AMY-AS OU DEIXE-AS
Uma é a conjunção de qualidades e detalhes. Quem já a ouviu, garante que se trata de uma cantora extra-série. Já esteve por aqui em miniturnê no Viva Rio e tem voz que lembra aquelas cantoras negras do jazz. Seu estilo, o mais puro soul, não deixa dúvidas: Aretha Franklin deixou herdeira. Aos 21 anos, linda de doer e com pose blasé, essa inglesinha de Kent é dona de uma voz rara e um talento certeiro para repertórios. Nascida Jocelyn Stocker e mais conhecida como Joss Stone é a nova diva precoce da música da alma.
Tudo bem. Fica mesmo difícil resistir a tanta virtude. Tão nova e já milionária, tipo gostosa, sexy, descolada, transitando à vontade pelo binômio inteligência-simpatia, só faltava ser, como reza a piada, dona de bar. O resto ela já tem.
A outra, também britânica, nascida num subúrbio pobre de Enfield, é baixinha, tem o aspecto frágil, as pernas bambas e finas, nariz adunco e um olhar de amedrontar espelhos. Freqüentadora das páginas policiais, à la Richards (o Keith, não a loja de roupas) de saias, essa judia branquela com cara de mártir do rock, viciada e assumida, é a junkie mais famosa da Inglaterra e responsável pelos momentos atuais mais belos da soul music, como intérprete e compositora.
Revivendo uma Billie Holiday pós-moderna, Amy Winehouse além de espetacular cantora é letrista implacável. Alguns de seus hits que alardeiam “o amor é um jogo que se perde”, “tudo menos clínica de reabilitação” e “eu avisei que não prestava” dizem logo que ela veio para atirar pedras. E haja vidraça. Não dá para ficar insensível ou imune a tamanho furacão bêbado, drogado, caído e, sobretudo, genial.
Joss Stone todo mundo quer levar para casa (com as piores intenções) e Amy todos querem adotar, ajudar, aconselhar, enfim, consertar. O que não deixa de ser intenção pior. Consertar para quê? Deixa que está ótimo.
Não faz assim tanto tempo, o cenário pop musical era divido por um grupo de quatro rapazes bonzinhos e fabulosamente talentosos, e outro mais marginal, que fazia apologia às brigas, ao sexo livre e nunca estava satisfeito.
Naquele tempo eu tinha mais simpatia (não à toa também com o diabo), pelo grupo outsider. Se bem que admitisse, já àquela época, que não dava para comparar musicalmente. Aí, as pedras podiam rolar à vontade que não dava nem para a saída.
Como agora, Joss Stone e Amy Winehouse dividem a cena. A primeira mais discreta, certinha em todos os sentidos (inclusive o melhor), e a segunda, invocada, escandalosa, cruelmente autodestrutiva, algo lânguida e divinamente caótica.
Mal comparando, Joss Stone está mais para o brilheco social de um Ed Motta, e Amy mais para o escárnio do Tim Maia; Joss é linda e novinha como a filha da Zizi Possi (com menos peito, é claro), e Amy lembra a Martinha da Jovem Guarda, trocando o queijo de minas por crack; as pernas de Joss iveteiam, e as de Amy garrincham; Joss é análoga a um Dudu com Ademir da Guia, e Amy reinventa um Almir Pernambuquinho dividindo bola com Júnior Baiano. Assim são as dicotomias baratas e diferenças inerentes. Trocando em miúdos (com a devida licença do Francis e do Chico) não dá para ficar sem as duas partes da maçã.
Caso lhe interesse maçãs inteiras, paradisíacas e letais, sugiro ouvir com calma os velhos discos de uma certa garota texana do mundo, hippie doidona, de óculos redondos, colares e chapéu com penas de pavão, que, no início dos anos 1970, passou por aqui, foi expulsa do Copacabana Palace, fez topless na praia e praticou sexo com o roqueiro Serguei, não necessariamente nessa ordem.
Janis Joplin não morreu, ela foi apenas ao inferno, como o poeta, e voltou. Na dúvida entre Amy e Joss, descambe para Janis. Não há como errar.
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*Marcio Paschoal é escritor. Autor da biografia de João do Vale, “Pisa na fulô mas não maltrata o carcará”.
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