A BANDA
Uma história de natal “roquenrou”
Arte: Francci Lunguinho
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Ele chegou do trabalho e colocou um disco do Miles Davis no Cd player – que era um tipo de equipamento para se ouvir música, usado no final do século XX e começo XXI. A sua última semana não tinha sido das melhores. Algumas conclusões não muito boas a respeito da realidade, o que incitara nele umas idéias, digamos, comunistas, revolucionárias, sei lá.
Talvez uma angústia que mais parecesse com niilismo que com revolução. Mas revoluções podem nascer de angústias. E som do jazz que invadia o quarto fazia-o gostar menos do rock’n’roll naquele momento. No ensaio da banda em que ele cantava, tivera um certo desconforto com uma frase dita pelo colega que tocava contrabaixo. Antes que eu diga qual foi a tal frase capital, eu vou contar alguma coisa sobre a banda.
A banda – Era um baterista, um baixista, um vocalista e dois guitarristas. Como era, e ainda é, praxe em bandas de rock, tem o guitarrista número um e o número dois. Há sempre um mais habilidoso, que cuida dos solos mais complicados. Ao contrário do que muitos pensam, tocar rock – com exceção do estilo punk – é bem difícil. A base harmônica, em geral, é bem simples. Entretanto a forma de se cantar não é lá muito simples, não. O compromisso em se tocar o mais próximo possível das gravações originais é quase uma obsessão para roqueiros. Quem toca igual ou bem próximo ao original é mais respeitado. É uma tolice, mas é assim que funciona. E os solos de guitarra não são animadores para principiantes. Muitos aspirantes a guitarrista desanimam quando deparam com a complexidade de determinados solos e suas escalas. O guitarrista da banda em questão – vou chamá-la apenas de “a banda” – era muito bom. Muito provavelmente um dos três ou cinco melhores de toda a região sul do Estado do Rio. Um rapaz de boa aparência, trinta anos de idade, com bom emprego, um futuro promissor. Se não promissor de riqueza, pelo menos promissor de conforto. Viciado em música e equipamentos musicais e suas tecnologias específicas. Exímio instrumentista. E sabia disso, o que lhe conferia certo status, e certo convencimento de si. A música, mais propriamente a banda, aproximou o cantor – que no momento em que chega cansado do trabalho num dia de extremo calor, está ouvindo Miles Davis – do guitarrista. Eles – o guitarrista e o nosso rapaz cantor – são as duas personalidades mais fortes dentro da banda. Como Richards e Jagger, Lennon e McCartney, e outros. E como estes, eles vão brigar. Mais cedo ou mais tarde vão brigar. Podem até fazer as pazes. Mas que vão brigar, isso vão. E tiveram, sim, certo dia, uma discussão bem calorosa, atenuada pelo fato de o ensaio onde ocorreu a discussão ter sido, como de costume, na casa do guitarrista, no pequeno estúdio – se é que se poderia assim chamar – em seu quarto. Não fora em território neutro.
O guitarrista número dois – que ele não ouça que o chamam de número dois – era um rapaz muito bacana. Vivo. Alegre. Feliz. Jovem. Com uma namorada bem bonita. Esforçado. Trabalhador. Enfim, vivo. Ele tinha na ocasião 24 anos e estava se preparando para casar. Um cara admirável. E também bom músico. Quer dizer, um músico razoável. Um admirador quase incondicional do nosso vocalista. E o nosso vocalista também o admirava bastante.
Nas baquetas, um dos melhores bateristas que eu já conheci. Com vinte anos de idade já possuía uma técnica invejável. Rapaz bem pobre. Servia o exército. Rock e exército fazem uma dupla interessante. Faz-nos lembrar Vietnã. Na guerra do Vietnã se ouviu muito rock. Então um baterista soldado, negro, talentosíssimo – na minha opinião, o músico mais talentoso daquela banda – dava ao grupo um charme emblemático, assim os vejo.
Não sei bem o motivo de eu estar falando a idade de todos os integrantes da banda. Parece uma ficha policial. Acho importante. Acho que é mesmo um caso de polícia tocar música anglo-saxônica no Brasil sem entender uma única frase do que se diz nas canções. E mesmo quando não cantava rock, o rapaz ouvia o trumpete de um negro americano nas suas caixas de som, em seu momento de angústia. Não que ele não ouvisse música brasileira. É claro que ele ouvia. Passou a infância ouvindo discos do Roberto Carlos. Quando adolescente, veio Djavan, Milton, Caetano, Chico. Já adulto, ouvira quase tudo o que foi produzido na música do Brasil até então. Mas por uma imposição do destino, tornara-se vocalista de rock. Tivera experiências várias com seu violão em bares toando MPB, mas o rock já o havia capturado aos dezesseis anos quando foi convidado para cantar em sua primeira banda. Agora, aos trinta e sete anos, às portas do trigésimo oitavo aniversário, ele já estava na sua quinta banda.
O baixista tinha trinta e nove anos – pronto, já falei a idade de todos. Era um cara legal. Puxa vida. Dizer que um cara é legal é o mesmo que dizer nada. O que posso dizer do baixista? Era, sim, um bom rapaz. Era um bom baixista. Bom para rock apenas, diga-se. Tocava em duas bandas. Com exceção do vocalista e do guitarrista número dois, todos tocavam também em outra ou outras bandas – fato que praticamente impedia a evolução e profissionalização desta. Mas esta banda era a preferida do baixista. Era a que ele considerava ter a melhor sonoridade e melhor repertório. Embora o seu melhor amigo tocasse na outra. Um fato importante sobre o baixista é que ele era um cara quase rico. Boa praça. Não era rico pedante. Mas também não era belo ou muito talentoso. Não tinha curso superior, provavelmente por preguiça – já que não lhe faltaram oportunidades, dado à família abastada. Desta forma só sobrava a ele ser simpático e educado.
No fatídico (?) dia da frase que mexeu com a cabeça do jovem cantor de rock, estavam todos na casa do guitarrista, para o ensaio. Era um domingo de sol. O cantor pegou seu carro velho, parou rapidamente num bar, comprou uma lata de cerveja, entrou novamente no carro, acendeu um cigarro lícito – de tabaco, como se usava para, elegante e sutilmente, se auto destruir –, e foi dirigindo em baixa velocidade, fumando e bebendo, deslizando até feliz, em direção ao sol.
Chegando no destino, a casa do zero um, foi recebido no portão pelo zero dois, que já estava lá. Aliás, todos já estavam lá. Saltou do carro, cumprimentou o jovem amigo com um tipo de cumprimento desses que os mais jovens gostam de fazer de forma diferente do convencional aperto de mãos. Em frente ao portão já havia dois carros. Um que pertencia ao primeiro guitarrista e um outro carro até então desconhecido, novo, provavelmente do baixista quase-rico. Naquela tarde o ensaio correu muito bem. A banda, tão heterogênea em idéias e idades, em instantes como aquele se entendia, e era homogênea, era uma, era brilhante, era o máximo. Massa sonora das boas. A música soava bem aos ouvidos de todos eles. E era de verdade boa para quase qualquer um amante de rock que ouvisse aquilo.
Fim de ensaio. E os finais dos ensaios já começavam a ficar muito chatos para o vocalista. O relacionamento com o guitarrista nunca fora dos melhores. No entanto, com a chegada do baixista, que foi o último a chegar na banda, substituindo um outro, as coisas pioraram. No princípio, eles, guitarrista e vocalista, conversavam um pouco, antes e depois de cada ensaio. Mas com a vinda do baixista da nova formação, as conversas que iniciavam, permeavam e fechavam os ensaios, eram conversas entre os dois novos amigos – o guitarrista e o baixista. E eram, predominantemente, sobre um assunto completamente desinteressante para o cantor: instrumentos e equipamentos musicais de alta performance. Nenhuma frase praticamente sobre a história da música, por exemplo. Todas as conversas eram sobre técnicas e sobre compras. É. Compras. E comprar era tudo o que o nosso carente herói menos fazia.
O querido cantor de que falo era um homem muito particularmente interessante. Um homem amoroso. Cuidadoso com as pessoas que o cercava. Bom marido. Bom pai. Um batalhador. Não um batalhador eficaz. Não um vencedor. Não isso. Mas um batalhador. E isso fazia dele alguém com chances de sobrevivência neste nosso lindo, exuberante e difícil país. Nosso estado terceiromundista de merda, com seu projeto de nação. Mas acho que, na verdade, o que o mantinha vivo não era exatamente a sua luta de homem pobre. Mas, sim, sua habilidade para o sonho. Era um sonhador – nos melhores e piores sentidos que se pode dar a essa palavra, sonhador. Prefiro notar os melhores. Até porque os seus melhores sonhos eram sua felicidade. E a chuva fina de felicidade de um pequeno e belo sonho é o que nutre a plantinha frágil que é um homem sensível como aquele. Um amante de todas as artes e um profundo admirador da alma feminina. E, entre outros atributos diversos, um bom e grande reclamador. Um eterno inconformado com o estar geral. O seu estar e o estar do mundo inteiro. Era também compositor. Entretanto, isso não fazia a menor diferença para uma banda de covers. A banda só precisava de sua voz e de sua performance típica. Suas composições eram absolutamente dispensáveis. Só poucas pessoas mais íntimas conheciam as canções de sua autoria. A maioria delas gostava das suas músicas, ainda que as considerasse muito estranhas. E havia uma peculiaridade que o diferenciava completamente das pessoas: era ateu – como John Lennon. Ele admira roqueiros cristãos – como Kurt Cobain –, mas era ateu – como Chico Buarque e Caetano Veloso. Este fato, de ser ateu, o colocava muitas vezes num desconfortável destaque. Antigamente os ateus não eram vistos com bons olhos. Eram discriminados, sofrendo preconceitos vindos de várias frentes. Não era fácil ser ateu. Da mesma forma que não era fácil ser homossexual, por exemplo: o que não era o caso dele. E ser um ateu pobre era uma agravante considerável. Assim como se fosse um homossexual pobre, ou talvez um homossexual negro. A religião – e a não-religião – era o grande tema da sua vida. Juntamente com o sexo. Mas aí é outro assunto.
Então, ao fim do ensaio, todos saíram e foram admirar o carro novo do baixista. Era um carro zero quilômetro. O guitarrista perguntou quanto tinha custado. E chutou um valor. Errou feio. O carro havia custado pelo menos um terço a mais. Uma pequena fortuna, para os pontos de vista dos outros músicos. Uma fortuna de fato, para boa parte dos brasileiros da época. O baixista falou ao guitarrista – apenas os dois conversavam, enquanto os demais apenas ouvindo a conversa, como já estava virando um costume: “Cara! Até agora eu mal posso crer que esse carro é meu. Foi minha mãe que me deu.” E aí, logo em seguida, a frase terrível. A frase que soou terrível para os ouvidos do cantor: “Cara! Eu acho que foi o seguinte, o que aconteceu. Deus, lá do céu, olhou cá pra baixo e disse: esse cara é muito legal e vou dar um presente pra ele. Aí me deu esse carro”. Pronto. Para o cantor era como se tudo tivesse passado para um outro estado. Como num filme de ficção-científica muito conhecido na época, com umas cenas em que tudo ao redor do personagem principal fica em câmera lenta, enquanto ele se move naturalmente. Ah! Lembrei o nome do filme. É “Matrix”. Ou “The Matrix”, como preferir. Na época consideraram o filme revolucionário, não sei bem o motivo. Eu mesmo gostava muito. Mas tenho certeza que “Blade Runner” foi melhor e mais importante. Isso faz muitos, muitos anos. Isso foi na época em que as pessoas iam a teatros para assistir a filmes. Tais teatros, como sabemos, eram chamados de “cinemas”. Mas, me permitam repetir a frase do músico: “Deus disse: esse cara é muito legal e eu vou dar um presente pra ele”. O cantor teve vontade de dizer o seguinte: “Meu amigo. Deus te escolheu para te dar um presente caríssimo porque você é um cara legal. E quanto a mim? Não sou um cara legal, digno de um presente como este? E o pobre baterista? E os trabalhadores rurais? Os sem teto. Os moradores das favelas. Não há caras legais por lá? Você se considera um escolhido? Caia na real, meu irmão! Tua mãe é rica e deu um presentinho para o filho que nunca fez nada pra ser um homem plenamente independente, apesar de ter tido todas as melhores condições possíveis para tal”. Apenas pensou em dizer tais palavras. Porém não disse. Naquele tempo as pessoas não eram muito sinceras, finas, nem elegantes. Ser fino e elegante significava ser contido, omisso, dissimulado. Era o protocolo.
Voltou para sua casa. A vida continuava. O tempo passou. O cantor abandonou mesmo o rock – não completamente, mas, pelo menos, o mundo das bandinhas. Pegou o seu velho violão e foi cantar em uns bares e hotéis, como já houvera feito antes. Já por volta dos setenta anos de idade, assistiu com alegria o declínio definitivo do império que fora os Estados Unidos da América. União Européia, Rússia e China davam as cartas, finalmente. As notícias da dívida externa norte-americana o deixavam um pouco feliz. E ele optou mesmo por não aprender inglês. Todavia, como que num estalo iluminado, ele pensou estar faltando algo. Sempre se pensa que está mesmo faltando algo. Isso é a coisa mais natural do mundo. Mas ele precisava sentir que sua existência tivesse sentido. E não sentia muito bem isso. Pensou em todos os seus ídolos da música que foram embora muito cedo. Pensou em Raul Seixas, em Cazuza, em Renato Russo. E ele, um cantor e compositor, vivo. Vivo e velho. Vivo como um traidor. Vivo como um desertor. Pensou em Lennon que fora assassinado. Em Elvis, que morrera tão jovem também. Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morisson. E, por fim, no suicídio de Kurt Cobain. Pensou. Pensou. Sentiu vergonha de ter tido uma vida tão comum. Uma vergonha avassaladora de si próprio. Os seus, ao seu redor o amavam, o respeitavam, e até o viam como um homem perfeitamente feliz, e isso até irradiava dele, sem mentira, na maioria dos momentos em que estava com as pessoas. Empatia era o que emanava em todas as suas interpessoalidades. O problema é que há momentos muito íntimos em que as coisas não parecem nada boas para os que sofrem do mal chamado “senso de não-realização’. Foi num desses momentos nada bons que ele pensou em Cobain. Pensou na vida de Cobain. Pensou no belo filme que um dia assistira sobre seus últimos dias. Pensou nas desigualdades do mundo. Pensou em como o mundo, com essas torturantes desigualdades sociais, engole sonhos. Pensou em como os cristãos e seus impérios – o romano, que se perpetuou tendo a igreja como base, gerando o império estadunidense – feriram as pessoas puras e de bom e livre pensamento, atrapalhando o progresso da humanidade. Pensou nas “dádivas” do “bom Deus” a abençoar cada vez mais os afortunados e enviar ondas gigantes para devorar os miseráveis. É claro que ele ainda era ateu – muito embora não estivesse mais tão sozinho nisso, já que muitos ateus já tivessem “saído do armário”. Ainda assim, o ateísmo ainda era bastante mal visto – levaria ainda mais ou menos meio século para que a maioria das pessoas se tornassem atéias, como hoje. Mas naquele momento crucial de sua vida, pensou, sobretudo, no peso da não-realização. Isso lhe doía, provavelmente, mais do que tudo. Comprou, sabe-se lá como, um vidro de “fenol”, uma seringa. Nunca houvera injetado nada nas veias antes. Fez uns testes injetando soro, para se certificar que daria certo quando fosse pra valer. Então, no dia marcado em seu calendário – no mês de dezembro, na data em que Lennon morreu assassinado. No mês do natal. No mês da grande tristeza dos excluídos da terra – ele pegou o veneno e injetou na veia. Antes que morresse ouviu o motor de um caminhão ou ônibus sendo ligado. Então acordou, encharcado de suor. Acordou. Quando penso nele acordando do pesadelo, eu penso também em colocar uma frase de efeito, quase cômica, em sua boca, como a de John, anunciando o fim dos Beatles: “The dream is over!” Só que no caso do meu cantor, o que acabou foi apenas “um sonho”, e não “o sonho”. Haveria ainda muitos sonhos por vir em sua vida, que ainda duraria bastante. Ele ficou feliz por ainda estar vivo. Por ainda ter outra chance. Permaneceu um pouco ainda na cama. Olhou para o teto. Pensou na beleza da vida. Levantou. Lavou o rosto. Tomou café. Foi pra rua apreciar o sol de dezembro. À noite, sua filha tinha uma apresentação musical a fazer, e ele não gostava de perder os shows dela – ficava aborrecido quando isso acontecia. Ela era guitarrista, vejam só, de uma banda de rock. Era já uma veterana. E bastante talentosa. Ele era do tempo em que não havia muitas mulheres guitarristas. Mas agora as coisas haviam mudado. E ele então pensou: “Vou ao show. Até que este natal não vai ser dos piores”.
Pensando nele e na sua história, eu vejo que amanheceu aqui também, e o meu natal este ano não deverá ser o pior que já tive. Impressionante como a comemoração da data natalina persiste, mesmo que não tenha mais muitos cristãos hoje, nem aquela coisa horrível, aquela aberração da cultura nórdica européia – depois disseminada pelo mundo inteiro pelos Estados Unidos – jocosamente chamada de “Papai-Noel”. Algumas coisas não mudam nunca. Outras sim. Talvez a Terra mude mais que o homem. Hoje deve fazer uns quarenta e sete graus. Isso sim é preocupante.
Sobre “a banda”? Nunca mais se ouviu falar. E tenho certeza de que todos aqueles bons e inocentes rapazes descansam em paz.
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Luciano Fortunato é cantor, compositor e escriba.
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