MARCELO MADUREIRA, VÁ AO GLAUBER!
Chamaram o Glauber de cineasta de merda. Ou foram seus filmes? Não importa, o fato gerou uma onda de protestos indignados e solidariedade intensa. Por que, enfim, uma afirmação irresponsável de um casseta idem importunou tanta gente?
Tudo depende da ótica de quem analisa. Glauber foi exceção em seu tempo. Hoje, quem, em sã consciência (sem álcool) e livre arbítrio, conseguiria aturar um Godard, Antonioni ou Bergman impunemente?
Lembro-me bem do cine Flórida, na Siqueira Campos, onde vi alguns desses filmes emblemáticos de uma geração. Era um tempo no qual todo o significado de estar buscando verdades e idéias no escurinho dos cinemas valia a pena e impressionava (mais aos outros do que a si próprio). "Terra em transe" era de rachar a cabeça do cidadão mais paciente. "Morangos silvestres" era mais difícil de entender que a lógica metafísica. De Godard (tirando "Acossado"), só me lembro de ver até o final o documentário maluco sobre os bastidores da gravação dos Stones de "Simpathy for the devil".
Mas era uma temporada de enigmas obrigatórios e encucações elementares. Não consigo me imaginar vendo e revendo o "Sétimo selo" e, no entanto, aconteceu. Confesso: fui duas vezes, quem sabe torcendo pela improvável vitória humana sobre a morte, num xeque-mate duplo. Coisas da juventude mais antenada que transviada. Só repetiria depois a façanha com o "Help" dos Beatles, no Bruni-Copacabana, com duas sessões sem tirar de dentro.
O cinema Um na Prado Jr me recebia para o underground do under movie. Era demais. Não se comia ninguém naquela época sem se ater a um papo cabeça e, nesse quesito, Glauber sempre foi melhor que Domingos de Oliveira. Era como se o diabo suplantasse deus na terra do sol.
O sr. Rocha foi um ícone, mas agora, sob a ótica distorcida das imagens e da velocidade hollywoodiana, não passa de um quebra-cabeça sem pé nem cabeça, mas, daí a ser menosprezado, meu prezado, vai uma longa e injustificável distância.
Marcelo Madureira (autor da proeza herética) apesar do sobrenome e da cara de palerma, não é palerma nem mora em Madureira. Apenas tentou polemizar, assentado na fama e aparente isenção de humorista sem limites que o Casseta & Planeta e a rede Globo lhe conferiram. Verdade é que se fosse o Bussunda teria muito mais graça e crédito. Contudo, sou obrigado a concordar com o viés extrapolante e importuno de Marcelo, mormente se ele tivesse afirmado que Glauber (seus filmes) era chato pra caráio. Aí sim, teria estabelecido uma polêmica real e convincente. Discutamos o teor da obra do baiano genial (tanto quanto Golbery), mas pô-lo à prova em mérito e qualidade é um tanto arriscado e presunçoso. Uma burrice mesmo.
Pode-se discutir a atemporalidade da peça "No Natal a gente vem te buscar", de Naum Alves de Souza, atualmente em cartaz. Quem a viu pela primeira vez e na época era jovem, somente antevia o ocaso mostrado no palco como uma coisa triste de forma bem-humorada. Hoje a peça pede por outras conseqüências apesar do mesmo recado. Mudaram os natais, mudaram os nauns ou mudaram os glaubers? Ou mudou a merda?
No final, fica a certeza de que sempre será bem-vinda a boa discussão e a re-encenação de uma peça tão insidiosamente genial; ou de filmes que marcaram uma época e uma fase tão rica quanto confusa. Mesmo Marcelo Madureira haveria de convir: de merda basta o marasmo.
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(*) Marcio Paschoal é escritor (www.marciopaschoal.com)
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