Um Navio Chamado Djavan
Quanto querer cabe em nossos corações?
É uma coisa muito brega – o clichê dos clichês – colocar nomes de artistas em filhos. Sempre achei. E acabei colocando em minha filha o nome Juliette, por causa da atriz Juliette Binoche, a quem adorei desde que a vi pela primeira vez. Cafona por opção calculada. O cantor Lenine, se chama Lenine por conta do pai comunista, em homenagem ao grande líder da revolução russa. Melhor ter o nome lembrado por referência a Lênin do que por Stalin. O caso de Djavan é bem especial. Eu acho. Sua mãe sonhara com um navio chamado Djavan. E ponto. Ficou.
Eu tinha doze ou treze anos e cantava no banheiro a música “Meu bem querer”. E chorava, sem saber muito bem por que motivo. Deve ser porque sou um tremendo chorão. Mas posso dizer que aquilo era algo completamente novo pra mim. E parece que o novo me emociona. Sempre foi assim. Esta canção foi gravada no LP Luz. O vinil está agora, exatamente agora, nas minhas mãos. É um dos discos preferidos da minha, não muito pequena, coleção de vinis. É o primeiro disco de Djavan a receber uma superprodução. A gravadora CBS o levou para Los Angeles, onde o disco foi gravado e mixado. Há aqui, pra quem não sabe, a “divina” participação do “deus” Stevie Wonder, que dá uma “canja” na faixa “Samurai” (“ah, quanto querer cabe em meu coração...”), fazendo um solo de gaita – talvez o mais lindo de sua carreira. Estou vendo a foto dele com Stevie e as várias fotos do encarte. É muito engraçado: Djavan não envelheceu. O disco é de 1982.
Lobão (meu amigo) disse outro dia que Lulu Santos é o “penúltimo romântico”. Cada um é romântico à sua maneira. É claro que estou tratando de romantismo de fato. Romantismo sem-vergonha, de mercado, que nem o desses caipiras que tem por aí, isso não conta. Eu não conto. Me perdoem. Não é preconceito. É, sim, um respeito ao verdadeiro “conceito” de romantismo. Eu não gosto. Acho fake demais. Talvez algo pessoal. Romantismo pra mim nunca foi isso. Em nossa música, posso dizer que Renato Russo foi um exemplo de grande romântico. Um romântico de verdade. Mas, dentre os cantores-poetas vivos, o destaque é mesmo o Djavan. Sua música, sua obra inteira transpira romantismo. O cara é romântico até a medula.
Fuçando nas coisas que ele cantou é possível descobrir pérolas. Outro dia conversando com um amigo flamenguista, o Elano Ribeiro, lembrei da música “Boa noite” – originalmente gravada no excelente álbum Coisa de acender, que traz ainda “Se” e “Linha do Equador”. Mas foi em seu álbum duplo Ao vivo que tive maior contato auditivo com a canção. E o verso “ainda bem que eu sou flamengo” foi o que mais chamou minha atenção quando a ouvi pela primeira vez. O tratamento funk dado a ela, disfarça seu poderoso lirismo. Até o flamengo está ali de forma romântica. Afinal, ainda mais hoje, ser flamengo é de um romantismo considerável. Como é uma canção menos conhecida, eu recomendo aos que não possuem a gravação ou não deram a devida atenção, ou não a conhecem. Não gaste dinheiro se não tiver: vá lá na rede e baixe. Djavan, “Boa noite”.
Versos fortes – a canção em questão é pontuada de versos poderosos como “nada que brilha cega mais que o seu nome”, ou “por toda a selva do meu ser, nada ficou intacto”, “não existe amor sem medo”, “vida foi feita pra estar em dia com a fome”, e o derradeiro “minha vida por inteiro lhe dou”. É um mosaico de palavras belas. Quem estiver a fim de alguma garota, pode usar a letra como cantada. Se a moça for romântica, a chance de colar é grande. Mas tem que estar a fim de verdade – não vá usar esses poderes para o mal.
Djavan é poderoso. E oferece uma viagem como poucos na nossa grande música podem oferecer. Isso por que ele é muito grande. É isso. Amar e viajar no navio Djavan.
Engraçado. Eu não conheço ninguém chamado Djavan. Isso é surpreendente. Como os pais não pensaram nisso... Alguém tem que tomar a iniciativa. Porra, conheci dois caras chamados Elton John...
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Luciano Fortunato é cantor, compositor e escriba.
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