EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA MORTA
“Cala a boca, Bárbara!”, repetiam Chico e Ruy Guerra no trágico e semipolítico “Calabar”, sob forçada penumbra dos tempos ditatoriais. Bem podiam ser bois voadores abaixo do equador, tatuagens no corpo para seguir viagens ou ainda o ideal cumprido de ainda ser um imenso Portugal. Mas foi na brasa dos charutos das coxas de Ana de Amsterdam que a voz dela mais se calou. Igual a Gilda, nunca houve mulher como Bárbara.
Os tempos mudaram, aberturas, anistias, contragolpes, valeriodutos e pensões. Muita coisa se falou e tanta coisa não foi dita. Hoje calam-se por pouca coisa, os fanfarrões
Por qué no te callas? Um príncipe espanhol mandou um presidente sul-americano calar-se. Todo mundo viu pela tevê. Uns gostaram, outros queriam tê-lo dito e também houve aqueles que o censuraram. Mas foram poucos. A maioria segue convicta com o ditado de quem fala o que quer ouve o que não gosta.
Se a moda pega, muita gente mais deverá ficar atenta a tais apelos. Pelé abriria menos a boca. Lobão assinaria uma trégua e manter-se-ia sem tentar polemizar barato, afinal, se o rock errou, ele deve ter sua parcela de culpa. Que não é pequena.
Uma boa dose de silêncio também faria bem a Lulus, Chorões e Flausinos. O que custaria ao Caetano um silêncio mais prolongado, principalmente em assuntos dos quais não entenda, excetuando-se, é claro, música e Santo Amaro da Purificação? Ou não?
O ministro Gil far-se-ia explicar melhor a cada discurso e César Maia reduziria ao essencial suas sandices.
Outro que muito contribuiria ficando quieto, o superchato Galvão Bueno. Às vezes imagino-o num fictício torneio de exageros autocentrados com outro peso-pesado falastrão, o Fausto Silva. Este fala o quanto pesa.
O PT diminuiria suas metáforas, FH suas lamúrias, Bush suas gafes e Ivete Sangalo sua saia. Não custa sonhar.
Dizem que Maria Callas tinha o dom do canto na proporção inversa da fala ferina. Dizia bobagens, e o público adorava. Também prestavam a atenção nas bobagens de Montserrat Caballé e Elena Obraztsova. Diva é diva
Políticos matreiros disputam mensalões e leiloam cargos a seus pares. E a ralé fica calada porque não lê jornais.
Como calada também ficava a “Biscoito”, de Zezé Macedo, nos ótimos esquetes com o malandro bebum criado por Chico Anysio. Somos, mas quem não é, certo? A experiência aconselha o bom cabrito a não berrar, mormente se estiver sob telhados de vidro ou desempregado.
Não à toa, os mineiros, famosos por comerem quietinhos, também idolatram a discrição. Idem João Gilberto, que não fala coisa com coisa, só canta.
Alguns só escrevem, como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Por qué no hablas? Talvez, seja só gênero.
Seis bilhões por ano para as mordomias do Congresso. Caluda! A ordem é calar.
Atenção, meninas carentes! No Pará a cadeia agora é mista e, para menores, com direito a estupro coletivo. Cala-te, boca.
Por qué no te mancas, Renan? Por qué no te vestes, Monica Veloso?
Tanta coisa para falar, colocar a boca no trombone, sem ser Raul de Souza. O Ronaldinho pipocou, a dengue voltou, o capitão Nascimento surtou, o Harry Potter acabou e o Eurico Miranda não morreu. E dizem pelas esquinas que Lula tentará seu terceiro mandato.
Bico calado, muito cuidado, o homem vem aí.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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