ROUBARAM O ROLEX DO HULK

O apresentador (ou que nome possa se dar ao que ele faz na tevê) Luciano Huck foi assaltado, dia 27/09, no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo. Dois homens armados em uma moto levaram seu rolex.
Até aí, nada de novo. O que impressiona foi o que veio a seguir. Em artigo publicado no dia 01/10, no jornal “Folha de S.Paulo”, o sr. Luciano desabafa sobre o ocorrido. “Como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa”.
O apresentador contou no artigo que, além dele, o irmão e uma funcionária foram assaltados em pouco tempo.
Todos os roubos ocorreram na região dos Jardins, com assaltantes armados em motos.
Será que os meliantes descobriram os Jardins? Quer dizer que precisou doer no bolso e na própria carne para ele sair gritando? Desde quando quantidade de impostos privilegia cidadãos? O depoimento ao jornal, com profundo viés egocêntrico, só faltou dizer da petulância dos assaltantes, nem respeitando mais a ilustre posição artístico-social. Que merda, hein? Precisou perder o rolex e ver um trezoitão nos cornos!
O direito de revolta do cidadão Luciano Huck se compreende; o medo e a indignação também. Ninguém está livre, hoje em dia. Esse é o problema: não se trata mais de nenhuma novidade. Até certo ponto, e para determinado contingente da população, isso até é corriqueiro. Somos obrigados ao convívio com os riscos, os abusos e as barbáries. Uns pouco, outros mais freqüentemente. Agora, vir logo depois do acontecido e mostrar-se inconformado e pasmo é uma colossal demonstração de alienação digna das classes mais favorecidas e idiotas. É nisso que dá fechar condomínios, colocar grades, guaritas, alarmes, segurança particular, blindagem nos carros etc...A realidade fica do lado de fora, maquiada. E quando há uma brecha, pronto, a reclamação convulsiva, a
perplexidade, o caos.
O sr. Luciano também falou sobre o medo de ter uma arma apontada para a cabeça em plena luz do dia. “Hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio”. Caiu-lhe a ficha. Assaltos à luz do dia já deixaram de ser raros e tem gente que perde a vida por muito menos que um relógio. Às vezes até por nada.
Sobre a chiadeira autocentrada do Sr Luciano, o músico Zeca Baleiro declarou: "A nossa elite (se é que merece ser assim chamada) é mesmo patética. Só mostra indignação com a situação do país quando tem o seu rolex roubado. Queria ver Luciano Huck escrevendo um texto tão indignado caso presenciasse uma chacina no Capão Redondo."
Pois é, também acho essa postura - mais para Hulk que Huck - um tanto esdrúxula e fora de hora. Já bem aconselhava Sérgio Porto para nos lucupletarmos todos ou instaurarmos a legalidade. Nos Jardins ou no Capão.
Por um rolex ou uma bala perdida ou achada.
Sei não, mas o tal desabafo na Folha me pareceu mais um infeliz pronunciamento, coisa de quem, meio Maria Antonieta, teve seu brioche roubado.
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Sobre o autor: *MARCIO PASCHOAL é escritor.
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