Campos de Carvalho em Versão Oficial
Fotos: Internet
 |
|
Acabo de ver na tevê que a Xuxa vai receber o Papai Noel no Maracanã. Precedendo a chegada de helicóptero do velhinho, um show com Leonardo (ex de seu irmão), Daniel (ex de seu melhor amigo), Kelly Key (ex de seu pseudo latino-amante) e outros. Está certo, há gostos estranhos na época do Natal. Um tempo diferenciado, no qual vende-se de tudo, inclusive algumas almas, e os corações e mentes ficam mais sensibilizados.
Mas nada disso importa muito. O fato a se destacar aqui é o anúncio da chegada do Papai Noel “Oficial”. Como assim, oficial? Por acaso, os demais não o seriam? Os dos shoppings que passam horas batendo fotos com as crianças no colo, ou os que chegam nas escolas, nos clubes e nas festas domiciliares seriam cópias sem garantia? Noéis piratas? Bem-feito para o tal que, supõe-se, venha da Lapônia no trenó e com renas. Virou um extra-oficial.
Isso tudo me fez lembrar de Walter Campos de Carvalho, uberabense genial e autor de obras carregadas pelo non sense.
|
 |
|
|
Por exemplo, a chegada “oficial” do Papai Noel dava, perfeitamente, para entrar direto no romance “A lua vem da Ásia”, escrito na década de 50, uma história sem pé mas muita cabeça, espécie de elogio irônico à ruptura de qualquer possível lógica que não a absoluta falta dela. O Papai Noel “Oficial” da Xuxa, certamente, vem da Ásia lunar.
Campos de Carvalho, morto em 1998 aos 82 anos, hoje veria sua obra literalmente compreendida, ele, que foi um visionário dos atuais e irracionais tempos de bispos Macedo, César Maias, Fausto Silvas e dengues hemorrágicas. Afinal, o sem juízo em suas obras (cinco romances, alguns ensaios, crônicas e contos) é justamente aquele que consegue entender o recôndito humano. O sadio é apenas oblíquo e o grande responsável pelo pinel real e o caos entre nós.
Como na doideira da balada do Pink Floyd, quando brilha o diamante maluco; ou na dos Mutantes, assumindo um Alain Delon perante os bonitos; ou na mente de Raul, na hora de se metamorfosear em detrimento da velha opinião, ou ainda ficar maluco beleza em vez de fazer tudo igual como um sujeito normal, Campos elege os furiosos e a beleza esquizofrênica do bom senso no insensatez.
 |
|
Em outro romance, “A vaca de nariz sutil”, seu personagem principal é um ex-combatente que volta à pátria e se envolve com uma menor, filha do zelador de um cemitério. A questão colocada é a incoerência de se aceitar como herói quem mata na guerra, e se transformar em criminoso social aquele que se apaixona por uma adolescente.
Hoje, com a Internet, alguns padres pedófilos insuspeitos e até certos roqueiros camelos que se enamoram de menores, fica mais fácil compreender o romancista. É mesmo muita sutileza para uma vaca só.
Meu livro preferido de Campos é “A chuva imóvel”, certamente o mais filosófico. André, seu protagonista, acaba em crise existencial profunda e só vê a saída no suicídio, ou na imobilidade da chuva em salivas metafóricas sendo cuspidas em sinal de protesto. A chuva, que quer cuspir e não pode, remete ao porquê da “oficialidade” do Papai Noel da Xuxa.
Voltemos ao autor. Sua obra mais famosa é “O Púcaro Búlgaro”, escrita em 1964 no tempo recorde de vinte e dois dias, e que teve recente montagem teatral elogiada. A ação tem início num museu norte-americano, onde Hilário, o personagem central, encontra o tal púcaro, e retorna imediatamente ao Brasil a fim de organizar uma expedição para a descoberta da Bulgária.
O cerne do livro é a não-epopéia, ou seja, a viagem que nunca sai do papel, não deslancha e resulta invariavelmente na inércia. Isto é, não se vai nunca a lugar nenhum, quanto mais à Bulgária. O contraponto de Hilário é o professor Radamés, um bulgarologista tão doido quanto.
A primeira vez que associei as intenções e o incrível efeito do púcaro em minha vida foi nos primórdios do bloco carnavalesco do Bip Bip em Copacabana, que vivia se concentrando e enchendo a cara dos foliões, e ninguém acabava sabendo quando sairia, e, se por acaso saísse, em qual direção. Ali, no bar do Alfredinho, vivi meu púcaro inicial. Outros mais viriam, como um incessante repetir da filosofia camposcarvalhiana. Carpe diem que não se chega a rien,
Em face disso, pode-se tentar decifrar o caráter “oficial” da chegada do Noel da Xuxa: o mesmo helicóptero que trará o bom velhinho o levará de volta, até o ano que vem, quando, quem sabe, alguma vaca sutilmente nariguda, talvez uma lua delirante, uma chuva que cospe, ou um certo púcaro búlgaro, farão todo o sentido e levarão avós, pais e filhos no Maracanã ao transe e delírio. Se todos, de perto, são loucos de pedra, calcule num estádio de futebol lotado.
A lógica da pura insanidade foi a marca da literatura de Campos de Carvalho e, nestes nossos dias, se vê bem que a sua loucura racional não era só um vaticínio, mas uma mera constatação. Oficialmente falando, é claro.
- ..............................................................................................................................................................................................
Sobre o autor: *MARCIO PASCHOAL é escritor.
|
|