» CRÔNICAS ANTERIORES |

01|08|08 | Isso Não Vai Dar em Nada

20|07|08 |
Tirando de Letra

13|07|08 | AMY-AS OU DEIXE-AS

29|06|08 | O Ladrão e a Vendedora de Seguros

15|06|08 | Os Artistas da Comiseração

08|06|08 | Se Não Me Memória A Falha...

25|05|08 | Lendo jornais e estacionando os carros

11|05|08 | A Família que marcha unida jamais será


20|04|08 | Filipetas

06|04|08 | Marcelo Madureira, Vá ao Glauber!

23|03|08 | Procura Direito Que Acha

24|02|08 | Pode Apostar

10|02|08 | A crônica se rende à folia e dá seu título de samba-enredo: OS RATOS NO CALENDÁRIO E NO CREDIÁRIO – UMA PANORÂMICA DO REINO DO EX-HOLOCAUSTO E DO BICHEIRO QUE NEM PADRE VIEIRA DÁ JEITO


27|01|08 | Gardel, quem diria, acabou em Nilópolis




Crônicas do ano 2007 »



 
» este autor escrevE aos domingos


marciopaschoal@terra.com.br

» RIO DE JANEIRO, 15 de junho DE 2008

OS ARTISTAS DA COMISERAÇÃO

Amizade é coisa de que não se pode dispensar. Heidegger deixava claro que boas amizades superam paixões, e Balzac não se cansava de dizer que amizade valia mais que amor. Há os que afirmam ter muitos amigos, outros já garantem que os verdadeiros se contam nos dedos. Pior pro Lula. Já o dileto Schoppenhauer, filósofo dos deslumbrados, não acreditava nos amigos, preferindo o convívio com os livros, enquanto Churchill queria os inimigos bem de perto para vigiá-los.

Tenho bons amigos, alguns fiéis, outros mais esporádicos; há os remanescentes da infância ou do tempo da faculdade; os que moram perto, aqueles que vivem em outros Estados e no exterior, não importa, é sempre bom lembrar que existem. Principalmente, crer nisso.

Tudo isso a propósito do que me veio na cabeça noite dessas. Show de uma amiga, cantora e compositora talentosa e esforçada. Dia de semana, num restaurante com palco disfarçado, um som nas coxas, e ela lá, acompanhada do violonista, do rapaz na percussão e de Deus. Emocionada, anunciava seu novo disco e agradecia a presença da platéia, que, se não era grande, ao menos não a deixava cantar para o vazio. E essa platéia era formada maciçamente por quem? Pelos amigos, é claro.

Minha irmã insiste para que eu prestigie um vernissage de um amigo artista plástico, debutando em modesta galeria. Não me custava nada. Enfim, vamos lá. Outra vez, uma presença razoável, mas, não duvide, quase toda de amigos. Como não entendo quase nada de arte pictórica, ouvia atento e fascinado aos elogios. Elogio de amigo é tão suspeito quanto o de mãe. E, se ainda houver aquele desgraçadamente mais honesto que gosta de dar a sua opinião, mesmo criticando e visando o melhor para o artista exposto (ou seria a sua obra?),  pronto, criou-se o mal-estar.

Em princípio, o artista parece manifestar aceitação, esforça-se numa postura humilde e pondera que aceita melhor críticas sinceras a falsos e vãos elogios, e coisa e tal. Discurso cretino. Mentira. Fica puto, mesmo. Justifica e entende o recado como vindo de alguém morto de inveja. No mínimo, um ignorante. E vida que segue.

Eu próprio, quando lanço meus livros (sim, me acho escritor), só posso contar com meus amigos de sempre. Sem, eles, a noite de lançamento seria impossível. São os meus únicos leitores. Mas, quem há de garantir que, depois ao chegarem em casa, irão ler algo? Pouquíssimos, como se sabe. No entanto, mais valor ainda se me dá, pois sabendo de antemão que não lerão uma linha, ainda assim estão lá, dando uma força no autor amigo. É compreensível que desabafem entre si: “mas este cara tem imaginação em demasia (ou seria cara-de-pau?), pois é livro todo ano, né? Vá gostar de escrever assim no inferno!”. Pode ser que, no fundo, tenham consciência de sua importância, pois sem esse apoio não haveria noite de autógrafos. E escritores não costumam aceitar o desprezo. Nem eles, nem os demais seres humanos. 

Já soube que num lançamento do autor de “Morangos mofados” não foi ninguém.  Se Caio Fernando Abreu pode, quem não?

Outro amigo, humorista, produziu seu show e na noite de estréia não apareceu ninguém. Fê-lo, profissionalmente, mesmo assim. Na noite seguinte, o fracasso se avizinhava idêntico.  Foi quando o telefone do teatro tocou, e era alguém interessado no espetáculo: “Por favor, a que horas é a sessão?”. A resposta foi imediata: “A que horas o senhor pode vir?”.

Assim vivem, resistem e são de alguma maneira felizes esses artistas: escritores que não possuem a fórmula de um Paulo Coelho; cantoras que não tiveram a sorte e as pernas de uma Ivete; atores que não foram convidados para fazer novela das oito; meninas magricelas e charmosas sem a estrela de uma Giselle ou sem engravidar de roqueiros ingleses. E por aí vai.

Para os pessimistas, se há talento, falta oportunidade. Se há garra, falta padrinho. Serão os artistas da comiseração alheia até sucumbirem ou despontarem para o anonimato definitivo. Assim sossegam.

Já os otimistas têm a certeza de que é só uma questão de tempo. Mais dia menos dia, o verdadeiro artista terá seu talento reconhecido. Possivelmente, a fórceps.

A realidade é que arte boa vem do padeiro na massa; do desvelo da mãe, avó, professora ou babá; do capricho da empacotadora das Casas Bahia; da ginga do assalariado para sobreviver; do cínico roubo do político ou da performance da garota de programa. O resto é literatura. 

...........................................................................................................................................................
(*) Marcio Paschoal é escritor (www.marciopaschoal.com)

Voltar | Capa


Crônicas Cariocas® - 2006 / 2008
Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores
» Outros Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's | Infantil | Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise | O Que Estou Lendo | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais |