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» RIO DE JANEIRO, 7 DE AGOSTO DE 2007

Se Eça de Queirós Estivesse Vivo não Viajaria de TAM

"O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido! "

O que aparentemente poderia muito bem ter sido escrito por qualquer um
crítico opositor, dada a sua atualidade, foi-o por Eça de Queirós, em 1871. Portanto, Eça o fez porque quis há mais de 130 anos, e as coisas mantiveram-se com poucas mudanças e várias verossimilhanças. Ou melhor, lambanças.

O escritor prenunciava e pronunciava-se sobre os "novos tempos". Esses novos tempos sempre existiram e, por definição, sempre incomodaram, mas permitia-se ser objeto de reflexões de uma vida ou até por mais de uma geração. Hoje se ainda temos tempo para essas reflexões, tendemos a aderir a um niilismo (quase) dominante e "deixarmos pra lá", ligamos o "foda-se”.        

O mundo hoje é mais complexo; a ética já não se define tão simplesmente quanto outrora; os códigos de moral confrontam-se;... e ainda estamos longe da tal ética. Vemos, amedrontados, os códigos morais que nos restam serem dilapidados pelas elites e pelas classes governantes. Há quem até sinceramente acredite que segue princípios e que é ético; e talvez seja mesmo. Depende da orelha com que se escuta.

Conclamo, no final da crônica e, quiçá, dos tempos, que tentemos renovar os votos de uma ética clássica.

Mas como fazê-lo com zelo? Escrevendo (quantos leram Eça?... sem contar os que acharam que sua narrativa era ficção...)?

O fato - independente de se Renan será esquecido ou não (afinal teremos a Mônica Veloso na Playboy), ou se decifraremos o que raios o Sr. Conde sabe fazer, se gerenciar cultura ou usinas elétricas - é que cabe-nos chiar. Caso contrário, com a ausência das denúncias, corre-se o incômodo risco de eles entenderem que somos cúmplices.

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    *Marcio Paschoal é escritor.


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