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Rio de Janeiro, 05.04.09 |TODAS AS CRÔNICAS
CRÔNICA Nº 06 - POR SIMONE ALVES*

A Mesmice (ou a pipoca) é que alimenta o amor

Uma frase me volta todas as vezes que percebo casais validando suas razões para mais uma briga: "para que simplificar se pode complicar?".

Outro dia, numa fila de cinema, escutava um casal discutindo quem pagaria as entradas e a pipoca. A fila estava grande e enquanto isso eles tentariam resolver esse “terrível” dilema. Pode ser que, no caso deles, se tratasse realmente de uma grande questão, já que a maioria dos casais hoje em dia precisa esticar o orçamento e negociar as saídas. O ponto, porém, não era somente esse, e a pipoca fora apenas o trampolim para outras pendências do jovem casal.

É claro que nestas pendências poder-se-iam incluir também a TPM da moça, tomando-se em conta seu humor crítico; as grosserias que ele havia feito no Natal; a carona que não dera para a irmã dela na semana passada por pura implicância; aquele comportamento dela, bem típico quando está em companhia das amigas, ocasião em que faz questão de falar de todos os defeitos dele etc.

Seria desejável descomplicar? Parece que o sabor está justamente na discordância, na lista do que não foi feito ou do que foi feito em excesso. Não demorou muito o casal estava se beijando e tudo parecia ter voltado a ser como antes.

Ir a um cineminha é um programa que continua na preferência dos casais, de todas as idades. Parece que quando se trata de relacionamento, os temas se repetem. Ainda que muitos continuem buscando uma fórmula diferente, está valendo a pipoca (mesmo que se dispute quem pagará), andar de mãos dadas, conversar no pé do ouvido e dormir abraçadinho. Afinal, quem é que não sente falta de um chamego? Pouco importa se ela vai ter algumas crises histéricas e ele implicará com o seu jeito. A natureza devia estar certa quando programou isso para uma vez por mês. Tempo suficiente para eles esquecerem. Ao menos nessa hora aproveita-se o lado bom de os homens serem um pouco distraídos.

A fila estava andando e o rapaz voltou com a pipoca. Após um incômodo silêncio, ele comentou: “você ficou quieta de repente, meu bem”.

Certamente a moça não deveria ser de poucas palavras. Ao menos, isso era o que a situação indicava. O filme ia começar, ela se distraía com pipoca, e não falariam mais nada um com o outro, pelo menos até o final da sessão.

No fundo, os valores essenciais permanecem os mesmos: gostar e ser gostado, querer estar junto, ter uma relação de confiança, saber que o outro está perto, ter certezas impossíveis, tais como a de que esse amor será para sempre; a fantasia de se ter alguma garantia; um certificado que diga que não vamos sofrer tanto dessa vez.

A roupagem pode ser diferente, os temas podem parecer outros, mas até as brigas podem fazer parte de um ritual que se tornou indispensável àqueles que querem continuar juntos.

Essa repetição constante alimenta e dá um sentido todo especial à vida. É só experimentar ficar sem isso. Vai ser estranho quando sentar naquele restaurante e o garçom perguntar pela dona fulana. Mais estranho ainda será abrir o cardápio e saber que ela escolheria aquele mesmo espaguete, que só ela via graça. Beber o chope sozinho pode se tornar um fardo. Melhor pedir dois de uma vez e ficar imaginando que ela está ali no banheiro e já volta.

Dá para desconfiar ser o amor incompleto? E que tudo terá que permanecer incompleto? Habitua-se à fantasia da completude, do total preenchimento. Então não é mais o amor uma qualidade infinita. Acredito que estaremos despistando feio se procurarmos a felicidade aí. Às vezes o segredo pode estar justamente no beijo que parece resolver as coisas e que, no fundo, reflete a importância dessa circularidade, já que ela constrói a capacidade do casal de ir além de apenas uma boa cama.

As luzes se apagam e lá estão eles, lá na frente, abraçadinhos. Começam os trailers dos próximos filmes. Ela aponta, como se dissesse: “é esse o próximo filme que eu quero ver, amor!”. Certamente a resposta dele seria: “tá, mas da próxima vez a pipoca vai ficar por sua conta, e sem TPM, por favor”. Ela, então, retrucaria: “você está insinuando que eu sou histérica?”.  Doce repetição...

***
SOBRE A AUTORA: *SIMONE ALVES é psicóloga.
[[ Leia também as crônicas de Marcio Paschoal aqui no Crônicas Cariocas ]]
 


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