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Marcio Paschoal
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A felicidade mora no terceiro andar

Imagem: Tela de Edward Hopper "Hotel Room"
HotelRoom-EdwardHopper

Outro dia, ouvi a máxima de que a vida interior é a verdadeira responsável pela felicidade a que estamos acostumados a entender. Clichês e lugares comuns ressaltam o lado fútil das coisas. Os budistas separam a felicidade da paixão, posto terem-na com um excesso de sentidos. Os árabes vêem-na mais na transição com a outra vida, cheia de mulheres bonitas e prosperidade, num xangri-lá pós-mortem. O cristianismo prega (Cristo e pregações - inclusive às da cruz – sempre soam a pleonasmo) que aqueles que adentrarem ao reino dos Céus serão felizes, mesmo ignotos. Verdade é que quando não se consegue ser feliz consigo, fica bem difícil sê-lo com toda gente ao redor. O lado interior, mesmo levando-se em conta o raio-X, sempre será mais importante que o externo. Às vezes, no caso, até a beleza comprova.

Em Fortaleza, convidado para o ótimo Programa “Literato” do BNB - Banco do Nordeste, falei para pessoas interessadas na vida do cantor e compositor maranhense João do Vale, de quem sou orgulhoso biógrafo.

Levado pela produção a um belo hotel, na beira da praia de Iracema, curtindo o barulho das ondas e serviço caprichado, só acabei por ter meus melhores momentos quando me transferi para a casa da simpática família Candido.  Foram dois dias, com muita alegria, papo animado, camarão, ostras com limão, caipirinha idem e chá de casca de laranja para acalmar o estômago. Muita música, noites fabulosas e vontade de ficar mais. Muito diferente da frieza do hotel estelar. Até aí, tudo bem, é sabido o lado gélido e impessoal dessas acomodações, principalmente quando se está sozinho (consigo mesmo?).

Semana seguinte, já estava a caminho de São Luís, para a II Feira do Livro, convidado para falar sobre o mesmo João, agora para uma platéia mais calorosa. A eficiente organização me instalou no tradicional hotel no centro histórico, com todas as mordomias e agregados, e qual não foi a minha surpresa ao concluir que meu melhor momento acabara sendo o convite para uma sopa de legumes na casa de minha amiga, tendo o famoso abacaxi de Turiaçu como sobremesa. Só isso: sopa, abacaxi doce e uma velha amiga maranhense que detesta pizzas.  

Seria esse o lado simples o mais importante e interior das coisas? Aquele que não precisa de senões, luxo ou circunstâncias?

Quarto de hotel

Duas semanas depois, já estava de malas prontas para a 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. Sabemos que depois de certa idade, não nos habituamos mais a acampamentos, aventuras romanescas ou falta de mínima urbanidade, traduzida por boa cama, chuveiro com água quente, serviços de lavanderia e silêncio. Confesso que fiquei ressabiado, pois não ficaria num hotel tradicional, e sim na casa de uma simpática amiga que fez questão de me receber.

O que seria supérfluo ou necessidade real?

Vamos, então, aos fatos. Tirante a Feira que todo mundo sabe que é concorrida, vou me ater à minha chegada na cidade e posterior instalação.

Vamos lá. Direto do aeroporto para a casa da minha amiga, na avenida Protásio Alves, por onde circulam ônibus, carros, lotações e, não tão raramente, algumas carroças com pangarés. Enfim, uma babilônia de trânsito intenso e barulho idem. A entrada do prédio era através de uma porta de ferro. Ao lado, uma loja de conserto de máquinas de lavar roupa. Três andares, sem elevador. Porteiro não havia, como também não havia nenhuma empolgação de minha parte, em contraste com a animação da minha anfitriã.

O que fazer?  Carregar a mala, escada acima, rumo ao cadafalso iminente.

Entro no lugar e observo a decoração. Minha amiga, viajante de outras estadas, tinha estatuetas hindus espalhadas, bonecos do sertão baiano, carrancas do São Francisco, máscaras venezianas, papiros egípcios, bordunas do Xingu, fetiches polinésios, enfim, um epcot center de ambiente.

Levado a meu quarto (que era o dela, gentilmente cedido), atravessei um corredor, repleto de instrumentos musicais pelas paredes, algo parecido com banjos, e também algumas reproduções de artistas surrealistas. O quarto era o mais afastado do barulho da rua e, portanto, presumivelmente mais silencioso. Agradável impressão logo desfeita pela constatação de que dava para os fundos de uma escola. Além do que, informado que as cortinas haviam sido retiradas para lavar, imaginei a alvorada em minha cama. Ou seja, poderia enfim conhecer o tão famoso sol do Guaíba, às seis da manhã, direto na cara.

Antevi meu padecimento, e me preparei para o pior.

Mas o que eu não sabia era que aquele apê na Protásio Alves estava abençoado e vigiado por bruxas e deuses. Um astral dividido entre o divino e o pagão. Como se a doideira da geração dos anos 70 revivesse, e uma alegria reinasse sob a forma de sonho, celebrando livre alguma coisa indecifrável. De repente, via no sofá uma loura, sósia da Cicarelli do bem, contando as novidades com a boca cheia de sorrisos; ou então, dava de frente com um simpático músico vindo de Alegrete, portando uma cachacinha artesanal com uva para todos experimentarem; em outro momento recebíamos a visita de uma cantora de rock, meio punk, que adorava tango depois de duas taças de vinho; ou ainda aparecia uma balzaquiana, praticante de boxe e ioga e que se confessava psicóloga gestaltiana. Sem que se percebesse, a sala estava completa e as pessoas pareciam mais felizes dentro daquela casa. Uma espécie de magia minuana. O coração da dona da casa tinha o tamanho do mundo e tudo ficava mais encantador naquele pedaço. Mais ainda quando, ao fundo, numa vitrola, ouvíamos o vinil do Piazzola na balada del loco.

Enfim, há quem garanta que a busca de ser feliz está nessas coisas que comumente parecem não valer muito. A felicidade, comparada a um estado transitório da nossa alma, naquela semana resolvera se instalar na casa da minha amiga, num certo apartamento no terceiro andar da Protásio Alves, no baixo Porto Alegre.

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Sobre o autor: *MARCIO PASCHOAL é escritor.
// Bolgue ou site pessoal: www.marciopaschoal.com
// Contato: paschoal3@gmail.com

 

 
 
 
     
       
         
 
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