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» RIO DE JANEIRO, 31 de agosto DE 2008

AS ABELHAS E A COMPOSTURA OBRIGATÓRIA

Há uma discussão acirrada acerca do real objeto de estudo da política, como ciência. Para alguns cientistas, é o Estado e, para outros, o poder. Embora esteja bem claro atualmente que o que virou o centro das atenções e do jogo é o poder. Este já não emana do povo, mas faz deste a sua vítima preferida. É o tempo de cada um cuidar de si e dane-se o resto. E o resto está reagindo. Cinicamente, mas está.
   
Cada vez mais aumenta o número de eleitores que gostaria de se enquadrar na categoria de não-eleitores. Ninguém acredita mais em políticos, Mas, vai uma enorme diferença entre políticas e políticos, mormente os maus. Deve-se sempre acreditar na ciência, mesmo a política.

Para Platão, o primeiro e fundamental problema da política reside no equívoco de que todos os homens acreditam-se capacitados para exercê-la. Para melhor ilustrar o seu ponto de vista, o filósofo recorria à comparação da atividade do político com a tecelagem. Por isso, o político devia desenvolver habilidades tais como conseguir misturar o tecido maior e melhor com o menor e o pior (isto é, encontrar o equilíbrio entre os fortes e poderosos e os mais fracos e indefesos).

Parece-nos que, de uns tempos para cá, os tecelões andam costurando somente em próprio proveito. O grave, agora, é a mudança que constatamos na base, ou seja, na camada dos que votam e elegem picaretas. Enquanto no Rio de Janeiro, a Câmara (que tem 50 vereadores, mais de mil funcionários e orçamento anual de quase 270 milhões) encontra-se freqüentemente vazia, as salas de espera os escritórios dos vereadores vivem apinhadas de eleitores, cada qual com seu pedido no bolso e um problema particular para resolver. Então, conclui-se que a população trocou as grandes causas pelas pequenas questões. Todos querendo o seu na peleja da farinha pouca e do pirão primeiro. Transferiu-se o foco, e a política virou politicagem, passando a ser uma moeda de obtenção de vantagens.

Outro sério entrave a uma possível modificação comportamental é que não há renovação a vista. Ou seja, como no recado do baião, quem está fora quer entrar e quem está dentro não quer sair. Deve mesmo estar bom demais.

E para entrar está valendo tudo, até pedir voto na televisão enquanto se está preso por crime eleitoral. É o caso da criminalmente hereditária candidata a vereadora Carminha Jerominho (PT do B), filha do vereador Jerominho (PMDB) e sobrinha do deputado estadual Natalino Guimarães (sem partido) ambos presos por envolvimento com milícias.

Acresça-se a tudo isso o ridículo e a cara de pau de alguns, e vê-se o crítico e caótico da situação. O PSC, por exemplo (mau, por sinal), tem como candidatos a vereador tipos do nível de um Amigo Mago,  Baixa Renda e o Daniel De Plá. Este último garantindo que fica bem na foto.

Bizarrices que não são exclusividade do Rio, pois em São Paulo, berço de malufes e clodovis, há um candidato chamado Lingüiça, que ameaça em sua sutil campanha:”Linguiça neles!”.  Já em Minas, o candidato a vereador Pinico anuncia que é chegada a hora de parar de votar em m... e passar para o recipiente. Ainda beirando o quase inimaginável, em Goiás há o candidato conhecido como Pé, com o slogan: “Não vote sentado, vote em Pé”.  No Nordeste, a recalcitrante Dinha pede o seu voto: ”Tudo pela DInha”.   Assim não há tecelão platônico que possa dar jeito.

Atenção, TRE: igualmente como o voto, a mínima compostura de quem se candidata também deveria ser obrigatória.

Sei não, mas estou achando que ainda vou passar bem mais que quatro anos com muita abelha zoando dentro do meu ouvido.

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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