De tom para Zeus
Pela Internet, saiu a poesia de Tom Zé em homenagem a Michael Jackson (**). Um jogo de palavras tão enigmáticas e misteriosas quanto à existência idolatrada. Peculiar, irreverente, desatinado, incrível. Ele foi assim.
Devorados estamos nós pela existência da esfinge Michael, que, passeando nos limites da inocência infantil ao crime senil, exalta a curiosidade até o pós momento.
Tom Zé buscou na Mitologia a resposta para o inexplicável caminho do destino, o fio tecido paciente e silenciosamente pelas moiras fiandeiras; uma rede de provocação à ordem preestabelecida que desafia até os deuses do Olimpo.
Não há oráculo que preveja, não há Zeus que conteste, só esta analogia pode aplacar o vazio do silêncio da não dança.
A homenagem singela mantém Michael onde sempre esteve, no pódio dos mitos, e os mitos não precisam ser decifrados.
(*) é arquiteta
(**) AMADO MICHAEL
(Tom Zé)
Negro da luz que desbota branco
Tanto talento tormento tanto
Tanta afronta de pouca monta.
Eia! virtudes em farta ceia
Todo encanto que pode o canto
Toda fiança que adoça a dança.
Que deus nos furta vida tão curta?
Mundo lamenta: ele mal cinquenta!
A ninguém ilude essa bruxa rude.
Paroxismo desse Narciso
Que achou desgosto no próprio rosto
E apedrejou-se com faca e foice.
Avança a rua (uma dor que dança)
E em seus telhados mandibulados
Requebra os hinos do dançarino.
Niños, rapazes, se sentem azes
Herdeiros todos e seus parceiros
Revelam parque, porto e favela.
II
Da Grécia três te trouxeram Graças
Arcas repletas de belas artes
Arcas que deram ciúme às Parcas.
Que luz trarias tu, mitologia,
Para um tal desatino de destino
Que o espandongado toma por fado?
Porque o povo grego disse que
Se a hybris o herói consigo quis,
Se condiz ao lado dela ser feliz
Ele mesmo será pão e maldição
Enquanto gera para os olhos de Megera |