Lembranças
Hoje quando ela bateu a porta, decidida, percebi que estava indo atrás de sua vida.
De repente me vi no lugar dela, 25 anos, com uma coragem inerente à idade, talvez por não saber nada ainda, com tantos sonhos, muita garra, mas uma fragilidade enorme mascarada por certa arrogância. Eu também fui assim. Por que me vi nesse momento? O que temos em comum? Somos mãe e filha, meu eu respingou nela de alguma forma. No entanto, nossa infância e adolescência foram tão diferentes, outra época, outros valores, outros recursos.
Quais foram seus medos? Maiores que os meus, com certeza. Eu não tinha medo de andar de ônibus, nem de sair à noite. Lembro-me de poder tomar champanheno Corcovado de madrugada; ela nunca pôde se aventurar, ia sempre de táxi direto para o evento e voltava com dia claro, era mais seguro, sempre olhando para os lados, sempre na defensiva. Foi assaltada diversas vezes.
Meus medos? Eram dos filmes de terror protagonizados por Boris Karloff, que via na tevê antes de dormir. Meus medos eram da ficção e os medos dela são da realidade. No entanto, mesmo assim nesse momento que partia, eu me reconheci nela e senti um frio na barriga, talvez o mesmo que ela estivesse sentindo.
Meus sonhos adolescentes foram construídos em muitos livros. Como eu gostava de ler, quantos lugares percorri, quantas lições apreendi, sempre me lembrarei de Clarice Lispector, minha autora preferida, que me ensinou entre diversas coisas que “apesar de” se deve viver.
E ela o que leu? O que aprendeu nos livros? Leu por prazer ou só por obrigação? Será que leu?
Ela viu muitos seriados, isso eu sei, “Friends”, seu predileto, tanto que ela bateu a porta decidida a ir morar em Nova Iorque, mero acaso? Seus sonhos foram construídos em cima de crônicas do cotidiano de outro país! Tomara que dê certo.
Fomos muito unidas apesar de ela implicar bastante comigo. Eu também torturei minha mãe para poder fazer a separação.
A porta fechou e eu me senti encarregada de guardar nossas lembranças: Em segundos, como num filme, vi o bebê, a menina, a adolescente, a jovem adulta entrando no mercado de trabalho e agora indo tentar seu voo maior, morar fora. Lembrei de nossos melhores momentos, como ela gostava que eu cantasse para ela dormir, não eram canções de ninar, eu cantava as músicas que mais gostava e ela aprendeu a gostar e cantamos juntas nos momentos bons e pesados da vida, Chico, MPB 4, Elis, Jobim.
Vai, minha menina, vai viver, voe longe, desejo tudo de bom para você, mas que, principalmente, você também possa, 25 anos depois, se reconhecer na sua filha e sentir toda essa emoção e confirmar que valeu a pena não ter medo de ousar. |