PODE APOSTAR
A vida é uma aposta. Não uma bosta, mas uma aposta. Uma série delas. Você começa apostando uma corrida que raros vencem. Somente os espermatozóides mais alucinados e afoitos. Dá para se ter uma breve idéia do ser que virá. E esse cara já segue apostando, fazendo sua fé que as mamas serão eternas. Depois, aposta que a vida adulta será mais interessante e animada. Passa um tempo e aposta que nunca mais esquecerá aquele grande amor que o tempo se encarregará de desvanecer. Com a proximidade da falência física e quase mental, chega-se até a apostar numa outra vida. Doses, cigarros, comprimidos, êxtases e se aposta numa fuga imediata, embora infrutífera e nada exeqüível.
Chega a hora do lúdico, do jogo conveniente, da busca pela sorte grande, o sucesso como meta e alívio. Aposta-se quando não se percebe a lógica do perdedor. Sim, as apostas têm sempre uma lógica, cujo perfeito entendimento há que ser rápido, senão transformar-se-á no trágico. A lógica não é falível, como o Flamengo vencer seguidamente o Vasco nas finais. Ela é muito mais uma certeza perversa e enganadora, quase cínica na sua frieza de lógica. Não à toa a história do jogador que dormiu sete horas de sono, acordou às sete em ponto, teria que depositar sete mil no banco e o número da conta tinha vários setes. Lógico que era um sinal. Um aviso. Sonhara a noite toda com cavalos. Pegou então o jornal e reparou que era dia sete. Abriu na página do turfe. No sétimo páreo, lá estava o cavalo Sete Vidas, número sete. Não teve dúvidas, jogou toda a grana, os sete mil. Deu a lógica: o cavalo saiu na frente e na reta final parou, terminando em sétimo lugar. Assim é a fé, anunciando a promessa do cavalo apostado na ponta. Fé cega, faca amolada. Acirra-se a fé, amolam-se as facas, atolam-se as vacas.
O certo é que perdemos para aprender. Ninguém aposta impunemente. Em que pesem os murros na faca, compreendemo-nos mais nas derrotas, e isso eu posso apostar.
Dizem que café faz mal, sai outra pesquisa destacando as propriedades benéficas do cafezinho. Você tem que apostar, ou toma café ou não. Depois o adoçante, que agora engorda mais que o açúcar. Nova aposta: açúcar ou adoçante. Só maluco não percebe que há interesses financeiros por trás. E pela frente também.
Um jogador em Las Vegas acertou na roleta quatro vezes seguidas um pleno (para os leigos, um mesmo número cravado em 36 possíveis). Não, não era o sete. O número não importa, o que vale é que ele morreu logo depois, sem causa aparente. Quem sabe justo por isso. Um defunto milionário. Ou seja, apostou que tudo ia mudar. Mudou mesmo, só que nunca saberemos se para melhor. Não há aqueles que dizem na hora da morte que o fulano foi desta para melhor? Não custa sermos apostadores otimistas. A cegueira da esperança.
Aposto que você está achando que estas mal-traçadas buscam o humor barato, o jogo de palavras, o lero-lero, só perda de tempo. Mas nada pode ser considerado definitivamente perdido. Até o mais canalha servirá de mau exemplo. Lavoisier sabia disso (não do canalha), e sobre a sua lei, qualquer apedeuta já ouviu falar. Até mesmo o ignorante que não sabe que apedeuta é ignorante.
Ninguém precisa apostar para perder. Perde-se a todo instante. Veja o bordão dos assaltantes aos assaltados: perdeu!
Perde-se de tudo: as chaves; o guarda-chuva; a grande chance que bateu à porta; o fôlego; a cabeça; a virgindade (sim, ainda se perde isso); a morena de vista; a paciência com o mundo; a compostura; o ente querido, enfim, há muito mais perdas que danos. Dane-se. Sigamos nosso pensamento, isto é, nossa lógica.
Falávamos de apostas. Mais do que isso, que a vida seria uma aposta constante. Tratar-se-ia de um tira-teima final no qual não descobriríamos ao certo o sentido de ganhar ou perder. Ou qualquer outro sentido, é verdade.
Por aqui, é batata, ganha-se experiência; nenéns quando mulheres estão grávidas; uns quilinhos a mais fora do regime; no sobe-e-desce (mais no sobe) de ações da Bolsa; quando o cartão de crédito de sua esposa é cancelado; no pôquer com os amigos, enfim, quando a sorte é companheira. No cômputo geral, ganha-se bem pouco (incluindo-se aí o salário) se confrontarmos com o que se perde. E a base do raciocínio é o próprio tempo. Como se perde tempo, não? Pode apostar.
Agora mesmo apostei num presidente. Perdi a crença, ou o pior, a fugaz expectativa. Olha que Isso não é pouco para se perder. Quem mandou?
A vida é uma aposta, senhores. Façam seus jogos; beijem suas fichas; confiem em suas cartas; assoprem os dados; escolham os números exatos da loteria. De minha parte, enquanto puder, fico por aqui jogando. Afinal, desconhecemos por completo as regras do jogo que nos espera no final do tempo, na hora agá, no baixar da foice. Nisso você pode apostar.
...........................................................................................................................................................
(*) Marcio Paschoal é escritor (www.marciopaschoal.com)
Voltar | Capa |