O MANTRA POSTO EM SOSSEGO
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Diz o Evangelho de São João que "no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.
Ninguém está aqui para discordar de tanto princípio e verbo. A partir daí, pode-se concluir que os mundos e os seres foram constituídos pelo som, pela palavra, que emanou como o primeiro hálito divino.
A importância do som - por mais que cantores e compositores populares insistam no contrário - vem de remotas convicções. O som é místico. Todos os rituais religiosos são cantados; não há seita, por menos espiritualizada que seja, que não possua seus hinos ou cânticos.
Os sons que elevam o espírito são os mantras ou os sons místicos e sagrados. A origem dos mantras está num dos textos sagrados da Índia (os Vedas), um livro de cantos métricos divididos em dez discursos denominados mandalas. Por essa razão, muitos traduzem do sânscrito a palavra mantra como hino ou discurso cantado.
A igreja católica possui os seus mantras, e um dos mais famosos é o missal hoc est corpus meum ("este é o meu corpo"). Quem já ouviu tantum ergo, no canto gregoriano (sacramentum veneremur cernui et antiquum documentum novo cedat ritui praestet fides suplementum) não sabe, mas devia crer piamente que o sacramento é tão grande que a fé suprirá a fraqueza dos sentidos. São palavras que tomam força e sabem do poder de sua repetição.
A música erudita também produziu seus mantras, como podemos observar no Bolero de Ravel (Maurice), uma obra musical de um único movimento, escrita para orquestra e originalmente composta para balé. A obra segue (ou persegue?) um ritmo uniforme e invariável. São quatorze minutos e dez segundos, onde a única sensação de mudança é dada pelos efeitos de orquestração, com um crescendo progressivo digno de nota (aliás são notas em dó maior, só passando a mi maior perto do final, repetidas cento e sessenta e nove vezes, em dois compassos em ostinato). Não à toa o Bolero é tocado na Praia do Jacaré, em Cabedelo, na Paraíba, todo pôr-do-sol. Não me pergunte por quê.
A força dessas melodias, propositadamente repetitivas, aliada às palavras certas, explicam sua posteridade. As palavras seguem seu ritual e podem ser bem avaliadas nos hinos dos países ou em certas invocações revolucionárias, como no allons enfants de la patrie, da Marseillaise, ou no Star-splanged banner. Este, mais por imposição de sua popularidade, já que era uma canção de taverna com uma letra de um poeta amador. Coisas da América, talvez o american way of sing.
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Nosso maior mantrista popular foi, sem dúvida, Lamartine Babo, que compôs a maioria dos hinos dos clubes cariocas de futebol, entre eles, o mais belo, o do América (time do coração), o do São Cristóvão (o menos famoso) e o do Flamengo (o mais cantado). O “uma vez Flamengo, sempre Flamengo...” é poderosíssimo mantra. Só quem torce pelo Botafogo, Vasco ou Fluminense é que não percebe.
Outro bom exemplo de crescendos e mantras é o final de Hey Jude, no piano de Paul McCartney; ou ainda, para se ficar no universo beatle, o yeah-yeah, bordão das iniciais canções capitaneadas por Lennon. Aqui, a tradução nacional cometeu a bárbara (no seu sentido mais visigódico) versão, ainda apondo o epíteto real: os reis do iê-iê-iê. Valha-me Deus.
Sem intenções de radicalizar, admite-se também como mantra os torturantes hinos do funk, que, entre passos de eguinhas e agachando a bundinha, irmanam, na pobreza vocabular e na aridez da marginalidade, os infelizes da periferia, os idiotas junkies da classe média, os sem-som. E no meio das cachorras ou periguetes, tigrões ou afins, só restará uma saída: o tiro no ouvido. Dos outros, é claro. Embora o que cause estranheza seja o fato de esse tipo de manifestação tribal ganhar cada vez mais adeptos voluntários, apesar de a Física procurar explicar que as ondas sonoras não se propagam no vácuo. Um contra-senso, sem dúvida.
O silêncio é um mantra. Os monges derviches tapam os ouvidos para meditar e girar; uma tribo da Papua-Nova Guiné mutila as orelhas para comunicação divina, e entre algumas tribos nômades da Palestina descobriu-se o ritual do silêncio, enchendo-se os ouvidos com lama.
Por muitos anos pensou-se que a orelha não tinha muita importância (além de servir para ser puxada). Em 1967 Wayne Batteau descobriu que sem a orelha não se tem como localizar a fonte sonora. Logo, vão-se os brincos, ficam as orelhas e o silêncio é uma mantra que vale ouro. A fase surda de Beethoven pode dar luz ao mistério da genialidade. Pensa-se melhor no silêncio.
Fica a pergunta de quando ocorrerá essa ausência total da sonoridade, a morte do som. O escritor Markus Zusak no romance da menina que roubava livros toma a morte como narradora. Ela (a morte) garante: “depois da minha chegada, o único som que se ouvirá será o da minha respiração, além do som do cheiro dos meus passos”. Dito de outro modo, mesmo no vazio do som, no extremo silêncio, escutar-se-ão os passos e o seu cheiro.
E como distinguir a onomatopéia do silêncio, uma vez que da morte nada saberemos? Aquele “shhh” que todos fazem, qual a sua origem? Aparentemente, o som seria universal, pois em todas as culturas se você sibilar, as pessoas farão silêncio. Estranho, não?
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*Marcio Paschoal é escritor.
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