Verdade por insistência
Não me lembro quem foi que falou que uma mentira repetida muitas vezes acaba se tornando uma verdade, pelo menos para a maioria das pessoas. Essa afirmação é totalmente verdadeira, e repetimos feito papagaio algumas falácias que não nos damos ao trabalho de questionar. Elas são muitas, mas de memória vou tentar aqui uma lista das mais gritantes para mim.
Todo mundo já ouviu alguém defender a tese do traficante do colarinho branco, um sujeito engravatado, pertencente às “elites”, que fala cinco idiomas e comanda o seu inacreditável império das drogas (entre um gole e outro de uísque escocês) de sua cobertura da Vieira Souto. Bom, assim como Papai Noel e o coelhinho da páscoa, essa é uma figura mitológica criada por gente que acha que não existe pobre bandido e, se existir, é ladrão de galinha. Para os adeptos da grande teoria da conspiração, tudo que acontece de ruim tem que ter o dedo de alguém endinheirado e bem educado. Pode acreditar, não há na hierarquia do tráfico ninguém acima dos Fernandinhos Beira Mar da vida e seus assemelhados. Não é porque vieram da favela e já andaram de chinelo que eles não sabem fazer negócio, pode perguntar para qualquer policial sério.
Continuando no tráfico, outra mentira que volta e meia é repetida até por autoridades que deveriam fazer melhor o seu dever de casa, é a afirmação que quem sustenta o tráfico é a “playboyzada” da zona sul, jovens garotos de classe média. Só quem nunca foi a uma boca de fumo pode dizer uma mentira dessas. Um amigo esteve recentemente em um desses “estabelecimentos comerciais” na companhia de um colega músico, em Caxias, e quando este estacionou o carro era tarde demais para voltar atrás. Na boca tinha de tudo, pai de família, pessoas com sacolas de compra, garotada, coroa, viciados terminais e gente que vai comprar um pozinho ou um baseado para incrementar a cerveja ao final de mais um dia de trabalho. A coisa mais próxima de um playboy naquelas paragens era ele. Todo o resto era pobre ou remediado e vivia por ali mesmo. Alguém realmente acredita que haja tanto garoto endinheirado na cidade para sustentar centenas ou milhares de bocas de fumo? Talvez na Bélgica...
Ainda no terreno da segurança pública, de vez em quando aparece um gênio dizendo que para acabar com o tráfico de armas e drogas é preciso “vigiar as fronteiras”. Esse é o equivalente geográfico de tirar o sofá da sala para impedir sua filha de dar. Com milhares de quilômetros de fronteiras e outros tantos de costa marítima, ia ser preciso um contingente de soldados maior que a torcida do Flamengo e do Corinthians juntas. Sem falar que um ou outro torcedor podia ser subornado enquanto tomava conta de seus cem metros de praia ou fronteira.
Para fechar com chave de ouro, uma afirmação feita por mulheres do mundo todo, sempre com uma pontinha de orgulho difícil de esconder: “As mulheres são mais resistentes à dor do que os homens”. Lamento informar, meninas, que isso não é verdade. Como sou leitor contumaz de cadernos de ciência de jornal, li que, numa pesquisa feita com pardais, os cientistas descobriram que os machos suportavam níveis maiores de dor do que as fêmeas. Aparentemente a testosterona tem um efeito analgésico que faz com que os indivíduos do sexo masculino aguentem a dor com mais facilidade, o que não nos impede de gemer um bocado e prolongar o desvelo com que mães e companheiras nos enchem de mimos diante da mais banal indisposição. Não valemos nada mesmo.
Existem muitas outras afirmações que batem insistentemente no nosso ouvido desde o dia em que nascemos: Mulheres não sabem estacionar; cantoras brasileiras são homossexuais; gema de ovo faz mal; café faz mal; gordura faz mal; o esporte forja o caráter; brasileiro não sabe votar; a voz do povo é a voz de Deus; beleza não põe mesa; tamanho não é documento. Alguém se arrisca a dizer qual (quais) das alternativas acima é falsa? |