A crônica se rende à folia e dá seu título de samba-enredo:
OS RATOS NO CALENDÁRIO E NO CREDIÁRIO – UMA PANORÂMICA DO REINO DO EX-HOLOCAUSTO E DO BICHEIRO QUE NEM PADRE VIEIRA DÁ JEITO
Enfim, anuncia-se o ano novo. Carnaval às cinzas, Beija-Flor mais uma vez e tediosamente campeã, blocos de rua cada vez mais nas ruas, camarotes bombando, cartões corporativos idem, e vida que segue.
Censuraram o carro alegórico (ou seria fantasmagórico?) do holocausto da Viradouro, leia-se Paulo Barros. Talvez tivessem-no achado meio holocáustico. Mas que foi censura, foi. Faltou uma certa liberdade à expressão, embora, convenhamos que Hitler sapateando nos ossos e acenando para a multidão é dose. Não se deve limitar a expressão, e sim, o mau gosto.
Bom, tiraram o führer da passarela do samba e colocaram o Anísio Abrahão desfilando em carro aberto, na vitória pragmática da escola da mesmice. Antes um bicheiro com habeas corpus. Menos mal.
O que me entristeceu de verdade foi censurarem a genitália exposta no desfile da São Clemente. Se tem uma coisa que não me convence é o tal tapa-sexo. Enorme bem fariam se banissem-no de vez. Viva a nudez não castigada!
Outra coisa bastante singular: toda escola que sobe do segundo para o primeiro grupo, retorna invariavelmente à divisão de acesso no ano seguinte. Um rodízio de sobe-e-desce que está ficando manjado.
Rei Momo posto, nosso rei de novo em foco. A política dá as caras e as cartas. Agora, autorizando a criação de uma CPI para investigar os gastos com cartões desde 1998. Parece que a intenção real é revelar que as artimanhas e maracutaias vinham dos tempos de FHC (sabe-se que foi um decreto de 2001, no governo de Fernando Henrique, que instituiu o uso de cartões corporativos no governo federal). Vamos ver no que isso vai dar.
Pizzas à parte, é claro que o governo irá restringir a divulgação desses gastos referentes ao presidente e sua família. Motivo mais que óbvio: segurança.
Pronto, mais seguros com a segurança presidencial, acalmemo-nos. A verdade é que se nota no ar uma renitente má vontade com Lula e seus asseclas do PT. É palpável a indignação e o desapontamento com o Partido dos Trabalhadores. Eles não pregavam tanto contra o capitalismo, o sistema e suas barbáries, e agora lambuzam-se?
Não se trata aqui de um caso de ideologia enganosa, e sim, de simples roubo. Afinal, para desviar dinheiro público em choperias, padarias, consertos de sinuca, free shops, supermercados, lojas de autopeças, material de construção e quiçás, não precisa de filiação partidária. Só de cara de pau, mesmo.
Já imaginaram a farra? Dois assessores parlamentares, do sexo oposto preferencialmente, se enamorando e combinando uma ida a um motel. Pode-se antever o diálogo: no seu cartão corporativo ou no meu?
Chega de folia. O carnaval terminou e o melhor é que não precisaremos mais ouvir falar em comunidades, conhecer as dietas de rainha de bateria e tentar entender os comentários do Haroldo Costa. Com a graça de Deus. E que Ele não nos desampare num ano, cujo domínio, garantem os chineses, será do rato. Por aqui, já os há em grande número, diria até haver uma infestação em Brasília e nas capitais.
Do jeito que tudo caminha para a bagunça, na qual poucos se locupletam e a maioria sai de clóvis e tropas de elite pelos blocos, há que se tomar alguma providência, nem que seja divina. Abaixo os camarotes vips e as mordomias dos donos do poder. Mais decoro e menos ladroagem explícita, pelo amor Dele.
E que, nos 400 anos de Padre Antonio Vieira, saibamos apelar aos estupendos sermões, cada vez mais atuais e bem-vindos, pois encontramo-nos, quase todos, copulatum et malum remuneratum.
(*) é escritor apesar do que possam falar em contrário, não viajou no carnaval nem tem cartão de crédito corporativo, tentou ir ao cinema mas não pôde por causa dos blocos de rua, e torceu pelo Salgueiro à toa.
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(*) Marcio Paschoal é escritor (www.marciopaschoal.com)
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