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Marcio Paschoal
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Um País é Feito de Livros e Babacas

Anäis Nin

Outro dia recebi um simpático email, divulgando a idéia generosa de se doar um livro qualquer que se goste a alguém desconhecido, deixando-o (não o desconhecido, mas o livro) num banco de praça, no balcão da padaria, enfim, em um lugar de fácil visualização e acesso. O plano era a divulgação do livro e o sublinear incentivo à leitura, hábito um tanto negligenciado nesses nossos tempos luizinácios.

Pois não foi o presidente quem mesmo garantiu que não lia nada? Chegou aonde chegou sem leitura e, portanto, nenhuma importância ao fato. A antiga ADEG informaria: sai “um país é feito de homens e livros” e entra ”um país é feito de homens e oportunistas militâncias”. Pobre Monteiro Lobato, sacolejando em seu túmulo na pele de um fodido Visconde de Sabugosa, extremamente mal pago.

Voltando ao tal email. Achei-o uma típica corrente utópica de distribuição espontânea e faceira de livros pelos logradouros da cidade analfabeta. Na linha das bateções de panelas, marchas de branco contra a violência, luto pelas janelas e abraços na orla. Um viés babaquinha e performático, vice-versa de nada a ver com resultados de quase porra nenhuma.

Na verdade, não consegui imaginar novos leitores seduzidos pelo encontro mágico de livros nas padarias, açougues e farmácias pela metrópole.

Pois bem, mesmo assim, procurando me nortear pelos melhores ensinamentos do velho e bom combate, filiei-me constrangido à causa e repassei a mensagem quimérica a meus amigos na rede. Sabia, de antemão, que poderia ser mal interpretado, vítima fácil de gracejos e prejulgamentos do tipo: “ah, esses escritores sonhadores não sabem da vida a metade”, ou pior, “ficam sem ter o que fazer e enchem o saco alheio com baboseiras”.

Juro que tudo isso me passou pela cabeça. Mas, vida que seguia, recebi algumas respostas entusiasmadas de pessoas cujo lema de vida era a letra de “Imagine” de John Lennon. Outras de apoio indireto, mas negando-se a fazer parte do tal movimento já que não acreditavam em Papai Noel, e outros poucos me chamando à realidade, sugerindo, irônicos: “acorda, rapaz, ide a roçar seu ânus nas ostras”.

Muito bem, passado esse tempo, estive em Paraty para receber meu merecido prêmio Flipper, por 12 anos de carreira literária sem cometer suicídio ou ter assaltado ninguém, vivendo exclusivamente de direito autoral e outros bicos, e, na volta, leio nos jornais que um meliante era preso roubando livros de uma escola em São Gonçalo para revenda num sebo. Os roubos vinham acontecendo com certa freqüência e diversas pessoas já haviam ligado para a delegacia dizendo–se compradoras de livros com o carimbo da escola.

O criminoso confessou já ter furtado quase duzentos livros do colégio. Nada a ver com a personagem do best-seller “A menina que roubava livros” que surrupiava exemplares para tornar sua vida mais suportável na Alemanha nazista. Mas, não deixava de ser um meio de vida. Ilícito, sim, mas, comparando-se com Brasília, quase romântico.

No final, e a seu modo, distribuía exemplares e divulgava a leitura, não importando os meios.

Acabei confirmando o que, na véspera, havia sentido quando repassava o tal email conclamando meus colegas a distribuir livros ao léu num mercado de faz-de-conta. A realidade era bem diferente. O ladrãozinho de São Gonçalo era um Robin Hood às avessas, embora só imaginasse um lucro sem esforço.

O que me ficou disso tudo foi a máxima confirmada do cáustico e abençoadamente pornográfico, Henry Miller, em seu insidioso e visionário “Trópico de Câncer”: “a vida é o que rola nas ruas, o resto é apenas literatura”.

Quem diria que Anäis Nin, parafraseando Greta, acabaria num sebo em São Gonçalo...

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Sobre o autor: *MARCIO PASCHOAL é escritor.
// Bolgue ou site pessoal: www.marciopaschoal.com
// Contato: paschoal3@gmail.com

 

 
 
 
     
       
         
 
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