OS RISCOS DE UM POVO SEM EDUCAÇÃO
Somos um povo sabidamente mal-educado. Não falo de cusparadas no chão, avanços de sinal ou jeitinhos diversos e suspeitos. Falo de educação, ensino, escola, aprendizado.
Nossa cultura (se é que já existe uma cultura brasileira) não valoriza a educação. E ponto.
No Rio de Janeiro, nos últimos 10 anos, apenas um colégio foi erguido pelo Estado, que municipalizou outros 300. Essa discussão de municipal, estadual ou federal é tão inócua quanto à do combate aos mosquitos. Eles, os mosquitos, e nós, os deseducados, continuaremos crescendo e se multiplicando.
Enfim, a situação é preocupante. Além da falta de professores, alunos lidam com salas de aula capengas.
Tão desconfortável como a acomodação estudantil é o cargo de secretário estadual da Educação. Em 11 anos, 10 gestores. A bagunça e o troca-troca fazem do Rio um recordista de descalabros. A taxa de evasão escolar na rede estadual fluminense já é o dobro da registrada na região Sudeste.
Outro dia, nosso governador, supostamente com ensino de terceiro grau, saiu proferindo gafes históricas, embebedando Jânio na hora errada e fuzilando Getúlio, entre outras barbaridades.
A propósito, faz tempo, no “Teatrinho Trol”, dramaturgia infantil e ao vivo da extinta TV Tupi, o saudoso Fabio Sabag, num episódio narrando a vida de Joana D´Arc, escolheu um figurante para a mínima fala, que era, na execução da heroína, o decreto final: “Queimem-na na fogueira!”. Não se sabe o motivo, talvez bebedeira, ignorância ou puro nervosismo, ele trocou para: “Fuzilem-na!”. O cenário pronto, a atriz amarrada, fogueira artificial, todos com a tocha a postos, e o maldito figurante, impávido, a repetir: “Vamos, o que esperam, fuzilem-na!”. Sabag, aterrorizado e querendo matar o cara, sem outra saída, sobe até ele e, fingindo calma, sugere: “Vossa Excelência, não acha melhor a queimarmos?” De matar de rir. Programa ao vivo ainda tem dessas maravilhas. Sergio Cabral Filho me lembrou o tal figurante.
Voltando às magras vacas (não as do caso Renan, que estas são bem gordinhas e marotas) da nossa cultura, desenvolvemos e cultivamos o método do embarque na realidade do sucesso rápido sem muito investimento. E educação é investimento, é poupança para o futuro. Aí, a encruzilhada: não somos um país de poupadores, pois nossa propensão para economizar é ridiculamente baixa comparada aos países sérios e mesmo a alguns nem tanto.
Para piorar, a realidade nos prega peças que só contribuem para danificar ainda mais nosso inconsciente coletivo. A violência urbana é sério entrave. Segundo a Unicef (órgão sério apesar do Renato Aragão), os confrontos no complexo do Alemão prejudicaram pelo menos 5.000 alunos. É como atravessar uma faixa de Gaza todo dia para ir à escola.
Por fim, o fenômeno televisivo. O efeito Xuxa. Nossa educação vem sendo vilipendiada, como bem mostrou uma reportagem recente pautada pela própria tevê, onde professores de uma escola no nordeste deixavam os seus alunos (no horário das aulas) assistindo à televisão para "encher" o tempo.
Quem está cheia é a tampa. Vamos de mal a bem pior. Não sei a solução, mas desconfio que o cenário só mudará, no mínimo, daqui a duas gerações, e nós estamos "cagando" para o que não é imediatismo. Pensar a longo prazo é competência somente de pessoas com alguma capacidade e educação para tal. Logo, como sair desse ciclo pernicioso?
O último a sair apague o giz do quadro-negro.
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*Marcio Paschoal é escritor.
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