, com “pedras no caminho”, eu pensava ser um maldito. Creio que a maior consciência sobre a impossibilidade de um “baudelaire sertanejo” me conduziu à musculatura que me diz respeito, como no trabalho “Matéria Bruta”.
Wilmar Silva - Parceiro inseparável nas edições de seus livros realizadas por Sebastião Nunes, viver em Ouro Preto seria o mesmo que viver em Sabará ou a terceira margem não é uma cidade satélite de Belo Horizonte?
Romério Rômula - Sempre digo que o Tião Nunes coloca alma nos meus livros e mesmo em outras edições que já trabalhamos juntos. Agora viver em Ouro Preto é bem diferente de viver em Sabará. E nunca falamos de uma terceira margem do rio. Mas é bom lembrar que os dois viemos do cerrado.
Wilmar Silva - Afetivo por pessoas, “quantos quintos dos infernos” no verso de um dos poemas do livro “Amigos & Amigos”, é verdade, Romério, que a amizade é uma paixão exacerbada de amor?
Romério Rômula - Numa pergunta anterior já respondi que continuo escrevendo sobre os meus amigos. Tenho um livro a ser publicado: “carlos, carlos e manuel” (Carlos Scliar, Luis Carlos prestes e Manuelzão) onde só falta terminar o poema do prestes. E o poema do Scliar tem o titulo de “canto para amar Carlos Scliar”. Que a amizade é uma paixão exacerbada eu não tenho dúvidas. E olha que a paixão já é exacerbada. Gosto de dizer que a paixão “ é um rio só cachoeira.”
Wilmar Silva - Meu admirável amigo Rainer Maria Rilke afirma que é preciso escrever em estado de cio, em “Matéria Bruta” no primeiro verso da página 104 você afirma “vivo em estado de coisa”, a poesia é “palavra-coisa” (Sartre) ou “poetry is to inspire” (Dylan)?
Romério Rômula - Cada um dos citados tem lá suas razões: coisa, cio, inspiração dão suporte à construção poética. Requeiro que seu admirável amigo Rilke vá à citada página 104 e veja:
“sobre pisar a alma selvagem
requeiro meu delírio.”
Wilmar Silva - O que é inspiração para João Cabral de Melo Neto, ou melhor, para Romério Rômulo?
Romério Rômula - Pra mim a inspiração é uma disposição afetivo-corporal de trabalhar. No nosso caso, o texto. E fica dito.
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*Wilmar Silva, poeta, é curador do projeto Terças Poéticas – realização da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, através de uma parceria entre Suplemento Literário e Fundação Clóvis Salgado.
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