DA SÉRIE: ISSO NÃO VAI DAR EM NADA
Deu no jornal: “Veneno de aracnídeo causa ereção”. Sim, a reportagem aparentemente non sense, é séria e possui cunho científico. Uma pequena aranha de 12 cm (pequena para eles, é claro, para nós, gigantesca), muito comum no Brasil e que leva muita gente ao hospital ou até à morte, tem uma toxina em seu veneno, responsável por uma ereção em suas vítimas. Quer dizer, o sujeito é picado (sem trocadilho, por favor) e antes de bater as botas fica de membro rijo, o popular pau duro. Como num deboche mórbido e sádico: “Tá vendo? Vai morrer e tanta coisa boa ainda pra comer!”.
As tais aranhas são conhecidas como armadeiras, mas seu nome de batismo é “Phoneutria nigriventer”. Os pesquisadores que extraíram seu veneno conseguiram isolar a toxina Tx2-6, causadora da ereção (aproximadamente uma hora nos seres humanos). A estimulação acontece no gânglio próximo à próstata, por onde passa a informação da medula espinhal e do sistema nervoso central, antes de chegar nos corpos cavernosos e nos vasos do pênis. O problema é que a toxina causa dor, e toda as atenções dos cientistas agora estão voltadas para a dissociação dessa dor com o efeito da ereção. Trocando em miúdos, o viagra aracnídeo é tremendamente eficaz e potente, com o singelo agravante de causar uma dor danada. Fica a questão: “ou o indivíduo toma a toxina para foder e fica fodido, ou não toma e foda-se”. Ou melhor, “o cara não toma a toxina nem fodendo...”. Dito de outro modo menos chulo, é bom mas não vai dar em nada.
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Das aranhas armadeiras direto para as teias de Brasília, onde o deputado Clodovil Hernandes (PR-SP) protocolou, no início de julho, uma proposta de emenda constitucional propondo o corte de 263 vagas na Câmara, reduzindo o número dos atuais deputados de 513 para 250. As principais alegações são a grande economia de gastos e a redução do nível de corrupção. Louvável iniciativa que conseguiu a surpreendente adesão de 279 parlamentares. O número mínimo à aceitação da emenda era de 171 (sem outras analogias óbvias). O próprio Clodovil, quando entrevistado, afirmou que não era burro e sabia que a maioria que assinou a proposta não o fazia para valer, pois há a prerrogativa de posteriormente se retirar o voto em plenário. Na proposta, os representantes do povo seriam eleitos pelo sistema proporcional ao número de habitantes de cada Estado. Um bom exemplo, o Acre, com 600 mil habitantes, conta atualmente com oito deputados, três senadores, assembléias, câmaras, órgãos federais e do governo estadual, em suma, uma vaca mamando em não tão divinas tetas. Porém, ninguém aposta no sucesso da emenda. Fica evidente tratar-se de mais uma da série que não vai dar em nada.
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Bem mais preocupante é a efetivação da chamada Lei Seca. Teme-se, e não sem motivos, que ela também se encaminhe para a lista.
Notícias vêm de Teresópolis - onde os bafômetros ainda não chegaram - que há um grupo solícito de guardas de trânsito locais propondo uma vaquinha para a sua aquisição, numa espécie de investimento visando o fim de ano claramente pródigo que se avizinha.
Sem contar com o exército de insatisfeitos, como os vendedores de muletas, que alardeiam sensível queda nas vendas; ou os grupos de apoio aos portadores de hepatite lamentando a redução de oferta de órgãos para os transplantes; ou ainda a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes que luta na Justiça contra a proibição da nova Lei, mesmo sob o impacto das informações de resultados otimistas e de forte apelo, como a redução dos acidentes fatais de trânsito, notadamente envolvendo jovens que costumam (ou costumavam) encher a cara e os cemitérios.
O mais sinistro nesse caso, literalmente, é a sigla da própria Associação Brasileira de Bares e Restaurantes: A.B.B.R. Para bom bêbado, meia sigla basta.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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