PERFUME
Era uma destas, festa-baile, hora dançante, hi-fi ou bailinho de garagem, como queira, coisa que marcava a travessia para os anos oitenta; quando a adolescência ainda começava aos quinze e o primeiro tudo acontecia depois disto.
A música era Bee Gees, os passos de Travolta, os embalos de sábado à noite. Acredite se quiser! Os embalos, atual balada, eram somente no sábado e só à noite!
Pouca bebida, nenhuma droga. Era festa de família, com a família lá. Presentes tios e avós no andar superior, enquanto no salão térreo, a equipe contratada de som comandava a trilha sonora, os efeitos e luzes na pista, enfeitada com bolas giratórias revestidas de cacos de espelhos. Lâmpadas estroboscópicas nos faziam parecer mais adultos, rapazes mais altos, meninas mais loiras.
A coreografia ensaiada era dançada por todos misturando grupos e casais na pista lotada. As músicas da moda se repetiam à exaustão.
As roupas e o visual eram copiados do filme de sucesso e da última novela das oito, tinham muito estampado, muita maquiagem. Jeans, só importado. Eu, de roupa nova, cabelo comprido cortado e penteado na moda da pantera loira, aquela do seriado original.
Lá pelas tantas, depois do reconhecimento geral dos presentes e sempre antes dos parabéns, era a vez de tocar as lentas. Os casais de namorados iam rapidamente para pista, entre todos os outros, onde eu me incluía, uma timidez geral, e a expectativa de dançar uma música com o paquera-alvo do momento.
Ele se aproximou de mim pelas costas, pegou meu cotovelo e baixinho falou: vamos dançar? Era mais velho que os colegas conhecidos desde a infância, um primo da casa, tinha barba escura, bem feita e aparada, que depois descobri seria uma das minhas preferências nos rapazes.
Na pista, a barba acariciava, o rosto colado, ele brincava enrolando na ponta do dedo o cacho mais comprido do meu cabelo que caía no meio das costas bem onde estava sua mão. Naquela noite, dançamos todas as lentas.
O perfume dele ficou na minha roupa, no meu cabelo, na minha pele, na memória. Aquele foi o primeiro perfume que levei para casa com saudade. Passei dias sentindo o aroma em todos os lugares. Fui a várias lojas sem sossegar até descobrir o nome do tal, que era caro, caríssimo, importado. Ainda hoje, basta uma rádio flashback para que o perfume seja sentido.
Outro dia, na sala de espera de um consultório médico, senta-se a minha frente um homem, o perfume no ar tira minha atenção da revista folheada, nossos olhos rapidamente se encontram. Ele tem a barba grisalha.
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