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» RIO DE JANEIRO, 23 de DEZEMBRO DE 2007

UM CONTINHO DE NATAL

Juán Miguel nasceu em Havana, na ilha de Cuba, perto de Costafreda. Desde menino sonhava em tornar-se um pugilista famoso. Tinha autógrafo de seu ídolo Teófilo e boxeava duas vezes por semana numa academia em Varadero.

Iolanda Maria era carioca e morava na favela Chácara do Céu, no Morro Dois Irmãos, no Leblon. A casa onde vivia com a mãe e mais sete irmãos fora construída em área de preservação ambiental. Todo dia ouvia a mesma ladainha: os fiscais viriam para derrubar a casa. Iolanda já se acostumara ao medo e não dava mais bola às ameaças.

Quando completou 18 anos, Juán veio ao Brasil durante um intercâmbio esportivo. Abandonou a delegação e pediu concessão de refúgio no Comitê Nacional para Refugiados.

Iolanda queria ser manequim. Magra já era, só não tinha traços finos, mas seu sorriso era tão contagiante que agradava aos homens. Talvez tenha sido isso até que atraíra Juán Miguel.

Os dois não casaram, mas Iolanda ficou grávida. Miguel Angel nasceu com três quilos e foi, durante pouco tempo, a alegria do casal.

Mudaram-se para o morro da Providência, num barraco de madeira, à beira de um precipício na Pedra Lisa.

Uma chuva torrencial e rápida levou o barraco abaixo. Iolanda foi soterrada pela lama, tentando salvar a criança, acabando debaixo de algum escombro. Na se sabe a razão, por certo milagre, mas mãe e criança se salvaram. Juán não estava em casa.

O susto foi grande e Juán sentiu o golpe. Nos ringues já não era o mesmo. Começou a beber e criar confusão. Pensou em voltar para Cuba. Perto do seu aniversário, drogou-se com tudo, perdeu a cabeça, pegou numa faca, e foi preso. Terminou na cadeia com overdose. O médico que o assistiu não soube explicar como ele conseguiu sobreviver.

Miguel Angel foi passar férias na casa da avó, na favela Chácara do Céu.
De tarde, foi jogar bola num clube do Leblon. Uma bala perdida atravessou sua cabeça. Morte cerebral. Uma semana depois, no CTI do hospital público, sem que ninguém pudesse explicar, recuperou-se sem seqüelas.

O ano chegando ao fim, Juán não bebe nem se droga mais e dá aulas de box na associação de moradores da favela; Iolanda engordou um pouco e vende quentinhas; Miguel Angel quer estudar direito quando crescer. Os três
vão passar este Natal na Lagoa, de frente para a grande árvore iluminada. Levarão um frango defumado, arroz, farofa e castanhas.

Juán não acredita, Iolanda não sabe se deve contar a verdade, mas Miguel Angel tem certeza que Papai Noel aparecerá por lá.

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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