A FAMÍLIA QUE MARCHA UNIDA JAMAIS SERÁ VENCIDA

Alguma coisa ficou mal explicada nesta passagem da marcha a favor da maconha, baseada (opa) em uma discussão sobre a sua liberação. Aliás, a marcha não passou, sendo proibida pela justiça, que alegou maus modos.
Cerca de 150 pessoas (estimativa da PM), ali pelas bandas do Arpoador, ficaram frustradas e viram-se obrigadas a dispersar, ou seja, acender mas não marchar agora.
Não se pode ver com simpatia tal proibição. Contrários ou a favor, o mínimo que se espera é a permissão para se expor fatos, idéias e ideais, dito de outro modo, para se chamar a atenção da sociedade para a discussão benéfica de um assunto polêmico, embora não herético.
Não foi assim que entendeu a instância jurídica, infelizmente. Afinal, não se trata de fumar ou não, mas de debater possíveis alternativas para a diminuição da violência. Pode ser discutível, e é bom que seja, mas mais maléfica que a cannabis é a censura de opinião.
Para piorar, em outra praia vizinha, 200 cidadãos (estimativa da PM) marchavam pelo honra da família, ou o que será que isso possa significar. Uma espécie de resposta aos apólogos da maconha. A queixa maior era com a simbologia do movimento, que aquilo era coisa de maconheiro que queria ver sua vida facilitada e se lixava para o malefício da droga. Pode ser, tem muito cara querendo mesmo só maconha e água fresca. Já pensou: entrega em domicílio do fumo? Grass delivery? Ia ser um sucesso. Mas, como defendem os simpatizantes do sexo anal, tem o outro lado. Com a liberação, o aumento do consumo seria inevitável e, não se sabe, a que níveis.
Há quem defenda a tese de que quando o álcool foi proibido nos EUA, nunca se bebeu tanto por lá, e como conseqüência a máfia tornou-se uma real ameaça.
Viu como é complicado? Não custava terem deixado a turma (150 gatos pingados, para mim, é turma) se manifestarem, como foi com a galera da família.
Ainda há como conseqüência obscura, a lembrança dos idos de 64, quando uma parcela insatisfeita da população marchou por itens parecidos. Sei, não, proteger a família dessa forma traz más recordações. Não é por aí. A família não precisa.
Concluímos, então, que marchar agora é o modismo da hora, sucedendo os panelaços e os abraços à orla, lagoa e similares. É só juntar uma centena de pessoas, algumas faixas, ter conhecidos na imprensa, torcer para um dia de sol e, pronto, toma de marcha. A criação de palavras de ordem, slogans como refrões, discursos breves, adesão de curiosos, e o sucesso está garantido. Para atestá-lo (o sucesso) a PM vai ter novamente trabalho para estimar o número de participantes, que uma marcha que se preze tem que haver estimativa da PM.
Para quem achou boa a idéia. Algumas dicas de marchas oportunas:
- Marcha da família sexualmente ativa em defesa da honra do Ronaldo (afinal o craque declarou para a tevê que é inteiramente heterossexual. Difícil será explicar a existência de um meio hetero. Seria um eufêmico neologismo para gilete?);
- Marcha da família paulista em favor do linchamento imediato do pai e da madrasta da Isabella (assim acabava de uma vez essa cobertura excessiva e macabra da mídia);
- Marcha da família petista em prol da ministra Dilma PAC Rousseff (afinal ela só costuma mentir sob tortura ou questionada pelo senador José Agripino Maia);
- Marcha da família sindicalista unida em louvor aos serviços prestados pela ONG Meu Guri (com bonecos simbolizando o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, e sua mulher Elza Pereira);
- Marcha da família cearense em repúdio aos gastos de passagens aéreas do governador Cid Gomes (uma fantasia sugerida seria a da sogra do governador, para servir de malho);
- Marcha da família do fazendeiro Bida para exumação do corpo da missionária Dorothy Stang e posterior processo por difamação e injúria.
Aceitam-se sugestões.
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(*) Marcio Paschoal é escritor (www.marciopaschoal.com)
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