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» RIO DE JANEIRO, 12 DE AGOSTO DE 2007

DUAS MEDIDAS E DOIS PESOS-PESADOS

Dois cubanos escapuliram dos jogos pan-americanos e se meteram (e, supõe-se também andaram metendo) em escusas farras por Niterói, Itaipu e Araruama.

A princípio, deduziram todos que se tratava de mais um caso de deserção, sexo e rock´roll (no caso, rumba). Fugas espetaculares como muitas anteriores, seguindo a esteira da piada na famosa corrida de remo Havana-Florida, aquela do “atira, atira que eles estão fugindo para Miami...”.

Acontece que os dois atletas fugidios, levadiços e taradões haviam deixado suas famílias em Cuba. Numa repentina crise de consciência e temendo que seus familiares ficassem sem luz e suprimentos, além de outras retaliações ao estilo paredón soft, resolveram voltar atrás e entregaram-se à polícia brasileira. Ou seja, asilo ao contrário espontâneo.

Aos policiais justificaram seus desaparecimentos por terem bebido (possivelmente rum com coca-cola) e comido bem (possivelmente também de forma carnal-literal). Não tinham, por conseguinte de bela ressaca, nenhuma condição de lutar.

A Polícia Federal afirmou que os cubanos pediram para voltar a seu país, alegando saudades das famílias. Podemos até imaginar a emoção tomando conta de todos no recinto da PF. Afinal quem não tem saudade da família e não pulou a cerca um dia?

Foram então mandados de volta para Cuba, rapidamente.

Enquanto isso, a Anistia Internacional criticava duramente o Brasil pela deportação dos pugilistas cubanos. Sabe-se que qualquer pessoa que manifesta-se contra o regime de Fidel sofre represálias e, segundo a Anistia, eles sofrerão bastante, mesmo não sendo presos.

Os responsáveis pela orgia dos cubanos no Rio, um alemão, agente de boxe, e um espanhol identificado como Alex, tiraram o corpo fora e garantiram que tudo já havia sido combinado e que os cubanos tinham até algumas lutas agendadas na Alemanha.

Outros participantes do festim suspeito, lutadores de vale-tudo cariocas, disseram que os pugilistas pretendiam abrir uma academia de boxe no Rio.

Prontamente, o senador Arthur Virgílio (AM) aprovou requerimento para convocação do ministro Tarso Genro na tentativa de entendimento dos motivos que levaram o governo a deportar os cubanos. Todos estão ávidos por uma explicação a cerca da rapidez com que o avião chegou e levou-os, e se as despesas teriam sido custeadas pelo governo brasileiro.

O Itamaraty se isentou de qualquer participação no episódio, justificando falta de competência. Entenda-se falta de competência como “este assunto-abacaxi não nos compete”. O que muitos, com sobra de motivos, entenderão como incompetência mesmo. 

Alguns tribunos inoportunos manifestaram sua revolta no plenário ao saber da deportação dos pugilistas farristas, argumentando que simpatias ideológicas dos petistas com governos totalitários se prestam a manchar a tradição da diplomacia brasileira, com forte tradição de concessão de asilos políticos.

O caso de Olga Benário não poderia deixar de ser lembrado, quando a mulher do líder comunista Prestes foi mandada grávida pela ditadura Vargas à Alemanha nazista. Calma, calma, nem tanto, pois a memória de Olga não merece.

Agora, o curioso é que outros dois atletas de Cuba, um ciclista e um jogador de handebol também egressos de deserções do Pan ficaram no Brasil e receberam cédula de identidade e carteira de trabalho provisória. Eles terão esse direito até o fim da tramitação de pedido de refúgio político no Comitê para Refugiados.

Portanto, vê-se tratar-se de um caso de pesos e medidas distintos. Por que o ciclista e o jogador de handebol podem e os boxeadores não? Seriam os boxeadores simples libertinos malucos e que, de fato, não queriam abandonar seu país em busca de melhores horizontes às suas carreiras? Por que a pressa em devolvê-los a Fidel? Quem pagou a conta?

Cuba sempre vive envolta em mistérios, lendas e ufanismos. E o Brasil nunca foi exemplo de regularidade e coerência em termos de metodologia e éticas. No final, podem apostar, nada será esclarecido e ficará o dito pelo não dito.  Capaz até de uma lei ainda regulamentar a deportação de boxeadores estrangeiros e uma outra permitir a ciclistas e jogadores de handebol o livre acesso ao nosso mercado de trabalho. Não duvidem, não duvidem...

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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